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PCC e CV como terroristas: decisão dos EUA tem viés eleitoral, diz especialista

© AP Photo / Mark SchiefelbeinA bandeira norte-americana no gramado norte da Casa Branca em Washington hasteada a meio mastro após a morte de Charlie Kirk
A bandeira norte-americana no gramado norte da Casa Branca em Washington hasteada a meio mastro após a morte de Charlie Kirk - Sputnik Brasil, 1920, 29.05.2026
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Após meses de ameaças, os Estados Unidos cumpriram a promessa e classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. Apesar dos apelos do governo brasileiro, medida foi tomada no dia seguinte à visita do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Sob a justificativa de influenciarem a segurança pública nos Estados Unidos, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou na última quinta-feira (28) que o PCC e o CV agora são considerados pelo país organizações terroristas estrangeiras. A medida tem impactos econômicos e judiciais: Washington passa a ter poder de congelar bens e contas, além de bloquear transferências e permitir prender e processar pessoas que apoiem essas facções.
A nova classificação ocorreu um dia após Flávio Bolsonaro se encontrar com Rubio, e surpreendeu o governo. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou o risco à soberania nacional e o tratamento norte-americano ao Brasil como uma "republiqueta", os principais adversários do petista na disputa à reeleição neste ano comemoraram. Além do senador fluminense, os pré-candidatos Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) rasgaram elogios à iniciativa do governo Donald Trump.
O comentarista de segurança pública e presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina, José Ricardo Bandeira, vê a medida como uma manobra do governo norte-americano com vistas às eleições de outubro no Brasil.
"Há uma tentativa de mobilização de determinados segmentos da sociedade brasileira para fazer essa movimentação ideológica, não tenho nenhuma dúvida quanto a isso. Veio em uma hora muito oportuna, que antecede as campanhas eleitorais para a Presidência da República sem ter nenhum efeito prático no combate à violência e à criminalidade", defende à Sputnik Brasil.
O especialista também pontua que há uma tentativa de interferência na própria soberania brasileira, cuja legislação atual não enquadra essas facções como terroristas, mas sim criminosas. Bandeira acredita que o risco de operações militares no país, a exemplo do que ocorreu com a Venezuela, é pequeno. Contudo, a classificação abre margem para sanções econômicas contra o Brasil.
"O país pode impor até o confisco de bens dessas instituições que lavam dinheiro para o crime organizado [...]. Mas, para a segurança pública, vamos continuar vivenciando mais do mesmo, ou seja, não vai haver uma quebra de domínio territorial das facções criminosas e nem uma interrupção do fluxo de drogas, armas e munições que circulam em território nacional", afirma.
Para o especialista, combater essas organizações só é possível através de uma política de segurança pública que integre os governos federal e estaduais com a quebra do domínio dos territórios controlados por essas facções — que concentram mais de 50 milhões ou 24% da população brasileira.
"Não serão os Estados Unidos que vão mandar uma tropa de elite, os fuzileiros navais ou os Navy SEALs, para invadir comunidades do Rio de Janeiro e de São Paulo com o objetivo de reduzir a violência e a criminalidade. Isso não vai acontecer. Então, a gente tem que ter os pés no chão neste momento e entender que essa ação não tem nenhum efeito prático em benefício da população", argumenta.

Enfrentamento ao CV e PCC é prioridade, diz governo

Em reação à iniciativa norte-americana, o governo brasileiro se manifestou nesta sexta (29) e pontuou que o país trava um combate permanente contra CV e PCC, além de outras facções criminosas e milícias "que praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias".
"É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país. Aprovamos recentemente uma lei de combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a maior prevista em toda a legislação brasileira", pontua a nota, ao citar que a soberania nacional é "inegociável".
Apesar da manifestação, Bandeira acredita que o governo Lula "ainda está pisando em ovos" sobre a questão e defende uma atitude mais enérgica frente à Casa Branca.
"Os Estados Unidos fazem o que quiserem dentro do próprio território, mas eles não têm qualquer ingerência no Brasil porque temos a soberania nacional e precisamos preservá-la. Mas, a partir desse momento, o governo brasileiro tem a obrigação de ter um olhar mais aprofundado para a questão".
Já o professor de relações internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) Thiago Rodrigues teme um impacto direto à economia brasileira. "Seja no sistema financeiro, na economia formal ou até no agronegócio, que pode ser acusado, por exemplo, de usar uma empresa de transporte que, por alguma razão, esteja envolvida com o PCC [até sem saber]. O empresário ou a própria companhia podem ser processados nos Estados Unidos", avalia à Sputnik Brasil.
De acordo com Rodrigues, Trump já havia aventado a possibilidade de classificar as facções como terroristas, que ficam ao lado de grupos como o Daesh e Al-Qaeda (organizações terroristas proibidas na Rússia e em vários outros países), desde o ano passado. "No primeiro dia de governo, ele já assina uma ordem executiva que amplia a classicação de grupos terroristas para facções do crime organizado. A primeira leva incluiu cartéis do México, El Salvador e Venezuela, o que abriu a possibilidade de uma guerra contra o terrorismo e do uso de todas as medidas de Estado".
O especialista ainda enfatiza que há uma "chantagem internacional" a partir dessa medida, que também pode afetar até o turismo no Brasil.
"Se for cumprida a promessa de, na próxima semana, colocar essas organizações na lista de grupos terroristas internacionais, tudo isso se mantém e ainda se amplia a possibilidade de processos criminais contra essas pessoas, que podem prever até prisão perpétua no sistema penitenciário federal americano para estrangeiros condenados. E como essas pessoas seriam presas? Seriam presas, por exemplo, por meio de capturas realizadas em terceiros países, ou seja, por uma ação unilateral dos Estados Unidos para deter essas pessoas fora do território brasileiro", conclui.

CV na Ucrânia

Robinson Farinazzo, membro do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (Gsec), avaliou como "lamentável" a decisão de autoridades norte-americanas tomarem essa medida "político-eleitoreira", "sem pensar em uma relação boa, que tem 200 anos", entre Brasil e Estados Unidos.
Além dos aspectos bilaterais já destacados, Farinazzo aponta outra consequência importante dessa decisão dos EUA, que pode afetar indiretamente suas relações com a Ucrânia.
O especialista lembrou que o CV, agora designado terrorista, vem realizando um importante intercâmbio militar com as forças ucranianas, a fim de treinar seus membros para operações de combate e uso de drones. Ele questiona se, com essa classificação, os recrutadores responsáveis por levar esses criminosos à Ucrânia sofrerão consequências por parte de Washington.
"Esse pessoal está intimamente ligado ao CV e ao Terceiro Comando [outra organização criminosa brasileira]. E muitos desses recrutadores são apoiadores do Flávio Bolsonaro. Então, acho que o tiro foi mais no pé ainda do que esse pessoal estava imaginando. Porque vai ter que colocar esse pessoal no bolo também."
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