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Estabilidade x novas tensões: tropas do Paquistão na Arábia Saudita podem azedar relações com o Irã?
Estabilidade x novas tensões: tropas do Paquistão na Arábia Saudita podem azedar relações com o Irã?
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Os ataques dos houthis do Iêmen contra o território saudita se intensificaram nas últimas semanas. Em meio à escalada das tensões no Oriente Médio e à... 21.10.2026, Sputnik Brasil
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Em mais um capítulo da desestabilização regional em cadeia após as intervenções de Estados Unidos e Israel no Oriente Médio, o avanço militar do movimento Ansar Allah, também conhecido como movimento houthi, sobre o território iemenita têm ampliado a instabilidade em todo o entorno do mar Vermelho. A região abriga o estreito de Bab al-Mandab, uma das principais rotas marítimas para o transporte de petróleo e gás. Nesse cenário, a Arábia Saudita está entre os países mais afetados pelas ações do grupo, aliado do Irã, o que levou Riad a reagir.Para enfrentar a expansão do grupo, o país lidera uma coalizão de apoio às chamadas forças governamentais do Iêmen. Nesse contexto, passou a sofrer ataques de mísseis e drones dos houthis contra seu próprio território. Na última semana, um bombardeio contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid provocou a morte de 13 pessoas, enquanto outra ação militar atingiu a sede da gigante petrolífera Saudi Aramco. Diante disso, crescem os temores de uma nova frente de conflito amplo no Oriente Médio.É nesse contexto que a própria Arábia Saudita assinou, em agosto, o Acordo de Meca, que prevê cooperação militar com o Paquistão e a Turquia para defender o território saudita dos ataques houthis, além de reduzir a dependência no setor sobre os Estados Unidos. No início do mês, o governo paquistanês chegou a confirmar o envio de um número "importante" de tropas para a região.A mestranda do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e membro do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Katarina Vinagre Braga explica à Sputnik Brasil se a medida pode prejudicar as relações entre o Paquistão e o Irã, países que compartilham uma longa fronteira e que, nos últimos anos, se reaproximaram após décadas de disputas.A especialista lembra, inclusive, que Islamabad atua como um dos mediadores das conversas entre os Estados Unidos e o Irã, papel importante que contribuiu para o acordo de paz assinado em junho de 2026, apesar de o entendimento ter sido rompido semanas depois.Países do golfo Pérsico buscam novas formas de proteçãoEm meio à ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã, países do Oriente Médio que abrigam bases norte-americanas passaram a ser alvo de retaliações, principalmente na região do golfo Pérsico, que inclui a Arábia Saudita. Diante dos impactos e dos riscos de serem arrastados para um conflito, os países da região passaram a buscar "outras formas de proteção, já que perceberam não poder contar exclusivamente com o apoio de Washington", afirma a mestranda.Segundo ela, é nesse cenário que surge o paradoxo: quanto mais países fortalecem seus compromissos de defesa coletiva, maior é a pressão para que participem de ações nos quais não queriam se envolver. "O pacto pode funcionar como um instrumento de reorganização das relações de poder. Mas, por enquanto, a integração entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia não vai muito além do mecanismo de defesa", afirma.'Tarefa indigesta'Já o estudioso de Ásia, geopolítica, teoria militar e defesa, articulista do portal História Islâmica e idealizador do canal Vento Leste, Ali Ramos, afirma à Sputnik Brasil que, até o momento, o Paquistão enviou apenas brigadas da Força Aérea para apoiar a defesa da Arábia Saudita. Além disso, o especialista não vê muitas outras possibilidades de cooperação militar em território saudita, já que considera que "todos os atores nesse tabuleiro sabem que é uma tarefa indigesta".Além disso, o especialista pontua que nenhum país do golfo Pérsico, com a exceção do Irã, possui um Exército funcional. Na Arábia Saudita, por exemplo, Ramos afirma que as brigadas são divididas por clãs e que os oficiais são nomeados por compadrismo, enquanto os pilotos de caça são príncipes. Já os houthis, apesar de serem tratados como guerrilheiros, contam com forças regulares "melhores" do que as de todos os grupos militares da região.Mesmo assim, o estudioso acredita que as forças paquistanesas não vão se empenhar em uma guerra terrestre contra o movimento iemenita, limitando-se a participar de alguns bombardeios. "As forças dos houthis estão muito bem entrincheiradas. Em apenas três dias após a queda da região oeste do país e o controle terrestre de Bab al-Mandab, eles já tinham cavado mais de 60 quilômetros de trincheiras".Houthis podem tomar todo o território do Iêmen?Por fim, o especialista avalia que os houthis não devem tomar a totalidade do território iemenita. Para Ramos, o cenário mais provável seria um acordo com as lideranças tribais para estabelecer uma espécie de governo binacional, com autonomia para as regiões Norte e Sul, o que exigiria menos esforço militar do que uma guerra prolongada.Segundo ele, o grupo iemenita já degradou a logística das Forças Armadas do Iêmen, comprometendo eixos rodoviários de leste a oeste, além de ter fechado o mar Vermelho e atacado bases sauditas no Sul e no Sudoeste. Nesse contexto, Ramos considera que a negociação com as lideranças tribais, como já ocorre em Marib, seria um caminho mais viável do que prolongar os combates por décadas.Questionado sobre o apoio externo aos houthis para além do Irã, o estudioso afirma que o movimento mantém relações de cooperação com outros países.Para o articulista, a cobertura midiática ocidental tende a simplificar as disputas geopolíticas ao apresentar os conflitos como uma oposição entre "malvados" e "bonzinhos", sem considerar a multiplicidade de interesses e alianças envolvidos. "A mídia ocidental como um todo gosta de simplificar, mas nunca é bem assim", conclui.
