Super El Niño: intervalo entre eventos extremos vem encurtando devido a policrises
16:19 26.05.2026 (atualizado: 16:54 26.05.2026)

© Foto / Mayandi Inzaulgarat / ICMBio
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialista alerta para o esgotamento do modelo econômico neoliberal e para o enfraquecimento do multilateralismo. Meteorologista destaca possibilidade de secas em regiões com potencial agrícola.
A Organização Mundial de Meteorologia (OMM), agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgou no último mês de abril um alerta para o El Niño neste ano. Há poucos dias, no entanto, modelos meteorológicos identificaram que o fenômeno pode ter alta intensidade em 2026 e com eventos extremos a nível global, incluindo secas e fortes tempestades.
Nas redes sociais, não demorou muito tempo para que o tema viralizasse e, como consequência, gerasse alarde entre os internautas, que logo passaram a citar o Super El Niño de 1877/1888. Estima-se que 50 milhões de pessoas tenham morrido em consequência dos eventos extremos gerados pelo fenômeno.
O El Niño se dá quando as águas do Pacífico Equatorial apresentam alta de 0,5 ºC acima da média histórica. Quando a temperatura do oceano nessa região fica acima de 1,5 ºC, o evento é visto como forte, enquanto acima de 2 ºC é classificado como extremo.
Com a expectativa de que o fenômeno comece já em julho, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou que o governo federal e os estados que compõem a Amazônia Legal apresentem até o dia 28 um planejamento para combater os incêndios tradicionais causados pelo tempo seco provocado pelo El Niño no centro-norte brasileiro.
A questão, todavia, não é só climática, mas também econômica. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou na última segunda-feira (25) que o Comitê de Política Monetária (Copom) acompanha de perto os efeitos do El Niño para discutir um eventual corte da Selic, a taxa básica de juros da economia.
Segundo Galípolo, o fenômeno climático e a guerra no Irã, que fechou o estreito de Ormuz, são dois eventos monitorados para o planejamento do Banco Central.
"O que a política monetária vem tentando analisar é segregar o que realmente é um elemento de oferta exclusivamente e quais são as possibilidades e riscos que existem, o que a gente chama de efeito de segunda ordem."
O mundo é capaz de sobreviver a policrises?
Em entrevista à Sputnik Brasil, Pablo Saturnino, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do grupo de pesquisa LabMundo, também da UERJ, conta que o Brasil, assim como o mundo, já enfrenta um contexto de policrise.
O termo é utilizado para definir a interdependência entre crises geopolíticas, econômicas, climáticas e energéticas. Neste momento, por exemplo, uma crise geopolítica entre Estados Unidos, Israel e Irã gerou o fechamento do estreito de Ormuz, o que engatilhou uma crise econômica e energética pela interrupção da passagem de 20% do suprimento de gás e petróleo global.
Gás e petróleo, transportados pelo estreito, por sua vez, estão entre os principais responsáveis pela emissão de poluentes que aumentam o efeito estufa, apontado como uma das causas para a crise climática. Esse desequilíbrio ambiental, como consequência, faz com que eventos extremos, como o El Niños de alta intensidade, sejam mais frequentes.
Na visão de Saturnino, esse ciclo de crises é desencadeado pelo esgotamento de um modelo de desenvolvimento neoliberal e acirramento de conflitos que levam ao desmantelamento do multilateralismo.
"É difícil separar apenas as crises energéticas e climáticas das outras de dimensão geopolítica. […] Vejo que a questão energética reflete também um padrão de desenvolvimento que é muito desigual. Então a gente percebe que há uma assimetria nas responsabilidades se a gente considerar a situação dentro dos países, principalmente as corporações e os estados."
Saturnino também destaca a crise no mercado de trabalho formal e a desigualdade de renda. Em eventos climáticos extremos, o professor reforça que os grupos mais impactados são aqueles precarizados que, por exemplo, precisam construir casas em encostas sem o devido preparo do terreno.
"A justiça climática aponta justamente as assimetrias do impacto das mudanças climáticas. E, nesse caso, a gente vai, infelizmente, mais uma vez, assistir a situações que vão impactar principalmente essas populações vulnerabilizadas."
Sobre as capacidades brasileiras para superar um Super El Niño, Saturnino aponta que não faltam meios, mas sim um interesse brasileiro para se preparar para eventos do tipo, em vez de apenas reagir às eventuais consequências.
"Recursos nós temos, a questão é prioridade de políticas de enfrentamento às mudanças climáticas. A gente sabe que, apesar de o Brasil ter um discurso de bom cidadão internacional, de transição energética, a gente não pode esquecer que o nosso modelo de desenvolvimento é calcado, principalmente, em atividades econômicas que têm um padrão de emissão muito alto."
Brasil terá seca no Norte e aumento de chuvas no Sul
Augusto José Pereira Filho, professor sênior do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), explicou em entrevista à Sputnik Brasil que modelos meteorológicos apontam para temperaturas 2 ºC acima do normal na região do Pacífico Equatorial até o fim do ano.
Esse aumento deve provocar secas no Norte do Brasil e aumento de chuvas durante o inverno no Sul do país. Já a nível global, são esperadas precipitações abaixo do normal nas Américas Central e do Norte, África Meridional, Eurásia e Indonésia ― as duas últimas citadas são reconhecidas por suas capacidades agrícolas.
Pereira Filho alerta para as chances de maior incidência de incêndios em florestas com o El Niño até, pelo menos, o fim deste ano. Segundo o especialista, é preciso maior investimento em meteorologia no Brasil para mitigar os riscos de eventos extremos desse tipo.
"Os investimentos na área de proteção civil e meteorologia são limitados no Brasil. A meteorologia carece de sistemas de monitoramento local e remoto adequados e profissionais com especialização em eventos extremos de tempo e variabilidade de clima."
O professor sênior destaca que a OMM é responsável por auxiliar a cooperação global no tema. No entanto, cabe a cada país, de maneira individual, lidar com os eventos extremos.
"A mitigação de eventos extremos de tempo e clima depende de treinamento e preparo da população por meio de programas educacionais e com rápido acesso às informações providas e disseminadas pelas defesas civis com apoio das mídias."




