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Quinze anos da morte de Bin Laden: guerra ao terror encabeçada pelos EUA deixou o mundo mais seguro?

© AP PhotoLíder da organização terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, no Afeganistão, em foto de 1998
Líder da organização terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, no Afeganistão, em foto de 1998 - Sputnik Brasil, 1920, 01.05.2026
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Uma das principais figuras dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, Osama Bin Laden foi procurado pelas autoridades norte-americanas por quase dez anos e simbolizou uma das principais justificativas para a implantação da Guerra ao Terror. Ao completar 15 anos da morte, as medidas contribuíram para a estabilidade global?
Era madrugada de 2 de maio de 2011, depois de quase dez anos dos atentados contra as Torres Gêmeas em Nova York, quando a principal liderança envolvida no ataque foi capturada e morta pelos Estados Unidos em uma operação: o fundador da Al-Qaeda*, Osama Bin Laden, que vivia escondido em uma fortaleza a 120 km da capital do Paquistão, Islamabad.
Considerado um dos eventos mais marcantes da chamada Guerra ao Terror, campanha internacional liderada pelos Estados Unidos sob a justificativa de combater grupos terroristas, a morte de Bin Laden foi divulgada em um pronunciamento televisivo do então presidente democrata Barack Obama.
Na época, a Casa Branca decidiu não publicar nenhuma imagem do terrorista morto, com o objetivo de evitar respostas violentas por parte da organização. Porém, três anos depois, um grupo insurgente rompeu com a Al-Qaeda para fundar o Daesh*, em 2014, com raízes ligadas à instabilidade provocada pelos próprios Estados Unidos após a invasão do Iraque em 2003, além da guerra civil na Síria.

* Organizações terroristas proibidas na Rússia e em vários outros países

Questionado pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, se essas iniciativas contribuíram para aumentar a estabilidade global no período, o professor do canal GeoSmartNews e especialista em história militar Paulo Diniz discorda.

"Os eventos que estamos acompanhando no cenário internacional demonstram isso, já que a quantidade de conflitos [existentes] — alguns deles com potencial para saírem do controle e se tornarem ainda maiores, talvez até uma nova guerra global — é muito evidente. E a origem de muitos desses conflitos atuais está na famosa Guerra ao Terror, que foi desencadeada justamente sob o pretexto de combater a figura do Bin Laden", defende.

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Além disso, o especialista vê que a justificativa de combater o terrorismo sempre esteve envolta de "manipulação propagandística" para ganhar a opinião pública mundo afora. "É um conceito muito fluido, já que o terrorista de hoje pode ser o aliado de ontem, e o terrorista de hoje pode vir a ser o parceiro de amanhã. O Bin Laden é um exemplo disso", acrescenta.
Segundo Diniz, durante a década de 1980, quando Washington lançava a operação Ciclone sob o comando da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), o país passou a apoiar a guerrilha do qual ele fazia parte no Afeganistão. O objetivo: lutar contra os soldados da União Soviética no conflito que se iniciava.
"Na época, ninguém falava que o Bin Laden era um terrorista. Na década seguinte, a situação já tinha mudado, não existia mais a União Soviética, os interesses geopolíticos dos norte-americanos eram outros e, como sempre, muito fluidos, indo e voltando o tempo todo. Com isso, ele passou a ser uma pessoa que incomodava, embora não fosse único. Porém, o Bin Laden é emblemático por conta dos eventos do 11 de Setembro, mas também existiram outras figuras", pontua.
Entre elas, lembra o especialista, está o atual presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, líder das forças rebeldes que derrubaram o então governo de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. "Até alguns anos atrás, o rosto dele estava nos cartazes dos mais procurados pelo governo norte-americano, que oferecia US$ 10 milhões [R$ 50 milhões]. Agora, ele é a principal liderança síria recebida com tapete vermelho nos Estados Unidos e na Europa. Isso mostra que tudo é um jogo, um mise-en-scène [encenação, na tradução do francês] até certo ponto, que faz nos perguntarmos sempre o que é terrorismo".
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Guerra ao Terror: incitação à islamofobia?

