https://noticiabrasil.net.br/20260709/analise-apos-guerra-em-gaza-viabilidade-de-futuro-estado-palestino-deve-se-definir-na-cisjordania-52085731.html
Análise: após guerra em Gaza, viabilidade de futuro Estado palestino deve se definir na Cisjordânia
Análise: após guerra em Gaza, viabilidade de futuro Estado palestino deve se definir na Cisjordânia
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Especialistas divergem sobre os efeitos da transição administrativa do Hamas, mas avaliam que a reconstrução de Gaza, a expansão dos assentamentos israelenses... 09.07.2026, Sputnik Brasil
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Após quase duas décadas no poder, o Hamas anunciou que deixou a administração da Faixa de Gaza, transferindo as funções civis para um novo comitê de gestão. A decisão foi feita para facilitar a transição administrativa para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, em inglês), grupo criado pelo Conselho da Paz estabelecido pelos Estados Unidos.Em comunicado oficial, o grupo reiterou o interesse de cumprir integralmente o acordo de cessar-fogo – assinado em outubro de 2025 – e destacou uma suposta tentativa de Israel em sabotar esse tratado. "O Hamas deu um novo passo ao deixar de estar no comando da Faixa de Gaza, com o objetivo de eliminar quaisquer pretextos para a ocupação, que continua a sua agressão e guerra de extermínio", disse Hazem Qassem, porta-voz do Hamas.A mudança levanta dúvidas sobre o futuro da governança de Gaza, a reconstrução do território e o impacto desse novo arranjo nas negociações para um cessar-fogo e para o reconhecimento de um Estado palestino. Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), conversou com o Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, sobre os próximos passos.A princípio, Rabah afirma que a saída do Hamas da administração de Gaza não representa uma ruptura inesperada, mas o cumprimento de um processo de reconciliação nacional que vem sendo negociado há anos entre diferentes facções palestinas.Como conta, a decisão está alinhada ao acordo firmado em Pequim, em 2024, quando 14 organizações palestinas concordaram com a criação de um comitê formado por tecnocratas para conduzir a transição administrativa da Faixa de Gaza."O objetivo sempre foi substituir uma administração unilateral por uma estrutura que represente o consenso nacional palestino e prepare o caminho para a reconstrução de Gaza, a restauração da ordem civil e, posteriormente, para eleições e a reunificação política dos territórios palestinos", explica.Para o ativista, a repercussão em torno da decisão decorre, em grande parte, da falta de conhecimento sobre as negociações internas entre os palestinos. "Acabou se criando uma confusão porque essas informações não chegam pelas vozes palestinas, que muitas vezes são invisibilizadas. Mas não há nada de estranho ou errático nessa decisão. Ela faz parte de um acordo construído pelos próprios palestinos".Na avaliação de Rabah, a transição tende a fortalecer a posição palestina nas negociações internacionais por um Estado soberano, ressaltando que a fragmentação política sempre foi um dos principais obstáculos para o avanço da causa palestina, pois permitia que Israel e seus aliados questionassem quem teria legitimidade para negociar em nome do povo palestino."A unidade palestina é fundamental. A divisão dos palestinos é mais perigosa para o povo palestino do que os próprios mísseis. Quando existe um consenso nacional, desaparece o argumento de que não há um interlocutor legítimo para negociar".Em 2007, a divisão entre o Hamas e o Fatah consolidou uma cisão política e territorial que persiste até hoje nos territórios palestinos. Após confrontos armados entre as duas principais facções, o Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza, enquanto o Fatah, partido dominante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), permaneceu à frente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), responsável pela administração de partes da Cisjordânia.Segundo Rabah, embora divergências políticas e ideológicas entre os grupos sejam naturais, o problema foi a institucionalização dessa divisão, que resultou em dois governos palestinos distintos. "O que não pode haver é a divisão sectária que leve os palestinos a um confronto. Quase houve uma guerra civil palestina em 2007. Isso teria sido o maior presente que os sionistas poderiam ter recebido."Para ele, a existência de administrações separadas em Gaza e na Cisjordânia enfraqueceu a causa palestina. "Houve uma bicefalia: um governo em Gaza e outro na Cisjordânia. Isso não tem lógica. Diferenças de visão de governo, de sociedade ou de ideologia são legítimas, mas, diante de um inimigo existencial, não faz