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Eleições no Peru mostram que o país 'está historicamente dividido ao meio', afirma especialista

© AP Photo / Rodrigo AbdPeruana segura jornal com manchete que destaca eleições apertadas no país, em 8 de junho de 2026
Peruana segura jornal com manchete que destaca eleições apertadas no país, em 8 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 09.06.2026
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A apuração dos votos no Peru pode se estender por até 30 dias, especialmente se houver contestações, indicaram as autoridades eleitorais. Especialistas consultados pela Sputnik alertaram que, independentemente do resultado final, o país permanece dividido e assolado por tensões internas.
Embora a contagem oficial do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, na sigla em espanhol) tenha ultrapassado 90% desde a manhã seguinte às eleições, os peruanos podem ter que esperar um mês para saber quem será seu próximo presidente, como aconteceu após as eleições de 2021.
"Estimamos um prazo máximo de 30 dias para podermos divulgar os resultados finais", explicou Roberto Burneo, presidente da Junta Nacional Eleitoral (JNE), órgão responsável por declarar oficialmente o vencedor das eleições.
Burneo explicou ao jornal oficial El Peruano que o atraso na divulgação dos resultados se deve ao fato de o processo eleitoral ser "muito rigoroso em relação ao devido processo legal e estabelecer uma série de etapas que devem ser cumpridas para garantir o devido processo e o direito à defesa". Nesse sentido, ele enfatizou que o órgão eleitoral "administrará a justiça eleitoral" e adotará "decisões independentes e oportunas".
Em conversa com a Sputnik, o analista político peruano José Carlos Requena considerou que, embora a contagem rápida oficial possa atingir aproximadamente 98% dos votos até o final da semana seguinte às eleições, uma porcentagem ainda exigirá mais tempo para análise.

"Há uma porcentagem que representa os votos contestados, que certamente serão objeto de alguma disputa legal. Isso é algo em que os juízes eleitorais costumam gastar muito tempo, tanto ao nível local quanto ao nível superior, na JNE", explicou Requena.

Assim, cenários semelhantes aos de 2016 e 2021 podem surgir, quando a diferença entre os vencedores — Pedro Pablo Kuczynski (2016–2018) e Pedro Castillo (2021–2022) — e Keiko Fujimori foi de pouco mais de 40 mil votos. Enquanto em 2016 a proclamação dos resultados levou 23 dias, em 2021 foi mais contestada e demorou quase dois meses, de modo que a vitória de Castillo só foi oficialmente declarada em 19 de julho.
Segundo Requena, estas eleições têm uma vantagem: ambos os candidatos mobilizaram um número significativo de "fiscais eleitorais" por todo o país, responsáveis ​​por monitorar a contagem em cada seção eleitoral e tentar contestar quaisquer irregularidades. Para o analista, isso constitui "uma garantia adicional que não estava disponível em 2021".
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Um país dividido

Independentemente de quem vença, os resultados das eleições revelam um cenário dividido em duas metades quase idênticas. Requena esclareceu que esse tipo de fenômeno costuma ocorrer a partir do segundo turno, quando "os apoios são manipulados", já que os candidatos participantes atraem votos de forças políticas que foram eliminadas.
De qualquer forma, ele reconheceu que a eleição deste ano consolida uma divisão que caracteriza a política peruana desde o início do século XXI: a diferença entre o voto dos habitantes da capital, Lima, e o voto dos habitantes das regiões.
"Uma das divisões que se acirrou é a de Lima versus as regiões, especialmente a região andina ou as regiões do sul do país, que estão votando de forma marcante. Mais do que por uma posição de esquerda, as regiões estão votando em um candidato que transmite uma mensagem contrária à transmitida na capital", explicou o analista.
Essa dimensão pode ser crucial para a governabilidade do próximo presidente, caso "a classe política sediada na capital não dê ouvidos à mensagem das urnas", no que diz respeito às demandas das regiões do país e seus esforços para reduzir as disparidades na qualidade de vida entre alguns bairros de Lima "com padrões de vida de primeiro mundo" e o resto do país.
"Há uma lacuna significativa em infraestrutura e falta de acesso a serviços, por exemplo, o que torna essas disparidades um problema gritante", acrescentou o especialista.

O fujimorismo nas urnas

Consultado por esta publicação, Daniel Parodi, analista político e doutor em história pela Universidade do País Basco e pela Universidade de Valladolid, enfatizou que o Peru "está historicamente dividido ao meio", a ponto de poder ser definido como "um país que não conseguiu se constituir como nação".
"Roberto Sánchez conta, na verdade, com o apoio de um Peru que se vê em termos de identidade. Um Peru que se sente andino, que se sente deslocado, que se sente negligenciado pelo Estado. E assim, o voto em Roberto Sánchez, que tem ligação direta com o voto em Pedro Castillo em 2021, é um voto de reivindicação, um voto contra o establishment, um voto contra um Estado que nunca se importou com eles", afirmou.
Por outro lado, apontou o historiador, Fujimori reúne o voto do litoral, ou seja, "o voto de um Peru mais integrado aos mercados internacionais, exportador agrícola, e da capital, mais ocidentalizado".
Além disso, Requena enfatizou que existe outra dimensão fundamental que divide os peruanos há décadas: o fujimorismo versus o antifujimorismo. O analista político acredita que a rejeição a Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990–2000), foi crucial para impulsionar a popularidade de Sánchez. Sánchez avançou para o segundo turno com 12% dos votos e agora enfrenta quase 50% do eleitorado.
O voto antifujimorista pode, por sua vez, explicar o apoio a Sánchez mais do que a identificação com a esquerda. "Acho que muitos antifujimoristas não são necessariamente de esquerda, mas o desejo de conter Keiko Fujimori tem sido mais influente", explicou.
De fato, Parodi acredita que a futura posição de Fujimori é a chave para o Peru superar a crise política que atravessa há uma década, especialmente devido ao papel do partido Força Popular na promoção de tentativas de impeachment presidencial.
"Espero que Keiko Fujimori, vencendo ou perdendo, tenha a visão de compreender que cabe somente a ela mudar a imagem de seu movimento político, o maior e mais organizado em nível nacional, e, se ela se tornar presidente, que saiba como unir a oposição, e, se perder, que dê ao país o que ele nunca lhe deu: uma oposição construtiva", disse o historiador.
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