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Operação mais letal do Rio completa 1 ano, mas familiares seguem em busca de respostas
Operação mais letal do Rio completa 1 ano, mas familiares seguem em busca de respostas
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Ministério Público do Rio denunciou policiais por ilegalidades praticadas durante a operação que deixou 122 mortos, sendo cinco agentes de segurança do Estado. 28.10.2026, Sputnik Brasil
2026-10-28T17:00-0300
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Um ano após a megaoperação mais letal da história do Rio de Janeiro, ainda não há evidências da estabilização ou retomada de domínio do território pelas forças de segurança pública. E as dúvidas sobre a atuação policial ainda não foram esclarecidas.Familiares reclamam por não ter acesso aos laudos cadavéricos das vítimas, o que impossibilita, por exemplo, determinar como as mortes aconteceram. Tauã Brito é mãe de um jovem que foi morto naquele dia e conta que o filho já estava rendido.Ela ainda afirma que o esclarecimento das mortes é crucial e que as consequências desse dia refletem em todos os familiares. "Então, assim, não é só mataram e acabou. Não. Deixa sequelas para toda uma família e que isso pode acarretar para o resto de uma vida. Então não é fácil."A Operação Contenção deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Na época, a ação da Secretaria de Segurança Pública foi considerada um sucesso pelo então governador do Rio Cláudio Castro e pelos secretários da Polícia Civil Felipe Curi e da Polícia Militar Marcelo de Menezes.A identificação da maior parte dos mortos como integrantes de facções, somada ao número de 91 fuzis apreendidos e 133 presos motivaram a afirmação da cúpula de segurança pública fluminense.No entanto, informações cruciais para comprovar a proporcionalidade da atuação policial, como a dinâmica das mortes, ainda não foram esclarecidas. Até o momento, o Ministério Público apresentou 12 denúncias contra 18 policiais militares por ilegalidades praticadas durante a operação, envolvendo apropriação de armamento, furto de peças de veículos, invasões de domicílio, constrangimento de moradores, subtração de bens, além de tentativas de obstrução ou desligamento de câmeras corporais.O advogado de direitos humanos Rodrigo Mondego questiona a eficiência da operação policial, já que não houve a prisão de integrantes do primeiro escalão do crime organizado.A ação das polícias civil e militar teve a participação de 2.500 agentes de segurança, com o objetivo inicial de cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV), facção criminosa que exerce o controle daquele território.Os agentes iniciaram a operação na noite do dia 27 de outubro, e a presença se estendeu até o dia seguinte, com registros de intenso tiroteio por mais de dez horas seguidas. Na época, o primeiro balanço oficial informava a morte de 64 pessoas. Mas os próprios moradores e as lideranças comunitárias encontraram os outros corpos em uma região de mata e os colocaram lado a lado na praça São Lucas, na Vila Cruzeiro. O registro desse momento em fotos e vídeos rodou o mundo. Ao todo, foram 122 mortos, sendo cinco policiais militares.Além da letalidade, um ponto em especial chamou a atenção de especialistas em segurança pública: a espetacularização das técnicas usadas pela polícia, como o chamado "Muro do BOPE". Segundo Silvia Ramos, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a tática que encurralou e matou os alvos da polícia ter sido massivamente difundida na imprensa e nas redes sociais foi surpreendente.Menos de um ano depois, o secretário de Polícia Civil Felipe Curi foi eleito deputado federal e o secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes ganhou a disputa para o cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).Para os especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem, as candidaturas foram a única consequência direta dessa operação, como explica o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) Ignácio Cano.Com mais de 30 anos de pesquisa na área de segurança pública, Silvia Ramos explica que o melhor caminho para combater o crime organizado é a desarticulação da cadeia de comando. Para ela, matar pessoas em operações ostensivas não funciona porque elas são substituídas no dia seguinte.A opinião é