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Acordo entre Irã e Omã para administrar Ormuz não define quem controlará o estreito, diz analista
Acordo entre Irã e Omã para administrar Ormuz não define quem controlará o estreito, diz analista
Sputnik Brasil
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o entendimento firmado entre os países visa a estabilização da região, mas resolver quem ficará... 20.08.2026, Sputnik Brasil
2026-08-20T17:50-0300
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O Irã chegou a um entendimento com Omã sobre a divisão e administração do estreito de Ormuz e a rota de passagem de navios. Segundo a chancelaria iraniana, negociadores das duas partes estão finalizando os detalhes da administração conjunta da passagem.O acordo marca o primeiro passo para a estabilização da região após a eclosão da guerra contra o Irã lançada pelos EUA, segundo avalia ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, João Gabriel Fischer, doutorando em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) e membro do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT)."Eu vejo como o primeiro passo desses dois atores regionais. E no caso de Omã é importante até para a ideia de negociações futuras disso como algo parecido ao que a gente observa em outros Estados da região também, como o próprio Catar, que toma a iniciativa de realizar negociações, ou ser sede de certas negociações de outros atores", afirma Fischer.Ele destaca que Omã tem realizado essas negociações por diferentes razões, entre elas aumentar o soft power em negociações internacionais e se mostrar como um ator relevante no diálogo com o Irã. Já para Teerã, ele aponta que o objetivo é a reabertura do estreito de Ormuz, que seria benéfica para todos os países do entorno da passagem."Quase todos os países dessa região foram afetados nesse conflito, além das questões militares, mas [impactando] poderes econômicos também."O fato de Omã ser um vizinho que tem uma história de proximidade com o Irã foi um fator importante na decisão iraniana de levantar uma guarda conjunta com o país para administrar o estreito. Fischer observa que outros atores da região têm histórico de rivalidade com o Irã, como é o caso da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.No entanto, o especialista destaca que Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos não têm intenção de deixar que boa parte de suas exportações dependam de uma rota sobre a qual Teerã tem o controle e algumas mudanças em direção a isso já podem ser observadas, como a expansão dos oleodutos."A gente pode observar que tanto os Emirados Árabes como a Arábia Saudita têm expandido eles. No caso da Arábia Saudita, tem um importante oleoduto que leva parte da sua produção para o mar Vermelho", afirma.Marina Araújo, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Marinha do Brasil, avalia que o acordo entre Irã e Omã não cria uma autoridade supranacional no estreito.Ela enfatiza que Omã é um Estado que permanece neutro, mas tem uma posição de mediador na região e, por ser aliado de ambos, já mediou várias vezes questões entre o Irã e os EUA. E o acordo com o Irã relativo ao estreito fortalece essa posição.Araújo diz que a proposta de Omã no acordo de cobrar uma taxa voluntária a embarcações para financiar serviços administrativos, como questões de segurança, de busca e salvamento, infraestrutura e preservação ambiental, é diferente de uma taxa pela passagem de fato."Não é você pagar pela passagem, a partir do momento que surgisse essa sugestão de pagar pela passagem, já cria uma questão muito mais controversa. Porque isso reconhece que tem uma autoridade lá, com o direito de cobrar pelo trânsito internacional, e isso poderia enfrentar forte oposição de diversos países, mas principalmente dos próprios EUA", observa a especialista.Segundo Araújo, uma das questões mais delicadas sobre o acordo que ainda não foi completamente resolvida é quem ficará encarregado de controlar quais embarcações passam e quais serão vetadas de trafegar pelo estreito."O entendimento que eles já anunciaram estabelece uma rota, mas isso não significa que já tenha uma autoridade conjunta definida, com competência para autorizar ou vetar quem passa e quem não passa. O Irã quer preservar um papel central sobre quem entra e quem sai do golfo [Pérsico], mas Omã busca mais uma previsibilidade e uma segurança de navegação."Na visão de Araújo, uma das possíveis consequências no curto prazo do acordo Irã-Omã em relação à navegação no estreito de Ormuz é o aumento da presença militar dos EUA na região. Ela aponta que as declarações que o presidente estadunidense, Donald Trump, vem dando sobre o tema, que incluem transformar o estreito em território norte-americano, sinalizam que os EUA não ficarão satisfeitos com nenhum acordo que garanta uma influência institucionalizada do Irã na região, mesmo que seja um acordo bilateral com Omã.
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Acordo entre Irã e Omã para administrar Ormuz não define quem controlará o estreito, diz analista
17:50 20.08.2026 (atualizado: 17:51 20.08.2026) Especiais
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o entendimento firmado entre os países visa a estabilização da região, mas resolver quem ficará encarregado de autorizar ou vetar a passagem de embarcações pelo estreito é um ponto delicado, que ainda está em aberto.
