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Enquanto EUA enfrentam crise de imagem, Copa do Mundo pode reabilitar a do Irã, diz analista (VÍDEOS)

© AP Photo / Vahid SalemiTorcedores iranianos comemoram a classificação da seleção nacional para a Copa do Mundo de Futebol de 2026, após vitória sobre o Uzbequistão. Teerã, Irã, 25 de março de 2025
Torcedores iranianos comemoram a classificação da seleção nacional para a Copa do Mundo de Futebol de 2026, após vitória sobre o Uzbequistão. Teerã, Irã, 25 de março de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 15.06.2026
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O Mundial também serve como soft power para a nação que sedia, já que o evento tem alcance global. Porém, nesta edição disputada no Canadá, EUA e México, o torneio está sendo marcado por deportações e humilhações devido às ações de Washington contra atletas e jornalistas, além das hostilidades com o Irã, que afetam diretamente a seleção iraniana.
Nesse sentido, a seleção iraniana, que fará todos os jogos da fase de grupos nos Estados Unidos, foi obrigada a se concentrar no México por questões de segurança. Com isso, a equipe precisará viajar constantemente até os estádios americanos para enfrentar seus adversários: Nova Zelândia, Bélgica e Egito, respectivamente. Essa logística coloca a isonomia da competição em xeque, gerando clara desvantagem esportiva para os iranianos.
Por outro lado, a decisão do Irã de não boicotar o Mundial e jogar em solo americano pode gerar um efeito inesperado na opinião pública. Ou seja, o público pode passar a se solidarizar com os atletas e buscar conhecer mais sobre o país, mantendo, assim, o desgaste da imagem dos EUA. Essa análise é compartilhada por Eduardo Gomes, doutor em história pela UFRJ e professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Eles [os atletas] se colocarem disponíveis ao risco, a gente não pode esquecer disso, de estarem disputando essa competição e representar a sua nacionalidade. Se não o Irã como um todo, pelo menos esses atletas demonstram que o Irã não é necessariamente os estereótipos construídos pela mídia ocidental, notadamente a americana", disse.

No início da Copa, Washington e Teerã ainda estavam envolvidos em uma guerra com restrições, inclusive no estreito de Ormuz, o que gerou grande impacto em diversas partes do mundo. Mesmo assim, a FIFA manteve os EUA como sede, ainda que sejam o país agressor que iniciou o conflito contra os iranianos. Nesse contexto, o pesquisador também sugere que algumas barreiras de preconceito contra a cultura iraniana possam ser superadas.

"A gente sabe de todas as questões [geopolíticas] que isso envolve. Acho que isso [a seleção iraniana disputar a Copa do Mundo] pode quebrar um pouco a barreira desses olhares negativos que o Ocidente constrói no modelo internacional, sem dúvida alguma", comenta.

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Copa nos EUA tem paralelos com regimes totalitários

O historiador também esclarece que um Mundial sediado nos Estados Unidos sob as atuais condições é um evento singular na história, cuja análise profunda demandará distanciamento temporal. No entanto, apesar de pertencerem a épocas distintas, ele enfatiza que o cenário atual permite paralelos históricos com a Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália fascista, e com os Jogos Olímpicos de Verão de 1936, na Alemanha nazista.

"Isso talvez é um objeto de estudo para os acadêmicos tentar entender um pouco desse contexto. Porque mesmo o Mussolini, quando a Itália organizou a Copa do Mundo, se utilizou muito politicamente desse evento, e mesmo o Hitler na Olimpíada de 1936, os atletas negros que sofreram lá na Olimpíada, só que não sofreram tanto para entrar no país como alguns atletas estão sofrendo para entrar nos EUA hoje", destaca.

Dessa forma, Gomes, que também é especialista em futebol, aponta que esse cenário culmina em um soft power reverso. O impacto atinge não apenas o governo americano, mas o país como um todo, extrapolando a esfera da política internacional bilateral restrita a governos, políticos e especialistas para moldar também o imaginário do cidadão comum.

"Os EUA se colocam como potência que tem o imperialismo como foco e se utiliza disso para construir a sua indústria cultural. Mas como se quer vender para o mundo negando o que o mundo traz? Porque se vende a ideia do sonho americano, da Disney e de Hollywood; as pessoas vão querer conhecer e consumir, mas ao se negar a entrada de determinadas etnias, e na maior parte sem justificativas plausíveis", observa.

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Casa Branca e a tentativa de 'ditadura internacional'

Outro aspecto destacado pelo professor Eduardo Gomes é a conduta do governo americano, cujas ações guardam fortes semelhanças com traços ditatoriais. Segundo o historiador, essa postura transcende o ambiente doméstico e se projeta externamente como uma tentativa de "ditadura internacional", caracterizada pela imposição unilateral de sua força, à revelia de aliados e de organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU).

"Mas há tentativa de uma ditadura internacional [por parte dos EUA]. Ele [Trump] há muito tempo está sem se importar com o que outras nações falam na ONU e sobre ações políticas no sentido bélico. E o que foi que ele fez na América Latina, ao intervir na soberania da Venezuela? Isso quebra todas as regras que a gente possa imaginar no pós-Segunda Guerra Mundial, na própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual os EUA fazem parte da criação em 1948", conclui.

O esporte e a política possuem conexões indissociáveis, pois ambos operam na esfera da comunicação de massa e mobilizam interesses nacionais. Ao evocar o sentimento pátrio em suas respectivas áreas de influência, o esporte projeta no campo simbólico as dinâmicas da geopolítica, uma realidade nitidamente exemplificada na atual edição da Copa do Mundo.
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