compartilhada pelo especialista em segurança Ignácio Cano. Ele conta que as forças policiais acreditam que a ausência de operação vai permitir que o tráfico amplie sua atuação, mas garante que isso não se comprova cientificamente.Em nota, o Ministério Público informou que o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do órgão, o GAESP, segue com uma investigação que reúne mais de 4 mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos periciais médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos, prestados por 255 pessoas distintas. O MP ainda ouviu 45 familiares de pessoas mortas durante a operação, além de prestar apoio às vítimas.A investigação do Ministério Público também identificou falhas recorrentes no uso das câmeras corporais durante a operação, como agentes sem equipamentos, câmeras descarregadas, falta de baterias suplementares e problemas no planejamento da distribuição e do uso dos dispositivos. O órgão expediu recomendações para o aprimoramento do uso das câmeras corporais.A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro também se pronunciou por nota e reforçou que a Operação Contenção permanece em andamento e não se limitou à ação realizada em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha. A pasta informou que, desde então, foram realizadas 78 ações contra o Comando Vermelho e já foram solicitados bloqueios de bens e valores que totalizam R$ 12 bilhões, envolvendo empresas e pessoas ligadas à facção. A medida busca atingir a estrutura econômica que sustenta as atividades criminosas.A Delegacia de Homicídios da Capital continua a investigar as mortes dos 117 criminosos registradas durante a operação de outubro. Já as investigações sobre os assassinatos dos cinco policiais foram concluídas. Ao todo, 12 criminosos foram indiciados.Procurados, o ex-governador do Rio, Cláudio Castro, o ex-secretário de Polícia Civil Felipe Curi e o ex-secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes não se pronunciaram.
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Operação mais letal do Rio completa 1 ano, mas familiares seguem em busca de respostas
17:00 28.10.2026 (atualizado: 17:47 28.10.2026) Especiais
Ministério Público do Rio denunciou policiais por ilegalidades praticadas durante a operação que deixou 122 mortos, sendo cinco agentes de segurança do Estado.
Um ano após a
megaoperação mais letal da história do Rio de Janeiro,
ainda não há evidências da estabilização ou retomada de domínio do território pelas forças de segurança pública. E as dúvidas sobre a atuação policial ainda não foram esclarecidas.
Familiares reclamam por não ter acesso aos laudos cadavéricos das vítimas, o que impossibilita, por exemplo, determinar como as mortes aconteceram. Tauã Brito é mãe de um jovem que foi morto naquele dia e conta que o filho já estava rendido.
"Wellington estava lá em cima e ele já tinha se rendido. Todas as vezes eu tentava chegar até ele porque eu queria fazer com que os policiais levassem o meu filho preso. Eu já estava acompanhando nos grupos da Vila Cruzeiro, as pessoas estavam relatando que estavam vendo os meninos se entregarem e ouvindo os meninos gritando porque a polícia estava matando. Então eu subi, fui tentar chegar lá porque eu queria que levassem o meu filho preso e que meu filho pagasse perante a lei sobre os erros dele, como qualquer outra pessoa tem o direito de pagar perante a lei. E mataram ele. Isso também é uma violação, porque a polícia quando pega um menino já rendido, que não oferece mais nenhum tipo de perigo para a vida dele, ele tem que fazer se cumprir a lei."
Ela ainda afirma que o esclarecimento das mortes é crucial e que as consequências desse dia refletem em todos os familiares. "Então, assim, não é só mataram e acabou. Não. Deixa sequelas para toda uma família e que isso pode acarretar para o resto de uma vida. Então não é fácil."
A Operação Contenção deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Na época, a ação da Secretaria de Segurança Pública foi considerada um sucesso pelo então governador do Rio Cláudio Castro e pelos secretários da Polícia Civil Felipe Curi e da Polícia Militar Marcelo de Menezes.
A identificação da maior parte dos mortos como integrantes de facções, somada ao número de 91 fuzis apreendidos e 133 presos motivaram a afirmação da cúpula de segurança pública fluminense.

