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Disputa na ALERJ será ainda mais violenta, afirma à Sputnik deputada eleita Luciana Boiteux

© Reprodução / Redes sociaisLuciana Boiteux foi eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro nas eleições de 2026
Luciana Boiteux foi eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro nas eleições de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 15.10.2026
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A partir de 1º de fevereiro de 2027, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) exigirá um mandato ainda mais "militante" de parlamentares mulheres da esquerda, afirmou a deputada estadual eleita Luciana Boiteux (Psol).
Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, ela destacou que a bancada de seu partido terá maioria feminina, porém será minoritária em um ambiente dominado por homens da extrema-direta e impregnado de machismo e conservadorismo.

"Essa disputa na ALERJ é uma disputa ainda mais violenta, porque a gente sabe que a extrema-direita, como aconteceu em anos anteriores, tem por hábito, tem por política o ataque às mulheres. Será um desafio ainda maior nessa legislatura termos uma bancada com mais mulheres. Sem dúvida alguma, o desafio para o próximo período é o de uma extrema-direita que cresceu, que ganhou espaço em relação ao centro e a uma direita mais tradicional."

O Psol elegeu cinco parlamentares, sendo três mulheres, em um universo de 16 mulheres (22,9%) e 54 homens (77,1%). As deputadas reeleitas Renata Sousa e Dani Monteiro serão as companheiras de partido de Boiteux no parlamento fluminense pelos próximos quatro anos.
A Casa legislativa terá 70% das 70 cadeiras ocupadas por parlamentares de partidos que se intitulam de direita, um aumento em relação às eleições de 2022 (67,1%). A ala da esquerda cresceu de 18,5% para 21,4%, a de centro-esquerda se manteve com 5,7% e a de centro-direita recuou de 8,6% para 2,9%.
Maior bancada para a próxima legislatura, o PL, partido do governador eleito, Douglas Ruas, ganhou mais quatro parlamentares, somando 21 do total das vagas. O PT (9) e o PSD (9) também aumentaram o número de cadeiras, ficando logo atrás. O PP aumentou de quatro para cinco deputados e o Republicanos manteve três cadeiras. O Solidariedade conseguiu duas cadeiras; PSB, MDB e PDT mantiveram dois deputados cada; PSD e Agir mantiveram um cada; e PSDB, PRD, Novo e Democracia Cristã ganharam um deputado cada.
Ao afirmar que as notícias sobre a ALERJ têm ocupado mais páginas policiais do que políticas há alguns anos, Boiteux destacou que pelos próximos quatro anos terá como missão lutar por investigações e responsabilizações de políticos ligados ao crime organizado:

"É um desafio também estar atuando em uma Casa legislativa em que a tônica tem sido os interesses pessoais e, segundo relatado também, […] essa promiscuidade com o crime organizado. Então, temos esse desafio de enfrentar não só a extrema-direita como ideologia — […] é uma extrema-direita que articula em uma perspectiva, também, de relação com milícias, com crime organizado."

Principais pautas

Boiteux foi eleita com cerca de 40 mil votos, 0,51% dos votos válidos no estado, tendo como principais bandeiras direitos das mulheres, investimento em educação pública inclusiva, água como direito e inclusão da cannabis medicinal no sistema público de saúde.
Prestes a completar 20 anos como professora de direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a futura deputada refletiu que, embora o mandato que ocupará em breve seja o primeiro completo, após experiência de dois anos como vereadora (2023–2024), a luta política e atividade acadêmica sempre caminharam juntas:

"Minha carreira política está totalmente ligada às minhas pautas e à minha militância, desde a militância feminista, em que estou também há muito tempo. Nessa luta feminista em especial, além de uma mobilização mais geral, a luta contra a violência de gênero e pela legalização do aborto no Brasil se interseccionam diretamente com a minha profissão, como professora, nas minhas pesquisas."

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Na esfera estadual, as frentes trabalhadas no âmbito municipal se unirão a outras, mais amplas, como a questão da violência de Estado e o hiperencarceramento.

"Sabemos que o estado do Rio de Janeiro tem uma população bastante alta, tem um sistema penitenciário com muitas violações de direitos humanos. Então a gente quer aprofundar essa pauta, quer seguir nessa luta feminista, por uma fiscalização in loco das políticas públicas dirigidas a mulheres."

