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Como o sonho nacionalista de Traoré se realiza com o refinamento próprio do ouro de Burkina Faso?

© Foto / Stanislav Krasilnikov / RIA NovostiO presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, na chegada ao Kremlin
O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, na chegada ao Kremlin - Sputnik Brasil, 1920, 16.10.2026
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A estratégia nacionalista de Ibrahim Traoré: o que significa para Burkina Faso refinar o próprio ouro em vez de exportar a matéria-prima bruta?
"Seja ouro, manganês, cobre, zinco, seja qualquer outro metal, nossa ambição já não é ser apenas um país que extrai recursos e envia matérias-primas ao exterior", declarou o presidente do país africano ao falar da Raffinor-BF, mineradora nacional inaugurada no fim de setembro.
De acordo com Sofonias Lopes Jó, pesquisador do Grupo de Estudos em Capacidade Estatal, Segurança e Defesa (Gecap), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a fala do líder burquinense faz alusão à vantagem competitiva que seu país obterá com a iniciativa do refino.
A tendência, segundo o analista, é uma crescente entre os países africanos, que tentam promover agendas econômicas nacionalistas e se afastam, pontualmente, de relações predatórias com ex-colônias. No caso de Burkina Faso, um trabalho já vem ocorrendo por Traoré para se afastar da França.

"Alguns países já tiveram no século passado as refinarias, como o caso da África do Sul, e outros países estão tendo agora, como Burkina Faso. Só na costa ocidental, dentro da Aliança dos Estados de Sahel [AES, composta também por Níger e Mali], já tem dois países que têm suas próprias refinarias e fazem isso internamente", explica.

No caso de Ouagadougou, o governo de Traoré busca implementar uma espécie de joint venture, ou seja, não deixar que empresas estrangeiras tenham o controle de toda a cadeia de valor do refino do ouro.
Burkina Faso é dona da quarta maior produção de ouro do continente africano. Segundo Zacarias Chambe, professor de história da África do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), Traoré afirmou que a capacidade de processamento chegaria a mais ou menos 164 toneladas por ano na primeira fase das operações e se expandiria até 515 toneladas quando a refinaria estivesse estabelecida.
Atualmente, segundo o analista, 94% da produção burquinense é exportada de forma bruta. Para descrever o momento atual, ele usa a frase atribuída ao ministro Yacouba Zabré: "Nosso ouro não será mais usado para criar valor agregado para outros, enquanto o nosso povo permanece necessitado".
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Lopes Jó recorda que Traoré chegou ao governo prometendo retomar o controle de áreas perdidas por Burkina Faso para forças extremistas. O trabalho tem sido exitoso e o país apresenta projeção de crescimento econômico de 4% ao ano, conforme o entrevistado.
O refino interno também permite que a nação africana crie sua própria reserva nacional de ouro e impulsione o crescimento não só regional, mas global de Ouagadougou.
Por outro lado, o professor da UFSM salienta que, embora o ouro represente um ativo expressivo em termos econômicos, não há como afirmar que a economia vai circular de forma mais ampla. Um dos problemas apontados é a ausência de Burkina Faso em articulações como a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), embora negocie com os países da AES.
Para reverter esse cenário, Chambe sugere que o país africano alargue a base produtiva e faça com que os recursos provenientes do ouro voltem para a agricultura e para a produção de tecnologia, investindo também na formação técnica local.
Atualmente, o país conta com parceiros importantes, como China e Rússia, que investem internamente e ajudam Burkina Faso a obter tecnologia para a indústria de mineração. A partir daí, com investimentos em saúde, educação e agricultura, o professor da USP acredita que o país possa se desenvolver.

"Só assim é que pode-se garantir um valor agregado e que possa traduzir-se em emprego."

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