Tríplice hélice deve ser um projeto de Estado para o Brasil e não de governo, defendem especialistas
20:17 24.07.2026 (atualizado: 21:54 24.07.2026)

© Foto / Tomaz Silva / Agência Brasil
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Integração entre forças armadas, academia e empresas pode trazer benefícios tanto para a defesa nacional quanto para a sociedade civil. Além de movimentar a economia nacional, a união entre setores evita dependência estrangeira.
As Forças Armadas do Brasil, iniciativa privada e academia se reuniram em torno de um novo projeto, nomeado de Córtex, que visa expandir o intercâmbio entre estes três setores para o desenvolvimento de tecnologias que possam ser empregadas tanto no campo militar como na sociedade civil.
De acordo com o Exército Brasileiro, a iniciativa pretende fomentar conhecimentos nas áreas de inteligência artificial, segurança digital, tecnologias quânticas, segurança de veículos e equipamentos, fabricação automatizada, sistemas contra drones e processamento de imagens.
O governo do Paraná anunciou a construção de um parque tecnológico no estado para atender ao projeto Córtex, onde serão realizadas pesquisas avançadas em cibersegurança, computação quântica e IA.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a união de Forças Armadas, iniciativa privada e academia — conhecida como tríplice hélice — deve ser um alicerce do Estado brasileiro e não só uma iniciativa isolada ou sujeita a intempéries de governos.
Guilherme Neves, professor do Ibmec, pesquisador em segurança cibernética no Instituto Militar de Engenharia (IME) e diretor de segurança da informação (CISO, na sigla em inglês) da Doutornet, explica que a pesquisa aplicada dual — para fins civis e militares — é uma diretiva do Ministério da Defesa. Como exemplos, o especialista cita o projeto Rondon, os institutos nacionais de ciência e tecnologia (INCT) e laboratórios de diversas instituições, como o próprio IME.
Neves, no entanto, alerta que, para iniciativas de tríplice hélice terem sucesso no Brasil, é necessário o apoio de políticas que durem por décadas e não se alternem a cada eleição presidencial.
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"O que acontece hoje no Brasil é que um governo tira dinheiro da pesquisa, outro põe dinheiro na pesquisa. Um tira, outro põe. Então, você não consegue ter continuidade nas pesquisas, esse é o grande problema. Então, nós precisamos de uma política de Estado de 30, 50 anos, com um orçamento definido que não possa ser contingenciado, para que essas pesquisas avancem de forma contínua. É o que se fez na China, por exemplo."
O professor e pesquisador reforça que o desenvolvimento de tecnologias não leva um ou dois anos. Ou seja, para gerar um produto com impacto para fins civis e militares, é necessário tempo para aperfeiçoar o projeto.
Outro ponto que Neves destaca é que a continuidade de investimentos garante que mentes qualificadas não precisem deixar o país para encontrar empregos em indústrias de ponta.
"Para esse ecossistema funcionar, as aplicações da indústria de defesa precisam ser duais, precisam atender também à sociedade. Por exemplo, a detecção de ataques cibernéticos em sistemas industriais de automação e controle tem aplicação não só nos ativos militares, mas principalmente nos ativos civis. Toda indústria precisa desse tipo de tecnologia. Nós temos mais de 50 mil indústrias no Brasil."
Neves também explica que a compra de soluções de tecnologia estrangeira abre espaços para vulnerabilidades a serem exploradas. Se o fornecedor virar um inimigo do Estado, além de interromper a disponibilidade do serviço, este sabe quais são as fragilidades e qual é a operacionalidade daquele determinado sistema.
"Nós não podemos ficar na mão de tecnologias estrangeiras porque não dá mais para confiar no mundo com a geopolítica que nós temos hoje. Nem sempre a gente consegue ter aliados de longo prazo que nos garantam o fornecimento de tecnologia sem interesses."
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Pablo Rangel, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM), afirma que a integração de academia, Forças Armadas e empresas é uma necessidade estratégica para qualquer país. O especialista explica que, na Marinha, este modelo de tríplice hélice já é aplicado com integração entre universidades, que estabelecem o campo científico, enquanto a indústria transforma os estudos em produtos para o ramo naval.
"Esse modelo reduz o tempo entre a pesquisa e a aplicação operacional, otimiza recursos públicos, fortalece a indústria nacional e cria um ciclo virtuoso em que ciência, inovação, soberania e desenvolvimento econômico caminham juntos."
Na visão de Rangel, o Brasil possui universidades de excelência e centros de pesquisa já consolidados que podem auxiliar na construção desta tríplice hélice. O pesquisador conta que o IpqM, ao lado do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE) da UFRJ e empresas da Base Industrial de Defesa (BID), já desenvolve sistemas baseados em inteligência artificial utilizados em campo.
"Essas soluções utilizam IA para apoiar a identificação de comportamentos suspeitos, o combate à pesca ilegal, ao tráfico de armas e de drogas, ao transbordo irregular de cargas, além de apoiar operações de busca e salvamento, patrulha naval e ações dos Fuzileiros Navais."
Como convencer a sociedade civil da importância da tríplice hélice?
Em ano eleitoral, pautas como segurança urbana, qualidade da saúde pública e o mercado de trabalho sempre entram nas discussões entre candidatos como uma demanda popular. Investimento e avanço de tecnologias em defesa parecem distantes das preocupações dos brasileiros; no entanto, um deslize nessa área e até seu copo de água pode ser comprometido.
Neves conta que um dos maiores desafios do setor de saneamento é garantir a integridade dos sistemas de água e esgoto. Segundo o especialista, hackers já atacaram diferentes programas ao redor do mundo para alterar parâmetros de descontaminação e até interromper o fornecimento desses serviços.
"Se você não tiver tecnologias nacionais que garantam a segurança da água que você vai beber, isso afeta toda a sociedade, de modo geral. Então, a transferência de tecnologia tem que passar por toda a cadeia produtiva de água e esgoto para atender à sociedade."
Rangel ressalta que tecnologias como a Internet e sistemas de geolocalização surgiram justamente dessa união de setores. Para o professor, a atenção adequada a essa questão pode movimentar a economia, gerando empregos qualificados, formando novos pesquisadores e estimulando empresas de tecnologia.
"Investir em tecnologia de defesa não representa apenas fortalecer as Forças Armadas; significa investir em ciência, indústria, desenvolvimento econômico e competitividade para todo o pais."


