Corredor do Lobito: desenvolvimento africano ou rota de exploração ocidental? Analista explica (VÍDEOS)
Corredor do Lobito: desenvolvimento africano ou rota de exploração ocidental? Analista explica (VÍDEOS)
Sputnik Brasil
Projeto estratégico que compreende um porto e uma ferrovia com capacidade de conectar Angola, a República Democrática do Congo (RDC) e a Zâmbia tem potencial... 25.06.2026, Sputnik Brasil
Em 2023, um consórcio formado por empresas da Bélgica, Portugal e Suíça deu origem à Lobito Atlantic Railway (Ferrovia Atlântica do Lobito, em tradução livre), que conta com aporte dos EUA e da União Europeia. O grupo prevê investir cerca de US$ 455 milhões (cerca de R$ 2,36 bilhões) na modernização e expansão dessa linha ferroviária.Luísa Barbosa Azevedo, mestranda em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora de África Subsaariana no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), explicou à Sputnik Brasil a importância desse complexo que atrai a atenção de atores estrangeiros.Outro aspecto apontado pela analista é que esse projeto remonta ao Caminho de Ferro de Benguela, construído no período colonial português (1903-1930). A linha unia o Atlântico angolano à fronteira de Luau com a RDC. Como contextualiza Luísa:Dependência financeira e falta de Cooperação Sul-SulPara Luísa, um agravante nessa relação na esfera comercial entre Luanda e os países do eixo ocidental seria a relação assimétrica entre as economias, o que poderia limitar de certa forma o governo angolano.O Corredor do Lobito, por atrair investimentos estrangeiros, poderia trazer oportunidades para Estados do Sul Global, como o Brasil, aprofundando assim a Cooperação Sul-Sul, segundo a pesquisadora, que recentemente publicou seu artigo "O Corredor Lobito na geopolítica dos minerais críticos" no Boletim Geocorrente do NAC da Escola de Guerra Naval.Região é estratégica no cenário internacional instávelCom conflitos em regiões importantes para o comércio exterior, como o estreito de Ormuz, o Corredor do Lobito pode se tornar um fluxo a ser explorado entre os países africanos para desenvolver suas economias. Essa lógica de cooperação intraafricana já é uma tendência, como ressalta Luísa:Apesar de o continente africano carregar o legado histórico e estrutural da exploração colonial, observa-se uma dupla dinâmica de emancipação: tanto a consolidação de discursos anticoloniais quanto a expansão da integração econômica intraafricana.
Projeto estratégico que compreende um porto e uma ferrovia com capacidade de conectar Angola, a República Democrática do Congo (RDC) e a Zâmbia tem potencial de trazer desenvolvimento. Contudo, com a possibilidade de investimentos dos EUA e europeus, suscita questões como equilibrar a soberania diante da dependência financeira desses países.
Em 2023, um consórcio formado por empresas da Bélgica, Portugal e Suíça deu origem à Lobito Atlantic Railway (Ferrovia Atlântica do Lobito, em tradução livre), que conta com aporte dos EUA e da União Europeia. O grupo prevê investir cerca de US$ 455 milhões (cerca de R$ 2,36 bilhões) na modernização e expansão dessa linha ferroviária.
Luísa Barbosa Azevedo, mestranda em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora de África Subsaariana no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), explicou à Sputnik Brasil a importância desse complexo que atrai a atenção de atores estrangeiros.
"É um projeto estratégico que liga o porto do Lobito, um dos maiores de Angola, e é importante para o comércio da África Austral. Alguns geógrafos e analistas chamam de corredor do cobre africano. Para mim, é um exemplo de que países africanos têm que lidar com a dualidade entre equilibrar a influência de atores externos e também a consonância com seus interesses econômicos e sociais", disse.
Outro aspecto apontado pela analista é que esse projeto remonta ao Caminho de Ferro de Benguela, construído no período colonial português (1903-1930). A linha unia o Atlântico angolano à fronteira de Luau com a RDC. Como contextualiza Luísa:
"A ideia do corredor não surgiu do nada e remonta historicamente ao Caminho de Ferro de Benguela, que foi uma das principais rotas durante a colonização portuguesa e de outros colonos na região, como holandeses e belgas, que usavam o corredor para exploração logística. Eles tiravam os minerais e os recursos naturais até o Oceano Atlântico e chegavam a outros países", comenta.
Dependência financeira e falta de Cooperação Sul-Sul
Para Luísa, um agravante nessa relação na esfera comercial entre Luanda e os países do eixo ocidental seria a relação assimétrica entre as economias, o que poderia limitar de certa forma o governo angolano.
"Ao mesmo tempo que Angola busca autonomia econômica, ainda depende muito da exportação de petróleo e encontra dificuldades, que é essa dependência do financiamento, que é histórico. O consórcio [europeu] já está desde 2023 para assinar, operar e ser responsável por certa cotação do que vai sair do corredor", destaca.
O Corredor do Lobito, por atrair investimentos estrangeiros, poderia trazer oportunidades para Estados do Sul Global, como o Brasil, aprofundando assim a Cooperação Sul-Sul, segundo a pesquisadora, que recentemente publicou seu artigo "O Corredor Lobito na geopolítica dos minerais críticos" no Boletim Geocorrente do NAC da Escola de Guerra Naval.
"Angola e Brasil têm relações históricas e uma relação cultural muito forte com Angola, que talvez não esteja tão à mostra, a gente não disputa muito isso, mas deveríamos discutir mais com países africanos. Acho que há oportunidade [no Corredor Lobito], principalmente por questões como o corredor bioceânico [no Brasil], de discutir maneiras e formas de realmente entrar em uma Cooperação Sul-Sul", observa.
Região é estratégica no cenário internacional instável
Com conflitos em regiões importantes para o comércio exterior, como o estreito de Ormuz, o Corredor do Lobito pode se tornar um fluxo a ser explorado entre os países africanos para desenvolver suas economias. Essa lógica de cooperação intraafricana já é uma tendência, como ressalta Luísa:
"Há uma grande interligação dos países africanos, principalmente no que diz respeito ao aumento do comércio intraafricano e ao desenvolvimento socioeconômico, pensando as aspirações africanas, e digo isso também pela Agenda 2063 da União Africana [que visa transformar o continente em uma potência econômica] e pela atuação dela no continente", conclui.
Apesar de o continente africano carregar o legado histórico e estrutural da exploração colonial, observa-se uma dupla dinâmica de emancipação: tanto a consolidação de discursos anticoloniais quanto a expansão da integração econômica intraafricana.
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