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A armadilha do F-35: EUA tentam conter Turquia, mas não terão sucesso, dizem analistas

© AP Photo / Alex BrandonO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião bilateral com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, à margem da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Ancara, na Turquia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião bilateral com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, à margem da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Ancara, na Turquia - Sputnik Brasil, 1920, 30.07.2026
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Após desconversas sobre as negociações, Donald Trump voltou a insistir na venda de caças F-35 à Turquia. "Ninguém me diz o que vender", disse, após críticas de seu governo e de Benjamin Netanyahu. A decisão possui, sobretudo, camadas de complexidade geopolítica.
A afirmação, feita na segunda-feira (27), e às vésperas do encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, marca o crescente distanciamento entre Washington e Tel Aviv, mas principalmente um esforço para reequilibrar o tabuleiro geopolítico no Oriente Médio e da aliança da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Em primeiro lugar, a legislação estadunidense impede a venda de equipamentos e armamentos à Turquia, desde que o país adquiriu sistemas de defesa aérea S-400 da Rússia através da Lei de Combate aos Adversários por meio de Sanções (CAATSA, na sigla em inglês). Trump indicou que abaixaria essas sanções durante reunião com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, no dia 7 de julho, mas isso ainda não aconteceu.
Segundo, a relação entre Turquia e Israel, que já possui caças F-35 em sua frota aérea, são tensas: Ancara condenou os ataques israelenses no Líbano e o genocídio na Faixa de Gaza, rompeu comercialmente com Israel e teme se tornar o "próximo alvo" de Tel Aviv após a guerra com o Irã. Netanyahu, por outro lado, expressou preocupações com o acordo de caças, dizendo que "destruiria o equilíbrio de poder no Oriente Médio".
Terceiro, a questão extrapola a relação bilateral entre EUA e Turquia e afeta diretamente a OTAN. Ancara possui o segundo maior Exército da aliança e ocupa uma posição estratégica entre a Europa, o mar Negro e o Oriente Médio, mas sua independência estratégica gera desconfiança entre aliados.
E quarto, a reaproximação ocorre justamente quando a Turquia avança no desenvolvimento do TAI KAAN, seu caça de quinta geração. O projeto é visto por Ancara como peça central de sua autonomia na indústria de defesa e ganhou novo impulso com a parceria firmada com o Brasil, que pode acelerar o desenvolvimento da aeronave e abrir um mercado inicial para sua exportação.
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Equilíbrio regional no Oriente Médio e no Mediterrâneo

Esse reposicionamento estratégico engloba a disputa pela ordem regional no Oriente Médio. Como explica Issam Menem, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEEI/UFRGS), isso se encaixa no projeto nacional turco de autonomia estratégica que se desenvolve desde a última década.
"Hoje a Turquia reúne capacidades que poucos Estados possuem", diz o especialista. "Além de contar com a segunda maior força militar da OTAN, desenvolveu uma das indústrias de defesa mais abrangentes do mundo, produzindo desde armamentos leves até navios, fragatas, veículos blindados, tanques e drones."
Menem vê a reaproximação de Washington como um reconhecimento de que essa autonomia pode afetar o equilíbrio da região, inclusive na disputa com Israel por influência na Síria e no Mediterrâneo Oriental. Ademais, "a possível reinclusão da Turquia no programa F-35 e o fim das restrições à exportação de tecnologias sensíveis fazem parte de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para reaproximar Ancara do ecossistema industrial e tecnológico de defesa do Ocidente".

"Ao ampliar a cooperação em programas de alta tecnologia, Washington reforça os incentivos para que a Turquia permaneça integrada às cadeias produtivas ocidentais, reduzindo os estímulos para que desenvolva, de forma totalmente independente, capacidades estratégicas fora da esfera tecnológica ocidental."

De acordo com o também pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (Nuprima), a Turquia não estaria de todo errada em aceitar essa reaproximação.
Além de recuperar parte do investimento superior a US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões) realizado no programa F-35 antes de sua exclusão, Ancara conseguiria atender às necessidades imediatas de modernização da Força Aérea Turca até que o TAI KAAN alcance plena capacidade operacional.

"Mesmo com um eventual retorno ao programa F-35, a Turquia dificilmente voltará à relação de dependência que manteve com os EUA no passado. A estratégia de Ancara hoje é aproveitar essa reaproximação para ampliar suas capacidades militares e industriais, preservando a autonomia estratégica construída ao longo da última década."

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Sobretudo, segundo Pedro Paulo Rezende, analista militar e de geopolítica, a disputa envolve países do Mediterrâneo, como a Grécia. A aquisição dos sistemas russos S-400 por Ancara teve como principal objetivo reforçar sua capacidade de dissuasão diante de um eventual conflito com os gregos, e não enfrentar ameaças externas à OTAN. Apesar de serem membros da aliança, ambos divergem sobre a delimitação de águas territoriais para a exploração de gases naturais e petróleo.
Vale destacar que, em 2025, Israel, Grécia e Chipre assinaram um plano conjunto de cooperação militar para este ano, ampliando exercícios conjuntos, intercâmbio de inteligência e coordenação estratégica. O acordo foi interpretado pela comunidade internacional como um fortalecimento do eixo formado pelos três países diante da crescente influência turca na região.

"Seria uma maneira que os Estados Unidos teriam de controlar a Turquia na questão do possível conflito entre os dois países."

Relação Turquia x Brasil

O Brasil se insere como um parceiro tecnológico e industrial potencial da Turquia, possuindo experiência acumulada pela Embraer em engenharia aeronáutica, com programas como o KC-390 e o F-39 Gripen.
"Uma aproximação com um país que desenvolve um caça de quinta geração poderia abrir oportunidades de aprendizado tecnológico e inserção em novos projetos de defesa", diz Menem.
O pesquisador destaca que essa cooperação já está em curso. Amparada pelo Decreto Legislativo nº 195/2025 — texto do Acordo sobre Cooperação em Indústria de Defesa entre o Brasil e a Turquia —, a parceria bilateral prevê pesquisa, codesenvolvimento, transferência de tecnologia e comercialização conjunta de produtos de defesa.
Entre os projetos em andamento estão a integração de turbinas turcas Kale Jet Engines aos mísseis antinavio brasileiros MANSUP-ER; as negociações entre Embraer e Indústrias Aeoroespaciais Turcas (Tusas) nos setores aeronáutico e de drones; e a participação de empresas turcas em programas de veículos blindados e sistemas de armas para as Forças Armadas brasileiras.
Rezende soma pontuando que a relação entre os dois países passa mais pelo desenvolvimento de drones do que pela produção de caças — dando como exemplo o drone Bayraktar, da empresa turca Baykar — e ressalva que essa é uma "excelente parceria" para o Brasil. "Por enquanto, o motor do KAAN é americano, o mesmo utilizado no F-15."
Assim, a aproximação entre Brasília e Ancara também possui uma dimensão geopolítica. Tanto Brasil quanto Turquia buscam ampliar sua autonomia estratégica por meio da diversificação de parceiros tecnológicos e industriais.

"A cooperação entre Brasil e Turquia não deve ser vista necessariamente como uma competição com os Estados Unidos, mas como parte de uma dinâmica mais ampla na qual potências médias procuram fortalecer sua soberania tecnológica e reduzir dependências excessivas das grandes potências."

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