- Sputnik Brasil, 1920
Notícias do Brasil
Notícias sobre política, economia e sociedade do Brasil. Entrevistas e análises de especialistas sobre assuntos que importam ao país.

Rússia para brasileiros: influenciadores quebram estereótipos falando de cultura russa na Internet

© Arquivo pessoalEkaterina Puchkova, Ekaterina Brobovnikova e Thiago de Melo, influenciadores que produzem conteúdos sobre a Rússia em língua portuguesa nas redes sociais
Ekaterina Puchkova, Ekaterina Brobovnikova e Thiago de Melo, influenciadores que produzem conteúdos sobre a Rússia em língua portuguesa nas redes sociais - Sputnik Brasil, 1920, 16.07.2026
Nos siga no
Especiais
Espionagem, vodca, temperaturas congelantes e ursos são alguns estereótipos que denotam a visão brasileira sobre a Rússia. Na contramão do imaginário, influenciadores digitais divulgam conhecimento em língua portuguesa sobre a cultura russa nas redes sociais e alcançam milhões de pessoas.
Na era da hiperconectividade, o brasileiro passa em média 9 horas e 32 minutos por dia diante das telas, segundo pesquisa da Proxyrack. O país fica atrás apenas da África do Sul, que tem média diária de 9 horas e 38 minutos. Outro relatório, esse da NordVPN, publicado em abril, mostra que o brasileiro, dentro da expectativa de vida nacional, 76 anos, passa 70% do período conectado à Internet. Em números absolutos, são 52 anos, 9 meses e 16 dias.
Evidentemente, o cenário é de terreno fértil para criadores de conteúdo digital. Entretanto, não foram bem as métricas que alçaram os influenciadores que falam da cultura russa em língua portuguesa e conversaram com a Sputnik Brasil ao universo on-line.
Ekaterina Brobovnikova nasceu no Brasil e é filha de pais russos. À reportagem, ela conta que tudo que conheceu do país até se mudar para o gigante eurasiático veio através dos pais, que se mudaram para a América do Sul ainda nos tempos da União Soviética. Na Rússia, ela foi estudar medicina, e, após terminar a faculdade e trabalhar, em uma das férias decidiu que era hora de explorar a terra das raízes da família. Viajando sozinha, com seu celular, registrou momentos da viagem e publicou tudo nas redes sociais. O conteúdo viralizou.
"Eu decidi fazer a Transiberiana. Fiz a Transiberiana de Krasnoyarsk até Moscou, com paradas em várias cidades, e fui documentando tudo. Aconteceu que alguns dos meus vídeos viralizaram. Muitas pessoas começaram a gostar, ver o conteúdo, acompanhar toda essa experiência, e ficaram. Hoje em dia eu faço conteúdo sobre a minha vida na Rússia, cidades que eu conheço. Continuo explorando o país e compartilhando, é mais como se fosse, em primeiro lugar, um blog das minhas experiências. E acabou que eu comecei a trazer mais sobre a história, a cultura, porque eu mesma gosto disso, da arquitetura russa e soviética que tem aqui. Então falo muito sobre isso, adoro a literatura russa também."
A influenciadora tem 108 mil seguidores no Instagram e postagens sobre a história e herança soviéticas na Rússia nos dias de hoje, que ultrapassaram milhões de visualizações.
No Brasil há cerca de seis anos, Ekaterina Puchkova começou na Internet com publicações sobre o idioma russo. Em quatro anos de trabalho, a influenciadora soma 1,2 milhão de seguidores no Instagram e 837 mil inscritos no Youtube. Agora, seus vídeos vão desde a vida de uma russa em solo brasileiro a comparações da cultura e da culinária dos dois países.
Ela avalia que a cultura russa não é tão popular no Brasil quanto a de outros países, como Japão, Alemanha e Itália, mas acredita, sobretudo avaliando seu crescimento nas redes sociais, que cada vez mais os brasileiros se interessam pela Rússia.

"Eu percebi que a curiosidade cresceu e cresce a cada ano. Acho que as principais curiosidades e dúvidas dos brasileiros são em relação à história russa, principalmente do tempo da União Soviética."

Puchkova afirma, ainda, que os brasileiros "conseguem encontrar uma semelhança entre tradições e a mentalidade" russa. Nesse sentido, o interesse por valores familiares também é algo evidente. Para ela, há, sim, semelhanças entre os dois povos. "Os russos são latinos do inverno", destaca.
Nem sempre a relação umbilical é o pontapé inicial para criar conteúdo sobre a Rússia na Internet. Thiago de Melo é carioca e, até começar a estudar o idioma como autodidata em 2018, confessa que sabia pouquíssimas coisas sobre a Rússia, muitas delas ainda fruto de estereótipos propagados por filmes e outras obras da cultura ocidental.
Atualmente, o influenciador explora a Rússia com a esposa, que é natural do país. No YouTube, são 611 mil inscritos no canal Vem a Mim Língua Russa, onde ele publica suas aventuras morando do outro lado do globo. No Instagram, são mais de 411 mil seguidores.
Em sua interação com o público, Thiago conta que as principais questões que chegam a ele são sobre a segurança no país, por conta da operação militar especial; sobre os russos falarem inglês; e também, claro, sobre a história soviética.