sentido manter uma divisão dessa natureza", avalia.Rabah destaca que o acordo de reconciliação firmado em Pequim reuniu praticamente todas as principais forças políticas palestinas, incluindo o Fatah, o Hamas, as Frentes Popular e Democrática para a Libertação da Palestina, o Partido do Povo e outras organizações. O objetivo, segundo ele, é construir um governo de unidade nacional capaz de superar a fragmentação política, independentemente de quem vença futuras eleições.Questões dos assentamentos israelensesAndrew Traumann, professor de história das relações internacionais do Centro Universitário de Curitiba (UniCuritiba), adota uma avaliação mais cética sobre os efeitos da saída do Hamas da administração de Gaza, vendo a mudança com impacto limitado diante do principal obstáculo para a criação de um Estado palestino: a expansão contínua dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.Segundo ele, um eventual acordo de paz exigiria a remoção da maior parte desses assentamentos, algo que ele considera politicamente improvável. "Nenhum governo israelense está disposto a pagar esse preço político. Pelo contrário, o que temos visto é a aprovação de novos assentamentos".O professor também pondera que, embora a Faixa de Gaza concentre a atenção internacional por causa da guerra, do bloqueio e da atuação do Hamas, a Cisjordânia é o território mais estratégico para qualquer solução de dois Estados.Vale ressaltar, Israel retirou seus assentamentos e forças militares de Gaza em 2005 por considerar que o custo de manter colonos no enclave era elevado, transferindo parte dessa população para a Cisjordânia. "A Cisjordânia é maior, concentra cidades historicamente importantes para os palestinos e é onde se define, de fato, a viabilidade de um futuro Estado palestino".O futuro de GazaDesde o acordo de cessar-fogo, as propostas de reconstrução da Faixa de Gaza ainda não saíram do papel, no que é considerado um dos maiores desafios logísticos e humanitários da atualidade. Além do custo humano — 73 mil pessoas morreram após mil dias de guerra, segundo o Ministério da Saúde de Gaza —, os danos materiais também são expressivos. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que serão necessários US$ 71,4 bilhões (cerca de R$ 366,8 bilhões) para reconstruir o território.Para Traumann, porém, a principal dificuldade não será apenas técnica ou financeira, mas política. O novo Comitê Nacional para a Administração de Gaza terá, avalia, pouca autonomia e dependerá, em grande medida, da posição dos Estados Unidos para acessar recursos internacionais.O especialista também demonstra reservas em relação ao modelo de financiamento defendido pelo governo de Donald Trump. Segundo ele, a proposta de criação de um fundo internacional para a reconstrução da Faixa de Gaza pode acabar subordinando a recuperação do território aos interesses políticos e econômicos dos EUA."Esse fundo criado pelos Estados Unidos soa muito estranho. Parece mais um projeto imobiliário do Trump, com grandes construtoras e empreiteiras podendo lucrar com a reconstrução. Se isso será feito realmente em benefício dos palestinos, eu não sei", diz.Traumann lembra ainda que Trump já defendeu, no passado, a retirada da população palestina de Gaza para viabilizar projetos de desenvolvimento na região. "Esse órgão vai depender dos humores do Trump. A liberação dos recursos estará sujeita à vontade do governo americano e também às pressões israelenses. É uma situação bastante complicada."O pesquisador também acredita que a saída do Hamas da administração civil de Gaza dificilmente encerrará as justificativas apresentadas por Israel para manter operações militares no território. Segundo ele, o foco da narrativa israelense tende a migrar do controle político da Faixa para a capacidade militar do grupo. "Agora, a justificativa será que o Hamas não se desarmou. Esse provavelmente será o novo discurso."Assim, exigir o desarmamento completo do Hamas é pouco realista, pois isso significaria, na prática, o fim da organização e deixaria seus dirigentes vulneráveis a ataques israelenses. O professor compara a situação ao cenário do Líbano, onde Israel também pressiona pelo enfraquecimento do Hezbollah após o cessar-fogo.
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Análise: após guerra em Gaza, viabilidade de futuro Estado palestino deve se definir na Cisjordânia
17:23 09.07.2026 (atualizado: 18:09 09.07.2026) Especiais
Especialistas divergem sobre os efeitos da transição administrativa do Hamas, mas avaliam que a reconstrução de Gaza, a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e o impasse em torno do desarmamento do grupo continuam a ser os principais obstáculos para um acordo de paz e a criação de um Estado palestino.
