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Como a repressão na segurança pública fortalece o crime organizado? Especialista explica (VÍDEOS)

© AP Photo / Dolores OchoaPoliciais patrulham os arredores da Assembleia Nacional antes do discurso do presidente Daniel Noboa, em Quito, Equador, em 24 de maio de 2026
Policiais patrulham os arredores da Assembleia Nacional antes do discurso do presidente Daniel Noboa, em Quito, Equador, em 24 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 29.06.2026
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A crise de segurança equatoriana expõe os limites em replicar a fórmula de "linha dura" salvadorenha. Sob a gestão de Daniel Noboa, o país passou cerca de 900 dias sob estado de exceção, ou seja, Quito foi mais governado sob medidas de emergência do que de forma regular. Esse cenário pode ter reflexos em outros Estados da região.
Nesse sentido, Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos (Inest) da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Sputnik Brasil, analisa que a "onda azul", composta por governos mais à direita e voltados para a repressão ao crime organizado, mas sem se aprofundar em questões estruturais, deve fortalecer as facções que já convivem sob a égide desse tipo de política há décadas.

"Se vinga esse modelo da 'onda azul' em tentar reproduzir o modelo de Bukele, de superencarceramento, de políticas de repressão rígida, a tendência é fortalecer o crime organizado e não enfraquecê-lo. Essa repressão acaba operando uma depuração do crime organizado e elimina os grupos mais fracos, deixando os grupos que sobrevivem mais fortes, e acaba ajudando a fazer uma espécie de seleção evolutiva", disse.

Outro ponto atribuído pelo especialista é que esse modelo de "tolerância zero" não abrange a punição qualificada de indivíduos em cargos elevados ou na liderança de grupos criminosos. Com isso, o sistema resulta no encarceramento em massa de pessoas que serão facilmente substituídas devido à sua vulnerabilidade social.

"O Brasil é a terceira maior população carcerária do mundo. Tem um lado que é punido demais e outro lado que é de menos. Historicamente, na América Latina em geral, as camadas pobres da população são muito punidas. A impunidade nas nossas sociedades é para os criminosos de colarinho branco, quer sejam políticos, empresários, banqueiros ou os líderes dos comandos de crime organizado", comenta.

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Segurança no foco da eleição presidencial do Brasil

O recrudescimento no combate ao crime como plataforma política eleitoreira tornou-se uma constante na América Latina. Na visão do pesquisador, o fator segurança pública será a pauta central entre os presidenciáveis nas próximas eleições gerais brasileiras.

"Tenho convicção de que vai ser a primeira vez, para valer, numa eleição federal no Brasil em que o tema segurança pública terá um papel crucial. Porque aqui, desde 1988, da nossa Constituição, a função principal para lidar com segurança pública é dos Estados da União. Esse tema, nas últimas décadas, aparece com bastante incidência, mas nas eleições estaduais, nunca nas eleições federais como agora", destaca.

A pressão dos Estados Unidos para classificar facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como terroristas já configura uma forma de interferência no processo eleitoral brasileiro. Segundo o analista, a agenda de combate ao crime é um ponto em comum entre os diferentes espectros políticos, contudo, cada lado adota um modus operandi distinto.

"Com a entrada de Donald Trump na jogada, começou a interferência na eleição brasileira com a designação do PCC e do CV como terroristas. O governo federal responde que se preocupa com crime organizado, mas que tem que ser lidado pelo Brasil em termos soberanos. O outro lado [político] tem apelado ao intervencionismo dos EUA. Em comum dos dois lados é que o crime organizado tem que ser combatido", observa.

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Modelo de El Salvador não é replicável como solução

Para Thiago Rodrigues, autor do livro "Drogas e Capitalismo: Uma Crítica Marxista", o caso equatoriano demonstra que não é viável importar a fórmula salvadorenha, tão visada por diversos líderes sul-americanos, de lidar com a segurança pública por meio do encarceramento em massa.

"A seguir o modelo de Bukele, desde 2022 El Salvador está em estado de exceção. Noboa tenta seguir uma fórmula parecida. O problema é que o modelo de 'bukelização' não é facilmente transplantável para outros países. Então, a repetição de uma fórmula, em tese, igual para situações diferentes, não vai produzir efeitos iguais. E o que a gente vê em El Salvador também é discutível em termos de sustentabilidade", conclui.

No combate ao crime organizado, não há uma receita pronta a ser implementada, dadas as particularidades históricas de cada sociedade. O avanço das facções, que resistem à repressão estatal por falta de reformas estruturais profundas, transforma o crime organizado em um desafio que ultrapassa a política doméstica, consolidando-se como tema central do debate e da segurança internacional.
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