O Irã
chegou a um entendimento com Omã
sobre a divisão e administração do estreito de Ormuz e a rota de passagem de navios. Segundo a chancelaria iraniana, negociadores das duas partes estão finalizando os detalhes da administração conjunta da passagem.
O acordo marca o primeiro passo para a estabilização da região após a eclosão da guerra contra o Irã lançada pelos EUA, segundo avalia ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, João Gabriel Fischer, doutorando em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) e membro do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT).
"Eu vejo como o primeiro passo desses dois atores regionais. E no caso de Omã é importante até para a ideia de negociações futuras disso como algo parecido ao que a gente observa em outros Estados da região também, como o próprio Catar, que toma a iniciativa de realizar negociações, ou ser sede de certas negociações de outros atores", afirma Fischer.
Ele destaca que Omã tem realizado essas negociações por diferentes razões, entre elas aumentar o soft power em negociações internacionais e se mostrar como um ator relevante no diálogo com o Irã. Já para Teerã, ele aponta que o objetivo é a reabertura do estreito de Ormuz, que seria benéfica para todos os países do entorno da passagem.
"Quase todos os países dessa região foram afetados nesse conflito, além das questões militares, mas [impactando] poderes econômicos também."
O fato de Omã ser um vizinho que tem uma história de proximidade com o Irã foi um fator importante na decisão iraniana de levantar uma guarda conjunta com o país para administrar o estreito. Fischer observa que outros atores da região têm histórico de rivalidade com o Irã, como é o caso da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.
"E Omã representa também, no meu ver, ter levado em consideração o interesse de outros atores, não somente dos EUA, mas da própria Arábia Saudita e outros Estados árabes que foram significativamente afetados porque não conseguiram escoar parte das suas produções energéticas, seja em petróleo ou gás."
No entanto, o especialista destaca que Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos não têm intenção de deixar que boa parte de suas exportações dependam de uma rota sobre a qual Teerã tem o controle e algumas mudanças em direção a isso já podem ser observadas, como a expansão dos oleodutos.
"A gente pode observar que tanto os Emirados Árabes como a Arábia Saudita têm expandido eles. No caso da Arábia Saudita, tem um importante oleoduto que leva parte da sua produção para o mar Vermelho", afirma.
Marina Araújo, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Marinha do Brasil, avalia que o acordo entre Irã e Omã não cria uma autoridade supranacional no estreito.
"É mais uma coordenação entre dois Estados costeiros para definir como, de fato, vai ser o fluxo por onde entram, por onde saem [os navios], e quem vai ter um controle mais administrativo do que puramente de decisões políticas mais sérias", afirma.
Ela enfatiza que Omã é um Estado que permanece neutro, mas tem uma posição de mediador na região e, por ser aliado de ambos, já mediou várias vezes questões entre o Irã e os EUA. E o acordo com o Irã relativo ao estreito fortalece essa posição.
"Ele passa a ter mais influência diplomática, porque foi responsável por organizar esse acordo, só que ele também ganha uma posição de ator de segurança marítima regional, porque também vai estar garantindo o funcionamento, o fluxo de navios pelo estreito de Ormuz."
Araújo diz que a proposta de Omã no acordo de cobrar uma taxa voluntária a embarcações para financiar serviços administrativos, como questões de segurança, de busca e salvamento, infraestrutura e preservação ambiental, é diferente de uma taxa pela passagem de fato.
"Não é você pagar pela passagem, a partir do momento que surgisse essa sugestão de pagar pela passagem, já cria uma questão muito mais controversa. Porque isso reconhece que tem uma autoridade lá, com o direito de cobrar pelo trânsito internacional, e isso poderia enfrentar forte oposição de diversos países, mas principalmente dos próprios EUA", observa a especialista.
Segundo Araújo,
uma das questões mais delicadas sobre o acordo que ainda não foi completamente resolvida é quem ficará
encarregado de controlar quais embarcações passam e quais serão vetadas de trafegar pelo estreito.
"O entendimento que eles já anunciaram estabelece uma rota, mas isso não significa que já tenha uma autoridade conjunta definida, com competência para autorizar ou vetar quem passa e quem não passa. O Irã quer preservar um papel central sobre quem entra e quem sai do golfo [Pérsico], mas Omã busca mais uma previsibilidade e uma segurança de navegação."
Na visão de Araújo,
uma das possíveis consequências no curto prazo do acordo Irã-Omã em relação à navegação no estreito de Ormuz é o aumento da presença militar dos EUA na região. Ela aponta que as declarações que o presidente estadunidense, Donald Trump, vem dando sobre o tema, que incluem transformar o estreito em
território norte-americano, sinalizam que os EUA não ficarão satisfeitos com nenhum acordo que garanta uma influência institucionalizada do Irã na região, mesmo que seja um acordo bilateral com Omã.
"Então, o paradoxo é que uma tentativa de regionalizar a segurança pode inicialmente aumentar a competição militar entre as potências externas e os atores que estão na região", aponta a analista.
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