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'Tiro pela culatra': uso do dólar como arma acelerou processo de desdolarização, avaliam analistas

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Dólar em chamas (imagem referencial) - Sputnik Brasil, 1920, 23.07.2026
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À Sputnik Brasil, analistas destacam que a política de sanções e tarifaços provaram que os EUA não são parceiros confiáveis, levaram Rússia e China a quase zerar o uso do dólar em transações bilaterais, e fizeram até aliados de Washington buscar formas de se libertar da moeda norte-americana.
Rússia e China praticamente abandonaram o dólar norte-americano e o euro em transações bilaterais, e as moedas hoje cumprem apenas um papel residual nas operações. A afirmação foi feita pelo ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, em comentário sobre a intensificação da parceria entre os países.

"A participação das transações realizadas em dólares e euros diminuiu para um nível insignificante."

O feito tem relação direta com a política de sanções ocidentais imposta à Rússia, liderada pelos EUA, que acabou tendo efeito reverso e atingiu empresas norte-americanas, causando uma perda de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,16 trilhão).
Paralelamente a isso, a União Europeia (UE) trabalha em um marco legal para desenvolver até 2029 uma moeda digital do Banco Central Europeu, para que o continente deixe de depender de gigantes de cartão de crédito dos EUA e das stablecoins atreladas ao dólar.
A movimentação ocorre em um momento que o presidente estadunidense, Donald Trump, retoma a estratégia de impor tarifas como forma de protecionismo e de punir países por ações que reduzem sua dependência dos EUA ou as margens de lucro de empresas norte-americanas, como é o caso do Pix brasileiro.
À Sputnik Brasil, Fábio Sobral, professor de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), diz que o dólar é a principal arma política de Washington, que pode inclusive submeter países que usam a moeda à legislação interna dos EUA.
Ele explica que a hegemonia do dólar é centrada em alguns pilares, entre eles a venda de petróleo no Oriente Médio, cuja receita vai para mercados financeiros em Londres e Nova York, e sustentam bolhas especulativas, principalmente de inteligência artificial.
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"Os ganhos dos setores do Oriente Médio acabam financiando também essa manutenção dos mercados financeiros. Então há uma integração petróleo–dólar–mercados financeiros–estrutura financeira internacional. A presença do dólar ainda é muito forte, mas, à medida que os países vão se libertando do dólar, a força dos EUA, o chamado privilégio exorbitante, vai desaparecendo", pondera o economista.
Sobral considera que a atual postura do governo Trump acelera essa tendência, pela desconfiança que levanta em relação a parcerias com Washington.

"Os EUA nunca foram parceiros confiáveis, como disse o ministro das Relações Exteriores russo […]. Os EUA são incapazes de cumprir acordos, e isso tem sido percebido em todo o Sul Global."

Ele acrescenta que mesmo países aliados têm sido pressionados pelos EUA e começaram a desconfiar de Washington e criar mecanismos iniciais de alternativa, embora ainda não estejam considerando um rompimento com o país.
"O problema é que as camadas dirigentes dos países europeus e ocidentais, do Canadá, do Japão, da Coreia do Sul, são profundamente interligadas ao mercado financeiro internacional, recebem ganhos com isso e não se dispõem a romper. Mas o Sul Global está num processo de rompimento acelerado, principalmente na África e no Irã, e esses dois blocos tendem a se afastar cada vez mais rapidamente dos EUA", conclui.
Marcos Cordeiro Pires, professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu), avalia que a parceria entre China e Rússia avança rapidamente desde 2014, quando ocorreu o golpe de Estado na Ucrânia.
"A construção do gasoduto Força da Sibéria 1, em 2019, impulsionou ainda mais as relações bilaterais. Essa parceria se intensificou após 2022, quando as potências ocidentais impuseram boicotes e sanções às exportações russas. Nesse sentido, a China se converteu numa sócia confiável e estável, ajudando a Rússia a contornar diversas dificuldades."
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Pires acredita que a utilização do sistema SWIFT e do dólar como arma tem sido um "tiro pela culatra do Ocidente", e as sanções e a expropriação de reservas russas preocuparam grandemente diversos países do Sul Global quanto à confiabilidade do sistema baseado no dólar.

"O aumento dos estoques de ouro e a utilização de moedas nacionais na liquidação de transações comerciais são movimentos ascendentes. A participação do dólar americano nas reservas cambiais globais alocadas caiu de aproximadamente 64,1%, em 2015, para cerca de 56,8%, no final de 2025, de acordo com o FMI."

No recorte do Brasil, ele destaca que o país possui uma economia muito grande e diversificada para depender de um sistema monetário tão sujeito a injunções políticas. Nesse sentido, aponta o especialista, é importante reforçar a liquidação de comércio por meio de moedas locais, como aquelas que são realizadas entre real e yuan.
"E também pela emissão de títulos da dívida na moeda chinesa, como os 'panda bonds', que podem oferecer maior autonomia para a formulação da política macroeconômica.
Gustavo Bertotti, economista e head de renda variável da Fami Capital, aponta que as sanções desencadearam um incentivo à criação de novos meios de pagamentos e aproximaram países em relação a isenções tributárias.
Segundo ele, esse movimento ainda não destronou o dólar como moeda principal internacional, mas a intensificação do comércio entre Rússia e China quase integralmente em moedas locais incentivou outros países a fazer o mesmo e a buscar acordos bilaterais. E essa busca é intensificada pela política tarifária de Donald Trump.
"Acho que o investidor estrangeiro tem olhado muito para outros mercados, que não o mercado americano, buscando outras oportunidades. […] o Trump, com as medidas restritivas do ano passado e as tarifas que ele impôs, também forçou" esse movimento por parte dos empresários.
Ele considera que, diante dos recentes ataques da administração Trump e das tentativas de interferências, o Brasil deveria buscar outros parceiros, sem abrir mão de negociar com os EUA.

"Pela dependência que a gente tem de comércio com os EUA, eu acho que é um ponto em que a gente vai ter que buscar uma solução com a diplomacia."

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