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Convergência político-econômica entre Rússia e China ganha ineditismo graças aos EUA, diz analista

© Sputnik / Kristina SolovyovaO presidente russo, Vladimir Putin, e seu homólogo chinês, Xi Jinping, durante reunião em Pequim, em 20 de maio de 2026
O presidente russo, Vladimir Putin, e seu homólogo chinês, Xi Jinping, durante reunião em Pequim, em 20 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 21.05.2026
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O encontro do presidente russo, Vladimir Putin, com seu homólogo chinês, Xi Jinping, em Pequim, nesta quarta-feira (20), foi apenas mais uma entre dezenas de visitas oficiais realizadas entre os dois.
Entretanto, os mais de 40 acordos assinados e as declarações dos mandatários nos eventos revelam um aprofundamento inédito das relações bilaterais e uma maior convergência de propósitos no sistema internacional, avaliou o professor Diego Pautasso, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
"Se analisarmos esse um quarto de século posterior a esse acordo, temos uma dinâmica incremental na qual as rusgas são praticamente insignificantes, se comparadas ao tamanho do incremento das relações diplomáticas, comerciais, políticas e estratégicas", disse ele em conversa com o Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, desta quinta-feira (21).
"Sobretudo a convergência de posição nos temas estruturantes da ordem e conformação do sistema internacional."
Mundioka #883 - Sputnik Brasil, 1920, 21.05.2026
Mundioka
O novo tom do Sul Global: como a amizade sino-russa influencia a ordem internacional?
Diante das investidas e dos ataques recorrentes dos EUA nas últimas duas décadas, com sanções econômicas e guerra tarifária, Rússia e China buscaram estratégias conjuntas de resistência. Nesse sentido, o esforço de fortalecer um mundo multilateral e refrear os ímpetos imperiais estadunidenses ficou evidente no encontro.
Para isso, os países vêm buscando estratégias conjuntas de resistência, em especial através de mecanismos multilaterais com outros países do Sul Global, como o BRICS e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX).

"Nesses fóruns, inclusive, há construção de alternativas sistêmicas, alternativas de governança, alternativas de financiamento, alternativas inclusive de moeda para negociação do comércio bilateral — em que eles já conseguiram dispensar o dólar como principal instrumento", elencou o estudioso.

Negócios e parcerias a perder de vista

Para além das afinidades ideológicas, há ainda as convergências econômicas e comerciais, frisou o entrevistado, uma vez que a China necessita de enormes recursos naturais e energia, e a Rússia tem grande capacidade e grande estoque.
Cocriador do projeto "Fios de China" e autor do livro "A China e a Nova Rota da Seda", Pautasso lembrou que um dos temas tratados pelos mandatários em Pequim foi justamente a discussão acerca da construção do gasoduto Força da Sibéria 2.

"O Força da Sibéria 2 é um gasoduto importantíssimo, que obviamente vai se somar ao primeiro e vai aumentar muito o fluxo de hidrocarbonetos para a China. Isso amplia a segurança energética chinesa, porque evita o estreito de Malaca, evita o estreito de Ormuz, é um escoamento por via territorial direta que não passa por nenhum outro país."

Com as sanções europeias e estadunidenses contra a Rússia, a demanda chinesa se tornou imperativa e incrementou o comércio bilateral, que já ultrapassa os US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão).
Ao elencar diversos empreendimentos e conquistas chinesas, como a Iniciativa Cinturão e Rota, e corredores na Eurásia de infraestrutura, transporte e portos, o estudioso afirmou que a China provoca um deslocamento do epicentro geoeconômico do mundo do Atlântico Norte para a Eurásia e para o leste da Ásia:

"Isso mostra o nascimento de uma nova geografia, de um novo polo econômico, no qual os investimentos chineses desempenham papel fundamental. Cada vez mais os trens, trens de alta velocidade, gasodutos, como os Força da Sibéria 1 e 2, estão redefinindo a geografia do mundo justamente na região que tem o maior adensamento demográfico."

O presidente chinês Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin durante uma reunião em Pequim - Sputnik Brasil, 1920, 21.05.2026
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Soberania digital

Os acordos assinados na visita também englobam as áreas de pesquisa, educação, ciência e tecnologia, áreas nas quais Rússia e China têm expertise e investem em inovação. A iniciativa também se afasta do eurocentrismo que caracterizou a produção científica e de conhecimento nos últimos dois séculos.
Segundo ele, por meio da tecnologia, a China se coloca como país-chave para um novo modelo de utilização das tecnologias digitais, para confrontar o monopólio que os americanos exerciam nesse campo.
Por um lado, nos Estados Unidos as big techs estão ligadas a interesses absolutamente privados dessas inovações, como a inteligência artificial, disse Pautasso.

"Já na China, sobretudo a inteligência artificial tem sido parte determinante da modernização produtiva, da automação das indústrias e do aprimoramento de serviços públicos, da assim chamada governança digital."

Com núcleos de excelência e predisposição para construir seu ecossistema digital, além de pilares sólidos no que diz respeito à soberania digital, a Rússia tem muito a ganhar nessa cooperação com a China.
A cooperação, entretanto, também atinge outras áreas do setor da alta tecnologia, como o espacial e o militar. Essas áreas talvez sejam um dos pontos tecnológicos de troca mais longevos entre as duas nações.

"A tecnologia russa foi importantíssima para que a China alavancasse suas capacidades militares. O primeiro porta-avião chinês é de origem soviética e foi remodelado a partir daí."

Trump também esteve em Pequim

Uma semana antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, fez também uma visita oficial a Pequim, após anos de jejum de líderes estadunidenses. Segundo Pautasso, a comitiva foi "enorme", assim como as demandas.

"[Trump ficou] Clamando pela retomada das compras da Boeing, de semicondutores, de soja e de outros produtos alimentícios, […] enquanto a China tinha basicamente uma questão: 'Não se metam com Taiwan, essa é uma questão sensível para nós. Senão nada disso vai prosperar’. Então a China me parece em posição de força."

O clima da visita contrastou com os últimos meses de tensões e ameaças trocadas entre os governos de Trump e de Xi, fruto da institucionalização de uma política de contenção da China por parte dos EUA.
Nesse novo horizonte, o eixo sino-russo se coloca como "uma espécie de gérmen" para a constituição de uma nova ordem internacional e uma nova configuração diplomática. Isso fica claro com o apoio chinês à Rússia em relação ao conflito ucraniano, visto por Pequim como resultado de um posicionamento defensivo contra os desmandos do Ocidente.

"O que se viu nessa grande prova de fogo é que a China tem clareza da direção para a qual o mundo se movimenta. Não se tratou, evidentemente, de uma invasão russa da Ucrânia, mas, ao contrário, de uma guerra por procuração da Ucrânia e da OTAN contra a Rússia, contra o BRICS, contra o Sul Global. Portanto, a China manteve-se aliada à posição da Rússia, e mantendo as relações econômicas, comerciais e diplomáticas como se o conflito não tivesse acontecido."

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