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EUA são 'pai tóxico' e dificultam processo de reconstrução da Venezuela, avaliam analistas

© AP Photo / Ariana CubillosVenezuelanos afetados pelos terremotos de 24 de junho carregam ajuda humanitária enviada pelos Estados Unidos. La Guaira, 8 de julho de 2026
Venezuelanos afetados pelos terremotos de 24 de junho carregam ajuda humanitária enviada pelos Estados Unidos. La Guaira, 8 de julho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 21.07.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas explicam que as sanções e o bloqueio de ativos venezuelanos no exterior atrapalham tanto a economia do país como o cuidado dos afetados pelos terremotos do mês passado.
A Venezuela vive uma longa crise econômica, desencadeada por sanções econômicas ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, incluindo o congelamento de ativos de Caracas no exterior. O sofrimento financeiro da população foi agravado durante a pandemia de COVID-19, uma emergência sanitária que afetou o capital em todo o mundo.
O martírio venezuelano ganhou novos capítulos após o início do segundo governo do presidente Donald Trump. Tropas norte-americanas passaram a bombardear embarcações na costa do país sob o pretexto de combate a organizações terroristas.
Poucos meses após o início desses ataques, em 3 de janeiro, uma operação militar de Washington, durante a madrugada, terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Em poucas horas, o casal já estava preso em uma penitenciária de Nova York, nos Estados Unidos.
Desde o rapto de Maduro, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente o cargo. A líder tenta trazer novos ares para o país, em busca de um diálogo inédito com os EUA neste século.
É nesse contexto que, em 24 de junho, dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a região centro-norte do país com um intervalo inferior a um minuto. Os tremores causaram enorme destruição, com mais de mil prédios danificados, incluindo 190 edifícios que desabaram.
De acordo com as autoridades da Venezuela, mais de 5 mil pessoas morreram, cerca de 16.700 ficaram feridas e quase 18 mil continuam desabrigadas.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a reconstrução da Venezuela — tanto econômica quanto física — é atrapalhada pelo novo "aliado" por meio de suas sanções e interferências.
Jefferson Nascimento, doutor em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e membro do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), declarou que a relação de Washington com Caracas, desde o sequestro de Maduro, tem características de um "pai tóxico".
Mas, para chegar a 2026 e ao rapto de Maduro, Nascimento voltou à década de 1950 para explicar a relação entre os países. À época, Caracas passava por um processo de transição democrática liberal e teve apoio de Washington, que interferiu pedindo que fosse contido o avanço de movimentos comunistas no país caribenho.
Décadas mais tarde, já no período de Hugo Chávez, a Venezuela apresentava uma retórica "muito agressiva" sobre a postura dos Estados Unidos na América Latina. Ainda assim, os países continuavam a fazer negócio, sobretudo relacionado ao petróleo, que desde 1923 contava com a empresa norte-americana Chevron na extração.
Em 2007, Chávez decretou a nacionalização do petróleo, tornando o Estado o acionista majoritário de todas as operações na faixa petrolífera do Orinoco por meio da Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA) — fato que só viria a mudar em 2026, após o sequestro de Maduro.
Portanto, para Nascimento, voltar a ter acesso aos hidrocarbonetos venezuelanos é o fator principal para Trump ter ordenado o rapto do presidente da Venezuela. Segundo o especialista, o republicano pouco fala sobre democracia em seus discursos relacionados a Caracas, enquanto a palavra "petróleo" é usada com maior frequência.

"Isso é um indício de que o fato de os EUA estarem preocupados com a Venezuela — e isso não é uma questão só de agora, mas histórica — está ligado muito mais a questões de interesses econômicos."

O cientista político explica que o dinheiro da venda do petróleo da Venezuela, desde a captura de Maduro, passa antes pelo Tesouro Americano, conforme combinado entre Rodríguez e as autoridades de Washington. No entanto, há pouca transparência nesse processo, o que indica que "a soberania venezuelana está muito limitada no momento".

"A relação que os EUA estabeleceram com a Venezuela depois do sequestro de Nicolás Maduro é uma relação de uma espécie de pai tóxico."

Uma bandeira da Venezuela é hasteada do lado de fora de um prédio danificado pelos terremotos de 24 de junho, em Catia La Mar, em 26 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 26.06.2026
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E os recursos congelados?

Rodríguez e outras autoridades venezuelanas vieram a público pedir que instituições financeiras internacionais, incluindo apelos ao rei da Inglaterra, Charles III, liberassem ativos de Caracas congelados em bancos ao redor do mundo. As posses, de acordo com o governo da Venezuela, seriam vitais para a reconstrução do país e assistência aos desabrigados.
Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estima que cerca de US$ 25 bilhões venezuelanos estejam travados em instituições financeiras em todo o globo. Poucos dias após o terremoto, os EUA desbloquearam algumas propriedades venezuelanas por meio de uma licença-geral, mas que carece de especificidade.

"É uma licença-geral que não coloca valor. Ela não inclui, portanto, esse grande volume de reservas internacionais que estão tanto no sistema financeiro norte-americano, quanto aqueles que estão fora, em bancos da Europa. [...] Esse abrandamento da sanção não atinge a totalidade dos recursos e também não específica o quanto de recurso poderia ser liberado. Isso fica a cargo justamente de Washington definir."

Segundo a professora, Washington liberou dias após os terremotos US$ 150 milhões para ajudar nos esforços de Caracas. A Casa Branca também enviou militares para atuar nos resgates, o que chamou a atenção das autoridades venezuelanas.

"Tem-se observado, ao longo das últimas semanas, um aumento da presença de militares americanos na Venezuela, e se desconfia muito de qual realmente é o intuito do envio desses militares, que não são as pessoas mais adequadas para estarem atuando nesse terreno. Então há uma grande desconfiança de que eles estão aproveitando mais uma vez uma tragédia que assola a Venezuela para conseguir aumentar o seu grande de influência naquele país."

Em 1999, fortes chuvas culminaram em um deslizamento de grandes proporções na região de La Guaira. Estima-se que os temporais de 26 anos atrás provocaram a morte de até 30 mil pessoas, embora apenas mil corpos tenham sido encontrados — acredita-se que a maior parte das vítimas tenha sido arrastada para o mar ou soterrada sob a lama.
Pedroso explica que, à época, Chávez recusou a ajuda norte-americana, que também queria enviar militares à Venezuela. O líder de Caracas declarou que o país precisava de ajuda especializada e não de tropas.
"Naquela ocasião, a Venezuela ainda tinha condições de se colocar enquanto país soberano e, de certa forma, selecionar que tipo de ajuda ela receberia naquele contexto. E agora, em 2026, infelizmente a gente tem visto uma outra postura, tanto interna quanto externa, para lidar com essa tragédia."
A professora destaca que o Brasil tem ajudado com medicamentos, alimentos e resgatistas, mas que a postura do Itamaraty deveria ser mais proativa na questão estrutural dos problemas de soberania na Venezuela.
"A gente, em geral, tende a agir de forma rápida e solidária tanto com os vizinhos como com outros países que passam por catástrofes ou dificuldades humanitárias, mas ainda falta dentro da política externa brasileira um ativismo mais sustentável ao longo do tempo e que não seja só de ocasião."
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