Brasileiros ainda têm visão estereotipada da Rússia

Os russos não são todos como Marmieladov, personagem do livro "Crime e castigo", de Fiódor Dostoiévski, que passa os dias em uma taberna gastando todo o dinheiro da família com álcool. Tampouco são espiões, como se notabilizou no cinema norte-americano e ocidental como um todo, que sempre reservou um lugar de vilania para Moscou. Atravessada fortemente pela produção cultural e de entretenimento do Ocidente, a visão brasileira sobre a Rússia muitas vezes pende para esse lugar estereotipado.
Para Puchkova, o maior estereótipo sobre ser uma russa no Brasil é relacionado à espionagem: "Encontro bastante comentários nas minhas redes sociais me perguntando se eu sou uma espiã ou não". Brobovnikova relata que ainda encontra mensagens de igual teor em sua caixa de mensagens, e também em comentários de posts.
Todos destacam ainda a russofobia, por parte de um público que chega até seus perfis apenas com o intuito de atacar.
Brobovnikova opina que há uma divisão de público nas redes entre "quem gosta da Rússia e quem não gosta". O segundo grupo tende a cometer ataques russofóbicos, que aumentaram nos últimos anos, na avaliação dela. "Já recebi algumas mensagens no privado de mau gosto", acrescenta.
Embora não seja russo, mas trabalhe difundindo a cultura do país e more por lá, Thiago também relata episódios de comentários equivocados e ataques gratuitos na Internet por causa de seu conteúdo. Uma das visões deturpadas é que, pelo fato de ser um estrangeiro em território russo, ele seria obrigado a servir às Forças Armadas russas.
"Isso é mentira!", exclama. "Eu já estou na Rússia faz um tempo, inclusive tenho alunos que moram aqui, que estudam, e isso é mentira, isso não acontece. Não tem como você imaginar que você vai vir para a Rússia como turista e alguém vai te colocar dentro de um carro preto e vai te levar forçadamente para onde você não quer ir", argumenta.
Ele ainda salienta os ataques de ódio que recebe nas redes sociais por conta do conflito entre Rússia e Ucrânia. "O tempo inteiro eu recebo muitos comentários de brasileiros que são a favor da Ucrânia. Eles acabam encontrando os meus vídeos e sempre me ameaçam, me xingam, me desejam coisas ruins."

Qual o papel do influenciador que fala sobre a cultura russa nas redes sociais?

Se os estereótipos sobre o Estado russo foram sedimentados ao longo da história, os paradigmas estão aí para ser quebrados, mesmo diante dos desafios impostos por plataformas ocidentais — Thiago confidenciou à reportagem que observou "uma queda brusca" no alcance dos seus conteúdos após o início do conflito na Ucrânia.
Os influenciadores ressaltam que estão interessados em divulgar a história, a cultura e a vida social na Rússia para desmistificar anos de construções equivocadas. Para o influenciador brasileiro, essas vozes estão nas redes justamente para contornar isso, para contrariar estereótipos.

"As pessoas falam que realmente eu estou mostrando uma realidade que ninguém nunca mostrou, porque a Rússia é um país muito mistificado — tem muito mito sobre ele, tem muita propaganda na Internet, tem muitos filmes em que o vilão sempre é um russo. Eu estou mostrando a realidade, estou mostrando a vida como ela é, sem filtros, sem mentira. Pego a câmera, saio na rua, gravo, faço vídeos ao vivo conversando com as pessoas na rua, e as pessoas agradecem por isso."

Brobovnikova, também morando na Rússia atualmente, afirma o papel dos influenciadores de "trazer a informação em primeiro mão", para mostrar a realidade da vida russa.
"A gente tem um papel muito grande na desmistificação de vários assuntos e temas, que às vezes são absurdos enormes. Quando a gente está aqui dentro e vê como é de verdade, eu sinto que é uma ótima oportunidade de quebrar estereótipos", completa.
Na mesma linha, Puchkova ressalta o papel de pontuar semelhanças entre os dois povos.

"Talvez, à primeira vista, nós não pareçamos ser muito gentis, muito amigáveis, por causa da nossa expressão. A gente sempre é assim, não sorri muito quando não há um motivo, mas, quando a gente conhece a pessoa, nos tornamos outra pessoa; acho que nem nós mesmos nos conhecemos. Então a gente é muito parecido nesse sentido", enfatiza.

No aspecto das semelhanças, ela projeta que, a longo prazo, a cultura russa vai crescer muito no Brasil. "Um dia a gente vai chegar ao nível dos japoneses aqui no Brasil, vai ter tanto russo quanto japonês", descontrai.
Logo da emissora Sputnik - Sputnik Brasil
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Feed de notícias
0
Para participar da discussão
inicie sessão ou cadastre-se
loader
Bate-papos
Заголовок открываемого материала