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Projeto Meredian: o que está por trás da iniciativa dos EUA que quer entender o futuro da guerra
Projeto Meredian: o que está por trás da iniciativa dos EUA que quer entender o futuro da guerra
Sputnik Brasil
Os Estados Unidos querem entender como serão as guerras do futuro e quais tecnologias militares o país precisará desenvolver para manter seu poderio militar... 16.10.2026, Sputnik Brasil
2026-10-16T20:00-0300
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Lidar com dados e metadados não é uma novidade para o complexo militar-industrial norte-americano. Atualmente, segundo Ghaio Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), podemos considerar que o Pentágono "terceirizou a própria construção da doutrina de defesa para o Vale do Silício".Conforme os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o mundo já entende que os processos para a organização logística da guerra e para definição de ações táticas já são baseados em dados. Washington, evidentemente, vem aprofundando-se nisso. Exemplos que descrevem a determinação da tecnologia e dados no campo militar não faltam. Sérgio Amadeu, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), recorda ataques feitos ao Hezbollah e contra militantes do Hamas a partir de geodados de comunicação obtidos a partir de redes sociais, ou seja, de big techs. O especialista cita, também, uma frase proferida por Michael Hayden, ex-diretor da CIA: "nós matamos com base em metadados". A fala foi dita há mais de 10 anos, o que representa o quanto estes indicadores digitais são indispensáveis para a guerra moderna. O Projeto Meredian, apresentado pelo secretário de Guerra norte-americano, Peter Heghseth no dia 30 de setembro vai contar com o que ele chamou de "as melhores mentes dos EUA" para estudar o futuro da guerra. "Estamos aproveitando uma fonte única de vantagem americana, uma que nossos adversários não têm: nossos inovadores, nossas grandes lideranças e nossos tecnólogos", afirmo o chefe do Pentágono. A iniciativa marca a reaproximação de Elon Musk ao governo do presidente Donald Trump, após desentendimentos afastarem o bilionário dono da Tesla e do X da Casa Branca. Além dele, Palmer Luckey, fundador da Anduril, empresa de tecnologia de defesa focada em sistemas autônomos e inteligência artificial (IA) e o Newt Gingrich, republicano que presidiu a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, vão copresidir o projeto. O pesquisador ressalta, ainda, que a Anduril é uma das empresas subsidiárias do grande guarda-chuva de empresas de defesa de Peter Thiel, empresário que, segundo ele, "faz o trabalho sujo". Legalmente, os Estados Unidos não podem monitorar a população civil e utilizar dados através do seu aparato militar. Dessa forma, o que é feito: eles compram dados de empresas civis que capturam, coletam informações com funções comerciais e "usam e abusam de uma infraestrutura e de zonas cinzentas dos marcos legais" para comprar esses dados e monitorar a população, explica Nicodemos.O Meridian, conforme acrescenta Nicodemos, coloca em evidência uma mudança importante na relação entre tecnologia, poder militar e controle democrático nos Estados Unidos. Se antes havia uma preocupação de que os militares, enquanto uma organização tecnocrática, ocupassem um patamar de poder capaz de limitar o controle democrático e institucional sobre o Pentágono, hoje essa preocupação se amplia para incluir as grandes empresas privadas de tecnologia.Tais empresas controlam infraestruturas estratégicas, como sistemas de satélites, desenvolvem inteligências artificiais generativas e coletam e prospectam grandes volumes de dados para comercializá-los, seja por meio de anúncios e publicidade digital, seja pelo direcionamento de conteúdos e comportamentos. Com isso, elas deixam de ser apenas fornecedoras de serviços tecnológicos e passam a exercer influência sobre a circulação de informações, a produção de conhecimento e a própria tomada de decisões estratégicas.Amadeu destaca que a iniciativa que aproxima governos e empresários do Vale do Silício não é novidade. Esses "empresários ocupam muitas vezes conselhos de estratégia e fazem parte de operações na ponta tática, como ocorreu no sequestro do [Nicolás] Maduro".Escudo das Américas: guarda-chuva de vigilânciaNicodemos elucida que embora, à primeira vista, o Escudo das Américas pareça uma iniciativa militar tradicional, trata-se de um projeto de colonialismo digital. O analista compara o antigo conceito de "guarda-chuva nuclear", em que os Estados Unidos ofereciam proteção nuclear a países aliados por meio de acordos de segurança, à proposta de um "guarda-chuva tecnológico" para as Américas. Segundo ele, a iniciativa permitiria ampliar a vigilância sobre esses países por meio do compartilhamento de dados e do uso de tecnologias, criando condições para que governos aliados se mantenham no poder, utilizem operações de segurança para obter projeção política e até favoreçam a inserção de candidatos ainda não eleitos no cenário político.Ao fim e ao cabo, Nicodemos trata o Escudo das Américas como uma espécie de panóptico, onde as diretrizes podem abrir precedentes para monitorar comunicações num sentido muito mais amplo e abrangente, "que permite vigiar e mapear a movimentação de tropas militares na região, de políticos latino-americanos que são críticos ao governo dos Estados Unidos. Se permite, de certa forma, dar a capacidade de inteligência a esse processamento de dados que os Estados Unidos desenvolveu para si, a serviço desses governos aliados".
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Projeto Meredian: o que está por trás da iniciativa dos EUA que quer entender o futuro da guerra
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Os Estados Unidos querem entender como serão as guerras do futuro e quais tecnologias militares o país precisará desenvolver para manter seu poderio militar. Para isso, lançaram o Projeto Meredian.