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Estabilidade x novas tensões: tropas do Paquistão na Arábia Saudita podem azedar relações com o Irã?
14:32 21.10.2026 (atualizado: 16:15 21.10.2026) Especiais
Os ataques dos houthis do Iêmen contra o território saudita se intensificaram nas últimas semanas. Em meio à escalada das tensões no Oriente Médio e à tentativa de reduzir a dependência dos Estados Unidos na área de defesa, Riad ampliou a cooperação militar com o Paquistão por meio do Acordo de Meca, que também inclui a Turquia.
Em mais um
capítulo da desestabilização regional em cadeia após as intervenções de Estados Unidos e Israel no Oriente Médio, o
avanço militar do movimento Ansar Allah, também conhecido como movimento houthi, sobre o território iemenita têm ampliado a instabilidade em todo o entorno do mar Vermelho. A região abriga o estreito de Bab al-Mandab, uma das
principais rotas marítimas para o transporte de petróleo e gás. Nesse cenário, a Arábia Saudita está entre os países mais afetados pelas ações do grupo, aliado do Irã, o que levou Riad a reagir.
Para enfrentar a expansão do grupo, o país lidera uma coalizão de
apoio às chamadas forças governamentais do Iêmen. Nesse contexto, passou a sofrer ataques de mísseis e drones dos houthis contra seu próprio território. Na última semana, um bombardeio contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid
provocou a morte de 13 pessoas, enquanto outra ação militar atingiu a sede da gigante petrolífera Saudi Aramco. Diante disso, crescem os
temores de uma nova frente de conflito amplo no Oriente Médio.
É nesse contexto que a própria Arábia Saudita assinou, em agosto, o
Acordo de Meca, que prevê cooperação militar com o Paquistão e a Turquia para defender o território saudita dos ataques houthis, além de
reduzir a dependência no setor sobre os Estados Unidos. No início do mês, o governo paquistanês chegou a confirmar o envio de um número "importante" de tropas para a região.
A mestranda do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e membro do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Katarina Vinagre Braga explica à Sputnik Brasil se a
medida pode prejudicar as relações entre o Paquistão e o Irã, países que compartilham uma longa fronteira e que, nos últimos anos, se
reaproximaram após décadas de disputas.
"Acredito que o Paquistão busca conciliar estes objetivos: manter relações diplomáticas estáveis com o Irã, limitando sua atuação à defesa do território saudita e evitando operações ofensivas contra os houthis. O ponto central é que o país tem incentivos para apoiar Riad, com uma parceria militar de décadas, interesses econômicos e, agora, um compromisso com a defesa coletiva", afirma.
A especialista lembra, inclusive, que Islamabad atua como um dos mediadores das conversas entre os Estados Unidos e o Irã, papel importante que contribuiu para o acordo de paz assinado em junho de 2026, apesar de o entendimento ter sido rompido semanas depois.
Países do golfo Pérsico buscam novas formas de proteção
Em meio à ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã,
países do Oriente Médio que abrigam
bases norte-americanas passaram a ser alvo de retaliações, principalmente na região do golfo Pérsico, que inclui a Arábia Saudita. Diante dos impactos e dos riscos de serem arrastados para um conflito, os países da região passaram a buscar "outras formas de proteção, já que perceberam não poder contar exclusivamente com o apoio de Washington", afirma a mestranda.