No Brasil, estudo recente sobre a islamofobia, coordenado pela antropóloga Francirosy Campos Barbosa, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), revelou que oito a cada dez mulheres muçulmanas já foram vítimas de preconceito no país, incluindo até agressões físicas e verbais e perseguições. Para Paulo Diniz, esse resultado é uma das consequências da Guerra ao Terror encabeçada pelos Estados Unidos nas últimas décadas, que ajudou a criar no inconsciente coletivo a ideia de que uma pessoa muçulmana é "potencialmente perigosa".

"Eles escolheram como inimigo número 1 um militante, um homem que vinha de um país islâmico, que é a Arábia Saudita, curiosamente uma nação historicamente aliada dos americanos. Mas, na mente coletiva, ele é colocado como islâmico, radical e que estava atacando um país cristão. Sem dúvida alguma que o aparato midiático, que é controlado pelos interesses das agências de inteligência e de grandes grupos financeiros, ajudou a alimentar uma histeria contra os muçulmanos. Eles assumiram um papel de bode expiatório que aumentou muito com o passar dos anos. Além disso, tudo serve para mascarar os reais interesses norte-americanos", resume.

Aliado a isso, o professor pontua que o "terrorismo" acabou servindo de justificativa para diversos países intensificarem medidas de controle estatais sobre o cidadão. "O terrorismo do Bin Laden, com os aviões que foram sequestrados e lançados contra o maior prédio do mundo, gerou um choque coletivo tão grande que qualquer coisa que o governo norte-americano implementasse seria aceito", afirma, ao lembrar que isso ainda abriu portas para que os aparatos de inteligência ocidentais, como a CIA, tivessem carta branca para operar.
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Do Iraque ao Irã: a geopolítica dos EUA nas últimas décadas

Dois anos após o atentado liderado por Bin Laden, os Estados Unidos invadiam o Iraque, mesmo sem o aval do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) — ocasião em que o então presidente Saddam Hussein foi morto. Ao leste, o Afeganistão conviveu com a ocupação norte-americana por mais de 20 anos até o Talibã voltar ao poder em agosto de 2021. Agora, sob o governo do presidente Donald Trump, os EUA invadiram o Irã e provocaram a morte da sua principal liderança, o aiatolá Ali Khamenei, em mais uma intervenção direta que acirrou as tensões em todo o Oriente Médio.
A doutora em ciência política e professora do curso de relações internacionais do Centro Universitário Internacional Uninter Natali Hoff declarou ao podcast Mundioka que essas estratégias de matar lideranças podem até ter algum sucesso nos momentos mais imediatos, mas que depois não se mostraram tão eficientes para atender aos interesses norte-americanos.

"No Afeganistão, tivemos um custo humano gigantesco, com um investimento econômico e político significativo que não foram eficientes para produzir condições nas quais o Estado afegão pudesse se constituir, de forma que a gente não tivesse o retorno do Talibã. O Iraque é até, talvez, um exemplo pior, com a permanência dos EUA como força de ocupação por alguns anos que levou ao surgimento do Daesh, uma organização terrorista que inclusive depois se torna até pior que a Al-Qaeda em termos de atentados e territórios que chega a controlar […]. Além disso, não conseguiram fazer de forma bem-feita a reconstrução do Estado iraquiano", afirma.

Agora, em mais uma medida intervencionista no Oriente Médio, os Estados Unidos iniciaram a guerra contra o Irã, que provocou a morte de Khamenei no primeiro dia de operação, mas que também levou a uma reação que Washington não calculava, segundo a especialista.
"Eles assassinam a liderança iraniana, tendo uma expectativa de que isso desestabilizaria o regime, mas não é isso que temos visto, pelo contrário. O Irã enfrenta os Estados Unidos, mesmo com as suas limitações militares, e tem se saído até o momento fortalecido. Obviamente que o Irã sofre muito com os ataques, vai ter um desafio grande de reconstrução assim que o conflito finalizar, mas tem se saído fortalecido dessa guerra", finaliza.
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