Após quase duas décadas no poder, o
Hamas anunciou que
deixou a administração da Faixa de Gaza, transferindo as funções civis para um novo comitê de gestão. A decisão foi feita para facilitar a transição administrativa para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, em inglês), grupo criado pelo
Conselho da Paz estabelecido pelos Estados Unidos.
Em comunicado oficial, o grupo reiterou o interesse de cumprir integralmente o acordo de cessar-fogo – assinado em outubro de 2025 – e destacou uma suposta tentativa de Israel em sabotar esse tratado. "O Hamas deu um novo passo ao deixar de estar no comando da Faixa de Gaza, com o objetivo de eliminar quaisquer pretextos para a ocupação, que continua a sua agressão e guerra de extermínio", disse Hazem Qassem, porta-voz do Hamas.
A mudança levanta dúvidas sobre o futuro da governança de Gaza, a reconstrução do território e o impacto desse novo arranjo nas negociações para um cessar-fogo e para o reconhecimento de um Estado palestino. Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), conversou com o Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, sobre os próximos passos.
A princípio, Rabah afirma que a saída do Hamas da administração de Gaza não representa uma ruptura inesperada, mas o cumprimento de um processo de reconciliação nacional que vem sendo negociado há anos entre diferentes facções palestinas.
Como conta, a decisão está alinhada ao acordo firmado em Pequim, em 2024, quando 14 organizações palestinas concordaram com a criação de um comitê formado por tecnocratas para conduzir a transição administrativa da Faixa de Gaza.
"O objetivo sempre foi substituir uma administração unilateral por uma estrutura que represente o consenso nacional palestino e prepare o caminho para a reconstrução de Gaza, a restauração da ordem civil e, posteriormente, para eleições e a reunificação política dos territórios palestinos", explica.
Para o ativista, a repercussão em torno da decisão decorre, em grande parte, da falta de conhecimento sobre as negociações internas entre os palestinos. "Acabou se criando uma confusão porque essas informações não chegam pelas vozes palestinas, que muitas vezes são invisibilizadas. Mas não há nada de estranho ou errático nessa decisão. Ela faz parte de um acordo construído pelos próprios palestinos".
Na avaliação de Rabah, a transição tende a fortalecer a posição palestina nas negociações internacionais por um Estado soberano, ressaltando que a fragmentação política sempre foi um dos principais obstáculos para o avanço da causa palestina, pois permitia que Israel e seus aliados questionassem quem teria legitimidade para negociar em nome do povo palestino.
"A unidade palestina é fundamental. A divisão dos palestinos é mais perigosa para o povo palestino do que os próprios mísseis. Quando existe um consenso nacional, desaparece o argumento de que não há um interlocutor legítimo para negociar".
"Esse processo fortalece a causa palestina e reduz um dos principais discursos utilizados para adiar qualquer solução política."
Em 2007, a divisão entre o Hamas e o Fatah consolidou uma cisão política e territorial que persiste até hoje nos territórios palestinos. Após confrontos armados entre as duas principais facções, o Hamas assumiu o controle da
Faixa de Gaza, enquanto o Fatah, partido dominante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), permaneceu à frente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), responsável pela administração de
partes da Cisjordânia.
Segundo Rabah, embora divergências políticas e ideológicas entre os grupos sejam naturais, o problema foi a institucionalização dessa divisão, que resultou em dois governos palestinos distintos. "O que não pode haver é a divisão sectária que leve os palestinos a um confronto. Quase houve uma guerra civil palestina em 2007. Isso teria sido o maior presente que os sionistas poderiam ter recebido."
Para ele, a existência de administrações separadas em Gaza e na Cisjordânia enfraqueceu a causa palestina. "Houve uma bicefalia: um governo em Gaza e outro na Cisjordânia. Isso não tem lógica. Diferenças de visão de governo, de sociedade ou de ideologia são legítimas, mas, diante de um inimigo existencial, não faz sentido manter uma divisão dessa natureza", avalia.
Rabah destaca que o acordo de reconciliação firmado em Pequim reuniu praticamente todas as principais forças políticas palestinas, incluindo o Fatah, o Hamas, as Frentes Popular e Democrática para a Libertação da Palestina, o Partido do Povo e outras organizações. O objetivo, segundo ele, é construir um governo de unidade nacional capaz de superar a fragmentação política, independentemente de quem vença futuras eleições.
"Mesmo que haja eleições e uma força saia vencedora, ela deve formar um governo que incorpore todas as demais. Essa ideia chegou a ser tentada em 2006 e 2007, mas fracassou. Dessa vez, isso não pode voltar a fracassar."