"Então, a participação de uma potência militar como o Paquistão, que tem um arsenal nuclear, acrescenta uma nova dimensão aos cálculos de segurança regional. Ao mesmo tempo, a escalada de um conflito no Oriente Médio pode colocar Islamabad diante da necessidade de conciliar seus compromissos defensivos com a Arábia Saudita e a estabilidade das relações com o Irã. Com isso, essa cooperação pode produzir maior dissuasão, mas também ampliar o alcance geográfico de uma eventual crise", argumenta.
Segundo ela, é nesse cenário que surge o paradoxo: quanto mais países fortalecem seus compromissos de defesa coletiva, maior é a pressão para que participem de ações nos quais não queriam se envolver. "O pacto pode funcionar como um instrumento de reorganização das relações de poder. Mas, por enquanto, a integração entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia não vai muito além do mecanismo de defesa", afirma.
Já o estudioso de Ásia, geopolítica, teoria militar e defesa, articulista do portal História Islâmica e idealizador do canal Vento Leste, Ali Ramos, afirma à Sputnik Brasil que, até o momento, o Paquistão enviou
apenas brigadas da Força Aérea para apoiar a defesa da Arábia Saudita. Além disso, o especialista não vê muitas outras possibilidades de cooperação militar em território saudita, já que considera que "todos os atores nesse tabuleiro sabem que é uma tarefa indigesta".
"O Iêmen é um país gigantesco, coberto por montanhas, e todo esforço militar é composto por um triângulo formado por governo, povo e Forças Armadas. Os houthis são, hoje, a única força beligerante no Iêmen que conta com apoio popular para se cacifar. E aqui também há uma verdade que a maioria não tem coragem de admitir: alianças militares, seja o Pacto de Meca, seja a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), servem apenas para que potências mais fortes façam com que potências mais fracas as defendam. E não é o caso de a Arábia Saudita ser a potência forte no âmbito militar", enfatiza.
Além disso, o especialista pontua que nenhum país do golfo Pérsico, com a exceção do Irã, possui um Exército funcional. Na Arábia Saudita, por exemplo, Ramos afirma que as brigadas são divididas por clãs e que os oficiais são nomeados por compadrismo, enquanto os pilotos de caça são príncipes. Já os houthis, apesar de serem tratados como guerrilheiros, contam com forças regulares "melhores" do que as de todos os grupos militares da região.
"Por isso mesmo, a Arábia Saudita está tentando se aproximar da Turquia e do Paquistão. Basicamente, Islamabad tem Forças Armadas robustas e a melhor agência de inteligência do mundo, mas, ao mesmo tempo, não tem recursos econômicos. É nisso que se cria a lógica: o Paquistão fornece o músculo, e a Arábia Saudita, o dinheiro", diz.
Mesmo assim, o estudioso acredita que as forças paquistanesas não vão se empenhar em uma guerra terrestre contra o movimento iemenita,
limitando-se a participar de alguns bombardeios. "As forças dos houthis estão muito bem entrincheiradas. Em apenas três dias após a queda da região oeste do país e o
controle terrestre de Bab al-Mandab, eles já tinham cavado mais de 60 quilômetros de trincheiras".
Houthis podem tomar todo o território do Iêmen?
Por fim, o especialista avalia que os houthis não devem tomar a totalidade do território iemenita. Para Ramos, o cenário mais provável seria um acordo com as lideranças tribais para estabelecer uma espécie de governo binacional, com autonomia para as regiões Norte e Sul, o que exigiria menos esforço militar do que uma guerra prolongada.
Segundo ele, o grupo iemenita já degradou a logística das Forças Armadas do Iêmen, comprometendo eixos rodoviários de leste a oeste, além de ter fechado o mar Vermelho e atacado bases sauditas no Sul e no Sudoeste. Nesse contexto, Ramos considera que a negociação com as lideranças tribais, como já ocorre em Marib, seria um caminho mais viável do que prolongar os combates por décadas.
Questionado sobre o apoio externo aos houthis para além do Irã, o estudioso afirma que o movimento mantém relações de cooperação com outros países.
Para o articulista, a cobertura midiática ocidental tende a simplificar as disputas geopolíticas ao apresentar os conflitos como uma oposição entre "malvados" e "bonzinhos", sem considerar a multiplicidade de interesses e alianças envolvidos. "A mídia ocidental como um todo gosta de simplificar, mas nunca é bem assim", conclui.
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