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Escudo das Américas é uma aliança ideológica dos EUA, não de combate às drogas, avaliam analistas

© AP Photo / Mark SchiefelbeinIntegrantes da iniciativa Escudo das Américas posam para uma foto de grupo na Cúpula Escudo das Américas, no Trump National Doral Miami, em Doral, Flórida. EUA, 7 de março de 2026
Integrantes da iniciativa Escudo das Américas posam para uma foto de grupo na Cúpula Escudo das Américas, no Trump National Doral Miami, em Doral, Flórida. EUA, 7 de março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 25.08.2026
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o combate ao narcotráfico está em segundo plano na iniciativa lançada pelos EUA, e que o real objetivo é firmar uma aliança de países alinhados ao governo norte-americano.
O novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou a adesão do país à iniciativa Escudo das Américas, liderada pelo governo dos EUA, que reúne países latino-americanos em uma aliança de combate ao narcotráfico.
A proposta da aliança é bastante polêmica e reacendeu o debate sobre a segurança no continente e o papel dos EUA na coordenação da defesa regional e do imperialismo norte-americano. Em um cenário marcado pela competição entre grandes potências, pelo avanço de organizações criminosas transnacionais, pela pressão migratória e por novas ameaças cibernéticas, a iniciativa levanta questionamentos sobre soberania, integração militar e o futuro das relações hemisféricas.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Spunik Brasil, Yasmim Abril Reis, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, afirma que a iniciativa da aliança surge em um contexto de fragmentação da estrutura da integração latino-americana e reflete a clássica geopolítica dos EUA de ter tutela sobre países da região, assim como ocorreu na Doutrina Monroe e na política do Big Stick.

"O governo Trump tem reforçado essa lógica hemisférica nas decisões estratégicas. Então, refletindo o que a gente poderia, talvez, chamar de uma nova roupagem de uma esfera de influência. […] E um desses resultados que reforça a lógica hemisférica, e até mesmo essa posição dos EUA resgatando essa roupagem, é o Escudo das Américas", afirma.

O presidente norte-americano Donald Trump assina uma proclamação comprometendo-se a combater a atividade criminosa dos cartéis na Cúpula Escudo das Américas, no Trump National Doral Miami em Doral, Flórida, 7 de março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 16.03.2026
Panorama internacional
'Escudo das Américas pode gerar política militar ideologizada na região', diz analista (VÍDEOS)
Reis demonstra ceticismo em relação à efetividade da aliança no combate ao narcotráfico e cita iniciativas anteriores, como a Iniciativa de Segurança para a Prosperidade, lançada em 2005, pelo então presidente dos EUA George W. Bush (2001–2009), que esbarraram em questões internas de soberania e autonomia política e não foram eficazes na eliminação do narcotráfico.
"A gente encontra contornos institucionais no Escudo das Américas bastante nebulosos, principalmente em relação a um plano concreto do que seria o seu desenho institucional. […] A falta dessa clareza do seu desenho concreto sinaliza que essas operações conjuntas, esses mecanismos de atuação, podem não ter propriamente um efeito prático."
Na visão da analista, o anúncio da aliança está mais ligado a uma retórica política, a um simbolismo estratégico, do que efetivamente prático. Segundo ela, o Escudo das Américas serve como instrumento de pressão dos EUA, principalmente ideológica, sobre países latino-americanos usando a narrativa da guerra às drogas como pano de fundo.

"Na prática, esse novo arranjo vai estar mais ligado ao resgate de um longo histórico de intervenção dos EUA na região dentro de um plano mais imaginário, mas que guarda continuidade como o foco nas ameaças transnacionais e o papel central dos EUA como fiador da segurança regional", avalia Reis.

Melvin Dorsey (E) e Tim Boyd trabalham na instalação de retratos durante a transição de uma réplica do Salão Oval da Casa Branca da época do ex-presidente Joe Biden para a decoração do presidente Donald Trump, na Associação Histórica da Casa Branca em Washington, 23 de julho de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 09.07.2026
Panorama internacional
Como os EUA estão buscando mobilizar a América Latina em torno de seus interesses?
Victor Cabral, doutor em relações internacionais e professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), diz que o fato de os EUA lançarem uma aliança contra o narcotráfico na América Latina, sem ter Brasil e México na mesa de negociação, sinaliza que o interesse da iniciativa realmente não é o combate às drogas.
"Parece muito mais um conjunto relacionado a um combate ideológico de determinados governos para poder vir e dizer que existem nações que são inimigas, que podem, de alguma forma, colocar as Forças Armadas dos EUA em maior prontidão para atuar na nossa região em nome desse combate ao narcotráfico."
Ele considera que a aliança tem uma limitação expressiva por não incluir México e Brasil, não só por questões econômicas, mas por serem dois países produtores de drogas, bem como rota para escoamento na logística de distribuição do narcotráfico.
"A nossa ausência mostra uma limitação não só do programa, mas também demonstra que não há um interesse em si do combate às drogas; é um interesse muito mais ideológico", afirma o especialista.
Segundo Cabral, o fato de os países estarem fora da aliança pode colocá-los na mira das operações da iniciativa, principalmente o Brasil, por conta do período eleitoral.

"O Escudo das Américas pode servir como um mecanismo que proporcione operações de países vizinhos ao Brasil em áreas próximas à nossa fronteira, dizendo que estão fazendo combate ao narcotráfico. E isso em um semestre de eleição, onde a gente vai provavelmente ver um discurso de que o governo brasileiro não combate [o narcotráfico]", avalia o especialista.

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