Questões dos assentamentos israelenses
Andrew Traumann, professor de história das relações internacionais do Centro Universitário de Curitiba (UniCuritiba), adota uma avaliação mais cética sobre os efeitos da saída do Hamas da administração de Gaza, vendo a mudança com impacto limitado diante do principal obstáculo para a criação de um Estado palestino: a expansão contínua dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.
"Sou muito cético em relação à criação de um Estado palestino. A expansão acelerada dos assentamentos e a presença de grupos extremistas que expulsam palestinos da Cisjordânia tornam esse cenário cada vez mais inviável", afirma Traumann.
Segundo ele, um eventual acordo de paz exigiria a remoção da maior parte desses assentamentos, algo que ele considera politicamente improvável. "Nenhum governo israelense está disposto a pagar esse preço político. Pelo contrário, o que temos visto é a aprovação de novos assentamentos".
O professor também pondera que, embora a Faixa de Gaza concentre a atenção internacional por causa da guerra, do bloqueio e da atuação do Hamas, a Cisjordânia é o território mais estratégico para qualquer solução de dois Estados.
Vale ressaltar, Israel retirou seus assentamentos e forças militares de Gaza em 2005 por considerar que o custo de manter colonos no enclave era elevado, transferindo parte dessa população para a Cisjordânia. "A Cisjordânia é maior, concentra cidades historicamente importantes para os palestinos e é onde se define, de fato, a viabilidade de um futuro Estado palestino".
"Gaza ganhou protagonismo pelo bloqueio, pela crise humanitária e pelo controle exercido pelo Hamas, mas continua sendo um território muito pequeno."
Desde o acordo de cessar-fogo, as propostas de reconstrução da Faixa de Gaza ainda não saíram do papel, no que é considerado um dos maiores desafios logísticos e humanitários da atualidade. Além do
custo humano —
73 mil pessoas morreram após mil dias de guerra, segundo o Ministério da Saúde de Gaza —, os danos materiais também são expressivos. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que serão necessários
US$ 71,4 bilhões (cerca de R$ 366,8 bilhões) para reconstruir o território.
Para Traumann, porém, a principal dificuldade não será apenas técnica ou financeira, mas política. O novo Comitê Nacional para a Administração de Gaza terá, avalia, pouca autonomia e dependerá, em grande medida, da posição dos Estados Unidos para acessar recursos internacionais.
"Esse comitê vai estar totalmente de mãos atadas em relação aos Estados Unidos. Antes existia o chamado Quarteto para o Oriente Médio, mas agora a condução desse processo está muito mais concentrada em Washington", afirma.
O especialista também demonstra reservas em relação ao modelo de financiamento defendido pelo governo de Donald Trump. Segundo ele, a proposta de criação de um fundo internacional para a reconstrução da Faixa de Gaza pode acabar subordinando a recuperação do território aos interesses políticos e econômicos dos EUA.
"Esse fundo criado pelos Estados Unidos soa muito estranho. Parece mais um projeto imobiliário do Trump, com grandes construtoras e empreiteiras podendo lucrar com a reconstrução. Se isso será feito realmente em benefício dos palestinos, eu não sei", diz.
Traumann lembra ainda que Trump já defendeu, no passado, a retirada da população palestina de Gaza para viabilizar projetos de desenvolvimento na região. "Esse órgão vai depender dos humores do Trump. A liberação dos recursos estará sujeita à vontade do governo americano e também às pressões israelenses. É uma situação bastante complicada."
O pesquisador também acredita que a saída do Hamas da administração civil de Gaza dificilmente encerrará as justificativas apresentadas por Israel para manter
operações militares no território. Segundo ele, o foco da narrativa israelense tende a migrar do controle político da Faixa para a capacidade militar do grupo.
"Agora, a justificativa será que o Hamas não se desarmou. Esse provavelmente será o novo discurso."Assim, exigir o desarmamento completo do Hamas é pouco realista, pois isso significaria, na prática, o fim da organização e deixaria seus dirigentes vulneráveis a ataques israelenses. O professor compara a situação
ao cenário do Líbano, onde Israel também pressiona pelo enfraquecimento do Hezbollah após o cessar-fogo.
"Não vejo esses grupos se desarmando. Isso equivaleria a uma capitulação e, provavelmente, a uma sentença de morte para as suas lideranças."
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