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Marcas viram alvo de disputa política na qual não pediram para entrar, avaliam analistas

© Foto / Joédson Alves / Agência BrasilProdutos da marca Ypê tiveram fabricação suspensa pela Anvisa por risco sanitário
Produtos da marca Ypê tiveram fabricação suspensa pela Anvisa por risco sanitário - Sputnik Brasil, 1920, 20.05.2026
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Após a Anvisa pedir a suspensão da produção em fábrica da Ypê, congressistas e eleitores opositores ao governo Lula levantaram a hipótese de uma ação política disfarçada de operação sanitária. Em poucas horas, itens de limpeza da marca ganharam selo "de direita".
Há cerca de duas semanas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu a fabricação e comercialização de diversos produtos da marca Ypê, incluindo lava-louças (detergente), sabão líquido e desinfetantes. Segundo a Anvisa, uma das fábricas da companhia, localizada em Amparo (SP), foi interditada por "risco sanitário".
"Foram constatados descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, o que inclui falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade", explicou a Anvisa.
Conforme publicado pela Agência Brasil, foi encontrada na fábrica da Ypê em Amparo uma bactéria conhecida como Pseudomonas aeruginosa, que oferece grande resistência a antibióticos. Esse tipo de organismo vivo pode sobreviver inclusive em esponjas e panos que tiveram contato com os produtos contaminados.
Nas redes sociais, as preocupações sanitárias, no entanto, logo deram espaço a uma disputa política ao redor da ação da Anvisa. Internautas de direita atrelaram a determinação da agência sanitária a uma retaliação por integrantes da alta cúpula da Ypê terem doado R$ 1,5 milhão à campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022.
Vídeos de pessoas utilizando produtos Ypê e inclusive bebendo detergentes da marca começaram a viralizar nas redes. O deputado federal Sargento Fahur (PL-PR) utilizou o produto para lavar o bigode, sua marca registrada. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) reforçou o coro da retaliação à doação a Bolsonaro, enquanto o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) insinuou uma ação do governo para enfraquecer a Ypê e fortalecer a empresa Flora, propriedade dos irmãos Joesley e Wesley Batista e detentora da marca Minuano.
Dessa forma, a Ypê passou a ser defendida como uma "marca de direita", da mesma forma que a Havaianas foi vista como "marca de esquerda" após veicular um comercial, no fim de 2025, no qual a atriz Fernanda Torres diz que se deve entrar com os dois pés em 2026, e não só com o direito, costumeiramente tratado como ato que traz sorte.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a maioria das marcas, sem qualquer tipo de intenção, é trazida para o campo da popularização, que ganhou o cenário político nacional ao longo da última década.
Viktor Chagas, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que o ponto inicial para pensar esse assunto não é se eleitores acreditam ou não em boatos e rumores sobre a ação da Anvisa em relação a Ypê ou se a Havaianas atacou a direita, mas sim o propósito e os efeitos desta disseminação.

"No fundo, trata-se menos de uma questão de crença e mais de um compartilhamento de ideias, valores e significados em comum. É menos se o eleitor efetivamente vai acreditar ou não acreditar, e mais de que lado ele está."

Chagas destaca o ambiente polarizado em que o Brasil vive atualmente, marcado principalmente por apoiadores de Bolsonaro e Lula. Na visão do especialista, essas teorias ajudam a "reafirmar um conjunto de valores comuns" e uma "identidade política".

"As marcas, de certo modo, nunca foram neutras, evidentemente, mas acho que elas continuam ocupando o mesmo papel que ocupavam um tempo atrás. O que muda, na verdade, é a postura desse eleitor, a postura desse indivíduo em relação à própria marca."

Para Chagas, o eleitor hoje possui um protagonismo possibilitado pelas mudanças tecnológicas, como as redes sociais. Na visão do analista, o ambiente digital faz com que esse apoiador de um determinado grupo político "se sinta mais seguro de si, mais no controle". Ações como boicote ou apoio a marcas deixam a esfera privada e se tornam públicas.

"À medida que esses eleitores, por exemplo, passam a disputar essas narrativas, eles passam também, evidentemente, a mobilizar esse ambiente de acordo com a narrativa com a qual eles estão lidando. E aí as marcas passam a ser um antagonista, no caso da Havaianas; ou passam a ser um aliado, no caso da Ypê."

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - Sputnik Brasil, 1920, 18.05.2026
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'A vida à luz do ângulo do mercado'

Afonso Albuquerque, professor do programa de pós-graduação em comunicação da UFF, acredita que, para explicar fenômenos como os que aconteceram com Havaianas e Ypê, é preciso pensar na lógica neoliberal sobre outros campos da vida além do financeiro.
Segundo Albuquerque, o neoliberalismo "vê a vida como um todo à luz do ângulo do mercado", "o mercado como o espelho" da sociedade, e todas as instituições devem seguir esse farol.

"A cidadania, dentro da lógica neoliberal, passa a ser assimilada a uma lógica de consumo. Então cada vez mais — acho que isso é muito característico de gerações mais novas — as pessoas passam a demandar que os produtos atendam a demandas políticas, que são cada vez mais políticas de identidade."

Como exemplo para o raciocínio apresentado, Albuquerque explica que campanhas publicitárias com apoio a pautas de diversidade são uma demonstração dessa lógica, mostrando que há uma politização do mercado — por escolha própria ou não.

"A reação da extrema-direita é se opor a essa lógica [da diversidade], que se tornou lógica dominante, e construir um tipo de retórica na qual os produtos são produtos 'de direita'."

Para Chagas, existe atualmente a construção de uma política "a partir das lentes do populismo autoritário", que coloca a sociedade, assim como as marcas, em uma espécie de nós contra eles.

"Trata-se de uma lente a partir da qual se passa a enxergar a realidade ou construir essa realidade, indicando que é preciso construir uma identificação imediata. Trata-se de construir uma fronteira que demarca quem somos nós e quem são os outros, aqueles contra os quais lutamos, e isso independentemente de se tratar de um produto ou de uma marca."

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