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'Curto-circuito': anos de ações do STF têm em caso Mendonça e Moraes o seu estopim, afirma analista

© Foto / Luiz Silveira / STFOs ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino (à esq.), André Mendonça (centro) e Alexandre de Moraes (à dir.) durante sessão plenária, em 3 de setembro de 2026
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino (à esq.), André Mendonça (centro) e Alexandre de Moraes (à dir.) durante sessão plenária, em 3 de setembro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 15.09.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialista em direito processual explica trajetória de decisões da Corte que culminaram na sessão desta terça-feira (15), que contou com troca de acusações entre ministros e terminou com pedido de vista de Flávio Dino.
A sessão tratou das ações que investigam os contatos de Alexandre de Moraes com ex-anqueiro Daniel Vorcaro, que está preso, assim como as atitudes de André Mendonça na relatoria do caso Master.
Com a atenção dos brasileiros voltada para a sessão plenária do STF, os ministros trocaram acusações e protagonizaram discussões acaloradas ao longo de todo o dia, até que Flávio Dino interrompeu as trocas de farpas e pediu vistas da ação. Com o placar em 4 a 3 para manter os dois casos separados, o pedido de Dino tem prazo de até 90 dias, prolongando o imbróglio entre os magistrados da Corte.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Maíra Cardoso Zapater, coordenadora e docente de direito processual do curso de direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o Brasil assistiu hoje na TV Justiça é o estopim de mais de uma década de ações do Supremo, resumido pela especialista como um "curto-circuito".
Para chegar nesta análise, Cardoso Zapater detalhou cada passo de como funciona o processo legal no Brasil. A professora da Unifesp conta que, para alguém ser punido por um crime, é preciso encarar as divisões de funções das diferentes instâncias e instituições do Estado: a polícia investiga, o Ministério Público acusa e quem julga é o Poder Judiciário, sempre prezando pelo poder de direito à defesa do réu.
"Em um Estado democrático, o processo penal divide todas essas funções justamente para que você não tenha uma instituição que detenha o poder de investigar e acusar, ou acusar e julgar, ou juntar tudo, investigando, acusando e julgando, porque quem julga, que é a autoridade que prende, se ela acusar, esse julgamento já está parcial. Se quem acusa investigou, essa investigação também vai estar parcial, porque vão ser colhidas provas necessariamente para incriminar alguém."
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No entanto, na visão de Zapater, desde o Mensalão, mas em especial a partir da Lava-Jato, o STF passou a flexibilizar esses ritos de investigação, acusação e condenação. A flexibilização destas normas se deu, de acordo com a especialista, a partir de um pragmatismo político de que era necessário acabar com a corrupção.
"Então o Supremo começa a autorizar que o Ministério Público investigue, quando a Constituição só permite que a polícia faça isso; começa a permitir que juiz e Ministério Público atuem em conjunto, que é o que aconteceu na Lava-Jato, começa a permitir que as pessoas sejam presas antes de serem condenadas, que foi a prisão em segunda instância."
Zapater é categórica ao destacar que o Poder Judiciário assistiu a essa alteração de normas a conta-gotas, que “às vezes eram um tsunami”, inclusive no julgamento da trama golpista, que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por uma tentativa de golpe de Estado.
"Todas essas quebras que aconteceram acabaram chegando a um sistema em que a legislação não conversa com o que os tribunais estão fazendo, com o que os ministros estão fazendo no tribunal."
É nesse contexto que surge o inquérito das fake news, presidido por Moraes, e que estabelece investigações feitas diretamente pelo STF, algo que existe apenas no regimento interno da Corte. Zapater ressalta que o documento que rege o Supremo é da época da ditadura militar, assim como a lei orgânica da magistratura. Ou seja, algumas das principais normas do Judiciário existem antes mesmo da Constituição de 1988.
"O Supremo, ao invés de resolver aplicando a Constituição, faz o quê? Não segue a legislação, que é inconstitucional, não segue a Constituição, começa a dar decisões a partir do seu próprio regimento e vai criando um sistema de precedentes que, na verdade, não tem uma racionalidade interna. Ele vai criando precedentes a partir de casos em que eles entendem que precisam resolver questões e disputas políticas em um determinado momento. E agora a gente chegou no momento em que isso deu um curto-circuito."
Ao citar os inquéritos das fake news, Zapater reforça que Moraes não é o problema, mas o sintoma de algo que já se desenhava muito antes, em um processo que possivelmente está passando pelo seu auge.
A professora da Unifesp conclui que o Judiciário deveria ser técnico, baseado na lei, e que o Supremo, seu órgão máximo, não deveria seguir a opinião pública, mas salvaguardar a Constituição.
"A perda dessa baliza constitucional é o que dá o resultado do que a gente assistiu hoje nessa sessão, que é algo de muito grave e muito lamentável."
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