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Por que o alinhamento da Argentina aos EUA põe em risco países como o Brasil? Analista explica (VÍDEOS)

© AP Photo / Jose Luis MaganaO presidente da Argentina, Javier Milei, faz uma reverência à multidão antes de discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Oxon Hill, Maryland, EUA, 22 de fevereiro de 2025
O presidente da Argentina, Javier Milei, faz uma reverência à multidão antes de discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Oxon Hill, Maryland, EUA, 22 de fevereiro de 2025  - Sputnik Brasil, 1920, 15.07.2026
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O governo de Javier Milei e o Comando Sul dos EUA formalizaram o Protecting Global Commons Program (Programa de Proteção dos Bens Comuns Globais), um acordo de defesa de cinco anos para o Atlântico Sul. No entanto, os desdobramentos da iniciativa podem ir além das fronteiras argentinas e impactar a segurança dos países da região.
Nesse sentido, segundo Pedro Kilson, bacharel em relações internacionais e mestre em História Contemporânea da América Latina, em entrevista à Sputnik Brasil, os impactos da presença dos Estados Unidos tensionam e afetam a cooperação regional entre Buenos Aires, Brasília e Montevidéu, que também integram a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).

"Em âmbito da América do Sul, um cenário negativo seria um possível esvaziamento dos canais de comunicação e fóruns multilaterais, como as Zopacas. Então, o quadro de segurança regional seria marcado pelo enfraquecimento da cooperação entre países vizinhos. Por outro lado, dependendo de como o acordo vai se desenrolar, podemos pensar num provável isolamento argentino na região", disse.

Kilson também analisa que, nesse cenário complexo, o incentivo à produção bélica dentro do contexto da política interna de cada Estado pode ser uma realidade, e aponta que o recente discurso do presidente Lula sobre a necessidade de se investir em defesa para não ser surpreendido sinaliza esse movimento.

"Esse discurso de Lula, na realidade, é algo novo. Essa perspectiva de que o Brasil precisa se militarizar para se proteger ou dissuadir ameaças externas. Então, pode ser que em determinado momento exista um enfraquecimento das Zopacas como instrumento de diplomacia e que cada país volte para si mesmo e pense em políticas de defesa individuais que não levem em consideração seus vizinhos", comenta.

O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente, Celso Amorim, conversam durante sessão especial de abertura da primeira reunião de sherpas da presidência brasileira do BRICS, no Palácio Itamaraty. Brasília (DF), 26 de fevereiro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 09.07.2026
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Investimento dos EUA tende a causar dependência

O especialista, que publicou seu estudo sobre o tema no Boletim Geocorrente do Núcleo da Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), também indica que esse acordo, que prevê investimento estadunidense, pode causar danos internos para a indústria militar argentina, como uma extrema dependência tanto militar quanto política.

"Trata-se de um acordo estratégico de natureza assimétrica, por envolver países com projeções militares, econômicas e políticas dissonantes. Embora a Marinha argentina possa sim se beneficiar materialmente dos investimentos feitos a partir dos EUA, no caso argentino existe a possibilidade de um aumento significativo de dependência militar e política", destaca.

O pesquisador também assinala que esse acordo firmado com o Comando Sul dos EUA pode ir além da administração Milei, mesmo que um outro governo possa vir a ser contrário, devido à relação assimétrica entre os países.

"Com certeza é uma política que vai extrapolar o governo Javier Milei, e, se o governo seguinte não tiver capacidade legislativa ou jurídica para mudar a essência desse acordo, as debilidades que a Argentina pode internalizar a partir da aceitação acrítica desse acordo podem se fortalecer. Pode haver o crescimento de uma dependência tecnológica e o enfraquecimento da própria indústria argentina", observa.

O presidente norte-americano Donald Trump assina uma proclamação comprometendo-se a combater a atividade criminosa dos cartéis na Cúpula Escudo das Américas, no Trump National Doral Miami em Doral, Flórida, 7 de março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 16.03.2026
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Acordo entre EUA e Argentina impõe nova realidade

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No caso da Argentina, também signatária desse projeto e mantendo um alinhamento automático aos desígnios norte-americanos, abriu-se mais um flanco para os EUA no Atlântico Sul. Dessa maneira, Kilson explica que os países com posicionamentos distintos ao da Casa Rosada precisam se adaptar à realidade concreta do momento.

"Inaugurou-se um novo contexto, no qual os EUA, se estavam como ameaça, estavam distantes [geograficamente], e se tornaram um 'elefante' presente [no contexto sul-americano]. A gente tem que pensar: esse novo cenário inclui a presença norte-americana na América do Sul. Há duas possibilidades: ou os países se fortalecem enquanto atores políticos com autonomia, ou se tornam uma subalternidade perfeita", conclui.

Apesar de pressões políticas e algumas escaramuças no âmbito regional, a América Latina gozava de relativa estabilidade. Contudo, passou a conviver com alto grau de tensão, principalmente após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pelos EUA, que, com sua política externa de conceber os Estados latino-americanos como parte de seu "quintal", reacende o debate sobre soberania nacional.
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