Lidar com dados e metadados não é uma novidade para o complexo militar-industrial norte-americano. Atualmente, segundo Ghaio Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), podemos considerar que o Pentágono "terceirizou a própria construção da doutrina de defesa para o Vale do Silício".
Conforme os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o mundo já entende que os processos para a organização logística da guerra e para definição de ações táticas já são baseados em dados. Washington, evidentemente, vem aprofundando-se nisso.
Exemplos que descrevem a
determinação da tecnologia e dados no campo militar não faltam.
Sérgio Amadeu, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), recorda ataques feitos ao Hezbollah e contra militantes do Hamas a partir de geodados de comunicação obtidos a partir de redes sociais, ou seja, de big techs.
O especialista cita, também, uma frase proferida por Michael Hayden, ex-diretor da CIA: "nós matamos com base em metadados". A fala foi dita há mais de 10 anos, o que representa o quanto estes indicadores digitais são indispensáveis para a guerra moderna.
O Projeto Meredian, apresentado pelo secretário de Guerra norte-americano, Peter Heghseth no dia 30 de setembro vai contar com o que ele chamou de "as melhores mentes dos EUA" para estudar o futuro da guerra.
"Estamos aproveitando uma fonte única de vantagem americana, uma que nossos adversários não têm: nossos inovadores, nossas grandes lideranças e nossos tecnólogos", afirmo o chefe do Pentágono.
A iniciativa marca a reaproximação de Elon Musk ao governo do presidente Donald Trump, após desentendimentos afastarem o bilionário dono da Tesla e do X da Casa Branca. Além dele, Palmer Luckey, fundador da Anduril, empresa de tecnologia de defesa focada em sistemas autônomos e inteligência artificial (IA) e o Newt Gingrich, republicano que presidiu a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, vão copresidir o projeto.
"Quando a gente pensa nessas empresas, não estamos mais falando de infraestrutura civil ou de uma infraestrutura sensível, estratégica, que precisa ser protegida, mas sim de empresas que podem construir o que a gente chamaria de guerra do futuro, entendendo as várias camadas de uma guerra híbrida que vai tanto utilizar da tecnologia de informação, quanto dos mecanismos de guerra tradicional", analisa Nicodemos.
O pesquisador ressalta, ainda, que a Anduril é uma das empresas subsidiárias do grande guarda-chuva de empresas de defesa de Peter Thiel, empresário que, segundo ele, "faz o trabalho sujo".
Legalmente, os Estados Unidos não podem monitorar a população civil e utilizar dados através do seu aparato militar. Dessa forma, o que é feito: eles compram dados de empresas civis que capturam, coletam informações com funções comerciais e "usam e abusam de uma infraestrutura e de zonas cinzentas dos marcos legais" para comprar esses dados e monitorar a população, explica Nicodemos.
O Meridian, conforme acrescenta Nicodemos, coloca em evidência uma mudança importante na relação entre tecnologia, poder militar e controle democrático nos Estados Unidos. Se antes havia uma preocupação de que os militares, enquanto uma organização tecnocrática, ocupassem um patamar de poder capaz de limitar o controle democrático e institucional sobre o Pentágono, hoje essa preocupação se amplia para incluir as grandes empresas privadas de tecnologia.
Tais empresas controlam infraestruturas estratégicas, como sistemas de satélites, desenvolvem inteligências artificiais generativas e coletam e prospectam grandes volumes de dados para comercializá-los, seja por meio de anúncios e publicidade digital, seja pelo direcionamento de conteúdos e comportamentos. Com isso, elas deixam de ser apenas fornecedoras de serviços tecnológicos e
passam a exercer influência sobre a circulação de informações, a produção de conhecimento e a própria tomada de decisões estratégicas.
Amadeu destaca que a iniciativa que aproxima governos e empresários do Vale do Silício não é novidade. Esses "empresários ocupam muitas vezes conselhos de estratégia e fazem parte de operações na ponta tática, como ocorreu no sequestro do [Nicolás] Maduro".
Escudo das Américas: guarda-chuva de vigilância
Nicodemos elucida que embora, à primeira vista, o Escudo das Américas pareça uma iniciativa militar tradicional, trata-se de um projeto de
colonialismo digital.
"Você tem uma justificativa de defesa das populações civis de grupos de grupos de crime organizado, mas na prática, a arquitetura que a gente vê sendo projetada e que agora a gente consegue discernir com mais clareza com o anúncio do Projeto Meridian, está muito mais relacionado com a ideia de inserir a América Latina num guarda-chuva tecnológico de dados".
O analista compara o antigo conceito de "guarda-chuva nuclear", em que os Estados Unidos ofereciam proteção nuclear a países aliados por meio de acordos de segurança, à proposta de um "guarda-chuva tecnológico" para as Américas.
Segundo ele, a iniciativa permitiria
ampliar a vigilância sobre esses países por meio do compartilhamento de dados e do uso de tecnologias, criando condições para que governos aliados se mantenham no poder, utilizem operações de segurança para obter projeção política e até favoreçam a inserção de candidatos ainda
não eleitos no cenário político.Ao fim e ao cabo, Nicodemos trata o Escudo das Américas como uma
espécie de panóptico, onde as diretrizes podem abrir precedentes para monitorar comunicações num sentido muito mais amplo e abrangente, "que permite
vigiar e mapear a movimentação de tropas militares na região, de políticos latino-americanos que são
críticos ao governo dos Estados Unidos. Se permite, de certa forma, dar a capacidade de inteligência a esse processamento de dados que os Estados Unidos desenvolveu para si, a serviço desses governos aliados".
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