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Herança Maldita no Afeganistão: 20 anos de guerra dos EUA e o retorno do Talibã

© AP Photo / Siddiqullah AlizaiMembros armados do Talibã desfilam em um veículo blindado durante as comemorações do quinto aniversário da retirada dos EUA do Afeganistão e do retorno do Talibã ao poder, em Cabul, Afeganistão, 15 de agosto de 2026
Membros armados do Talibã desfilam em um veículo blindado durante as comemorações do quinto aniversário da retirada dos EUA do Afeganistão e do retorno do Talibã ao poder, em Cabul, Afeganistão, 15 de agosto de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 28.10.2026
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Em 2001, os EUA invadiram o Afeganistão e derrubaram o regime do Talibã, em resposta aos atentados de 11 de setembro, organizados pela Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países), que tinha no país seu principal refúgio.
Vinte anos depois, e trilhões de dólares gastos na guerra ao longo das duas décadas, os estadunidenses foram embora e o Talibã voltou ao poder. O que ficou dessa intervenção? O que os Estados Unidos conseguiram alcançar? O legado estadunidense no país e o custo humano de duas décadas de conflito foram temas do podcast da Sputnik Brasil Mundioka desta quarta-feira (28).
Mundioka #997. - Sputnik Brasil, 1920, 28.10.2026
Mundioka
Afeganistão: a herança de duas décadas de ocupação norte-americana
Uma das entrevistadas, a doutoranda em relações internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP) e professora de relações internacionais na Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (ESAMC) Laís Cavallin lembrou que o Talibã nunca deixou de existir. O grupo apenas recuou para o vizinho Paquistão e zonas rurais do Afeganistão.
Para ela, o grande erro estratégico da intervenção dos EUA foi concentrar os esforços na capital, Cabul, e grandes províncias, ignorando as regiões rurais, que concentram mais de 70% da população.

"Ao longo dessas duas décadas, o Talibã se reorganizou como força de insurgência contra a ocupação militar e assim que as tropas ocidentais se retiraram, em 2021, o grupo reconquistou o país, tomou Cabul em menos de duas semanas e hoje a gente está vendo a história sendo reconstruída."

Mulheres usadas como cobaias

Além de deixar a infraestrutura do país destruída e uma crise econômica sem precedentes, e miséria, a violência contra as mulheres também foi uma herança nefasta, frisou Cavallin.
Como modus operandi das intervenções, os EUA utilizaram "uma receita pronta de reconstrução" sem considerar especificidades locais. Uma delas foi a imposição às mulheres do país de uma série de programas com visão ocidental, que não tiveram adesão.

"Instrumentalizando as mulheres afegãs sob esses slogans de libertação e o herói branco, para salvar essas mulheres das mãos dos bárbaros terroristas", ironizou a professora.

Assim que as tropas estadunidenses foram retiradas do Afeganistão, as mulheres foram deixadas à própria sorte sob o domínio dos mesmos que os EUA denominavam terroristas, e perderam todas as conquistas da época da ocupação, cujas frágeis melhorias seguiram uma lógica assistencialista e imperialista, cujo principal objetivo com a intervenção era abrir mercado.
"E, principalmente, todo o patriarcalismo e o conservadorismo das comunidades afegãs. Então, a cultura afegã, a religião, as tradições, os costumes, eles foram desconsiderados pelos Estados Unidos na hora de pensar nesses programas", ponderou ela.

Guerra Fria

Ela elencou outros legados "malditos", como o aumento do tráfico de drogas e da violência devido ao empoderamento por parte de Washington da Aliança do Norte, grupo armado opositor ao Talibã, cujas lideranças possuíam histórico de massacres civis, de saques, estupros, e destruição da infraestrutura, principalmente durante a guerra civil dos anos 1990.

"O Afeganistão ficou sob intervenção da União Soviética por dez anos e, durante essa intervenção, os EUA financiaram esses senhores da guerra [...] assim que eles conseguiram a retirada da União Soviética, começou uma guerra civil [...] fazendo com que o Talibã surgisse como a possibilidade que a população enxergou como saída pra esse histórico de intervenção e de guerra."

Ela conta que também houve tentativa do governo dos EUA de mobilizar mulheres afegãs para serem agentes secretos:
"Então, eles queriam dar treinamento para essas mulheres, para que elas, dentro das suas comunidades, pudessem coletar informações que fossem importantes para os Estados Unidos receberem e conseguirem desestabilizar guerrilhas, forças contra insurgentes, o próprio Talibã".
O plano fracassou, acrescentou, porque as mulheres "acharam muita hipocrisia e uma contradição muito grande que aqueles que estavam bombardeando e destruindo suas casas e suas famílias quisessem que elas se aliassem a eles", declarou, ao relatar ainda abusos, estupros, que foram feitos, inclusive, por parte dos próprios soldados dos EUA, da Organização do tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Também em entrevista para o Mundioka, o professor de relações internacionais da Unilasalle Marcello Freitas explica que o desfecho evidencia os limites da estratégia americana de impor sua influência por meio da força militar e faz parte de um processo mais amplo de declínio relativo da hegemonia de Washington.

"Quando um gigante como os Estados Unidos cai, é um problema também para quem está perto, e isso tem a ver com a gente aqui no Brasil", alertou ele. "A manutenção dessa máquina militar pelo planeta inteiro, uma coisa inédita na história, se tornou muito cara e insustentável para os Estados Unidos", avaliou.

Da guerra ao terror ao fracasso no Afeganistão

Para o pesquisador, os atentados de 11 de setembro marcaram uma mudança na política externa americana, que passou a priorizar uma atuação mais unilateral sob o argumento do combate ao terrorismo. A invasão do Iraque, em 2003, foi um dos exemplos dessa estratégia.
"Você coloca essa figura do terrorista árabe como um inimigo difuso que pode ser qualquer um e aí você justifica essa nova etapa da política americana que vai se concretizar com a guerra em 2003 do Iraque", afirma.
Freitas apontou a corrupção, a fragilidade das instituições e a dificuldade de compreender a complexidade política e social do país como fatores que comprometeram a reconstrução. A retirada americana, em 2021, durante o governo Joe Biden, e o retorno do Talibã ao poder simbolizaram, na avaliação do professor, o fracasso da intervenção.

"A desastrosa saída do governo americano, da ocupação americana do Afeganistão no período do governo Biden, que inclusive lembra muito a saída dos Estados Unidos de Saigon na Guerra do Vietnã, uma humilhação total, que mostra o quanto esse projeto foi por água abaixo."

O pesquisador também chamou a atenção para o custo humano do conflito. Segundo ele, a população afegã enfrenta consequências profundas, especialmente as mulheres e as minorias religiosas, enquanto a instabilidade favorece a atuação de grupos extremistas.

Quem ganhou com a guerra?

Além dos custos humanos, Freitas questionou os interesses econômicos associados às intervenções militares. Para ele, setores da indústria bélica e empresas contratadas para reconstruir países atingidos pelos conflitos estão entre os beneficiários desse modelo.

"Quem ganhou é quem sempre ganha, os senhores da guerra, a indústria, o complexo industrial militar, mesmo com derrotas e vitórias, permanecem funcionando, gerando muito dinheiro, riqueza e talvez até corrupção", afirmou.

O professor destacou a contradição de investir na destruição e, depois, destinar recursos à reconstrução, enquanto as populações locais permanecem expostas à violência e à precariedade.
Para o pesquisador, o caso demonstra que a superioridade militar não é suficiente para garantir influência política duradoura. A experiência afegã expôs os limites de uma estratégia que buscou transformar outro país pela força, mas terminou sem alcançar os objetivos anunciados.
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