Valorização da educação pública e dos servidores, e mais concursos

A luta por educação pública digna também será incrementada no próximo mandato, acrescentou a professora, que defendeu mais concursos públicos e melhoria dos planos de carreira e das condições de trabalho dos servidores da esfera estadual.
"Defender plano de carreira e efetivação do piso nacional para os professores, a educação inclusiva e o acompanhamento e apoio às mães de crianças neuroatípicas, […] a gente tocou no município e quer seguir tocando, porque a gente entende que a educação é a chave para o futuro."
Pauta nova na campanha, os direitos dos animais ganharão enfoque coletivo na disputa da política pública, afirmou Boiteux. Ela criticou alguns políticos que "vão tirar foto com os bichinhos", mas se utilizam do cargo para angariar votos com serviços como castração, por exemplo. "A gente quer lutar por essa pauta de proteção animal à esquerda, nesse sentido de uma política pública estatal que chegue a quem precisa e possa dar conta desse desafio."

Reestatização da CEDAE

Outra pauta com abrangência estadual é a reestatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE). Crítica da privatização da companhia, realizada no ano passado pelo então governador, Cláudio Castro, a futura deputada afirmou que água é direito e não mercadoria, logo o abastecimento precisa voltar a ser público e sem fins lucrativos.

"O serviço público de qualidade precisa ser efetivamente garantido, e a privatização é algo que não traz bons resultados, além de ser mais um tipo de desvio do fundo público para a iniciativa privada. Água é direito, não é mercadoria. Queremos reestatizar a CEDAE e garantir o mínimo vital da água, proposto em projeto de lei de nossa autoria", declarou.

A reestatização também pode ocorrer por questionamentos jurídicos sobre o próprio processo de privatização, envolto em irregularidades, argumentou Boiteux:

"Isso envolve percalços jurídicos e outras questões, mas que vão ser vistas ao longo da luta, porque tem um discurso que é paralisante que diz assim: 'Agora que privatizou, nunca mais'. A reestatização depende de vontade política, e o jurídico está aí para servir à vontade política. […] é uma luta que tem que ser articulada a partir de uma maioria parlamentar, mas também de uma mobilização da sociedade."

Mobilizar e fiscalizar

Mais do que legislar, o papel crucial da esquerda será o de mobilizar a população e fiscalizar políticas e orçamento públicos, defendeu Boiteux. Devido à dificuldade de avançar em pautas progressistas, com o avanço da direita, parlamentares da esquerda devem priorizar a atuação como mobilizadores, supervisores do Executivo e do Legislativo:

"Pretendo fazer um mandato que seja mobilizador, canalizador das lutas das ruas, das lutas da esquerda para o parlamento e para fora do parlamento. E, nesse sentido, essa mobilização é o que a gente entende que pode, eventualmente, ser a força política motriz que nos permitirá ampliar direitos e eventualmente aprovar legislações", defendeu. "Destaco aqui a fiscalização das políticas públicas de educação, dos direitos das mulheres, da causa animal, do sistema penitenciário, dos direitos humanos."

Mandato feito nas ruas

Nesse contato com a base e o eleitorado, ela citou que, assim como fez quando foi vereadora, pretende manter diálogo permanente com sindicatos, movimentos sociais e coletivos de luta.
"Um exemplo: fizemos algumas atividades na Câmara Municipal quando houve greve dos técnicos da educação, dos servidores das universidades federais, ainda que não fosse propriamente uma pauta municipal. A gente atuou e colocou o mandato à disposição […]. Vai ser um mandato militante acima de tudo, porque é uma perspectiva de mobilização e fortalecimento da luta da classe trabalhadora, uma luta em que a gente consiga dar conta dos desafios ainda maiores nesse período, porque a solução é a conscientização da classe trabalhadora e da população que utiliza esse serviço."

Disputa também nas redes sociais

As eleições de 2026 também evidenciaram que a disputa política ocorre cada vez mais nas redes sociais, hoje instrumentalizadas pela lógica da direita. O desafio, pontuou, é que a esquerda ocupe esses espaços para atender à lógica da mobilização popular.

"A extrema-direita instrumentaliza as redes sociais para o discurso do ódio, para a violência, para esse tipo de política que é uma política de fomentar o desencanto, fomentar a frustração, para vender uma solução que é uma solução que se coloca a partir da lógica da direita. É uma grande fake news."

A deputada também salientou que o Estado precisa acabar com o controle exclusivamente internacional das redes sociais, que, segundo ela, gera lucros com a eleição de maneira ilegal e irresponsável, remetendo os dividendos para fora do Brasil.
"Todo o controle sobre as redes, em especial a partir dos Estados Unidos e do governo [Donald] Trump, está nos mostrando também a cautela que temos que ter. E uma disputa de regulamentação democrática dessas redes, pois não deixa de ser um serviço público, que não pode ser manipulado, como a gente está verificando", avaliou, destacando que o fortalecimento das mídias alternativas é outra frente que permitirá avançar na democratização da comunicação nas redes.
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