13 de novembro 2025, 17:52
No entanto, informações cruciais para comprovar a proporcionalidade da atuação policial, como a dinâmica das mortes, ainda não foram esclarecidas. Até o momento, o Ministério Público apresentou 12 denúncias contra 18 policiais militares por ilegalidades praticadas durante a operação, envolvendo apropriação de armamento, furto de peças de veículos, invasões de domicílio, constrangimento de moradores, subtração de bens, além de tentativas de obstrução ou desligamento de câmeras corporais.
O advogado de direitos humanos Rodrigo Mondego questiona a eficiência da operação policial, já que não houve a prisão de integrantes do primeiro escalão do crime organizado.
"De maneira geral, para o morador do Rio de Janeiro, para o morador do entorno do Complexo da Penha, para o morador do entorno do Complexo do Alemão, não mudou absolutamente nada. A senhorinha que há 30, 40 anos atrás ficava tranquila em Bonsucesso na porta de casa conversando com a sua vizinha, ela não voltou a conversar com a sua vizinha na porta de casa depois do que ocorreu porque o índice de criminalidade continua o mesmo, a sensação de medo continua a mesma. Não foi instituído no Brasil ainda a pena de morte, então independente de a pessoa ter cometido um crime no passado, não faz de justificativa para ela ser executada sumariamente, nem para arrancarem a cabeça dela, como ocorreu na chacina dos complexos do Alemão e da Penha."
A ação das polícias civil e militar teve a participação de 2.500 agentes de segurança, com o objetivo inicial de cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV), facção criminosa que exerce o controle daquele território.
Os agentes iniciaram a operação na noite do dia 27 de outubro, e a presença se estendeu até o dia seguinte, com registros de intenso tiroteio por mais de dez horas seguidas. Na época, o primeiro balanço oficial informava a morte de 64 pessoas. Mas os próprios moradores e as lideranças comunitárias encontraram os outros corpos em uma região de mata e os colocaram lado a lado na praça São Lucas, na Vila Cruzeiro. O registro desse momento em fotos e vídeos rodou o mundo. Ao todo, foram 122 mortos, sendo cinco policiais militares.
Além da letalidade, um ponto em especial chamou a atenção de especialistas em segurança pública: a espetacularização das técnicas usadas pela polícia, como o chamado "Muro do BOPE". Segundo Silvia Ramos, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a tática que encurralou e matou os alvos da polícia ter sido massivamente difundida na imprensa e nas redes sociais foi surpreendente.
"Eu acho que houve um choque e um fascínio por aspectos técnicos daquela situação. Então, a história do muro do BOPE, a história dos policiais feridos, as narrativas de como foi salvo um dos policiais que estava ferido no meio do tiroteio etc. Todas essas histórias, elas tomaram o lugar onde tradicionalmente a grande mídia, a mídia corporativa, os grandes veículos tinham sempre, procurando ouvir os moradores e publicar alguma coisa sobre a dor do que aquilo significava. Acho que houve uma mudança de estratégia dos grandes veículos de comunicação. Pela primeira vez, quase que fascinados nos aspectos de fascínio pela tecnicalidade da operação."
Menos de um ano depois, o secretário de Polícia Civil Felipe Curi foi eleito deputado federal e o secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes ganhou a disputa para o cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).
Para os especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem, as candidaturas foram a única consequência direta dessa operação, como explica o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) Ignácio Cano.
"Essa operação conseguiu eleger o secretário da Polícia Civil e o secretário da Polícia Militar, que se tornaram candidatos para a eleição, e um deles, inclusive, com um número que terminava em 122. Então, aquela operação sempre foi uma operação com intenção política para tentar, enfim, reflutuar o governo Castro, que estava num momento difícil, e essa intenção foi parcialmente atingida com a eleição desses dois deputados. Do ponto de vista da segurança pública, não mudou nada. No dia seguinte ao massacre, o Comando Vermelho continuava controlando aquela área. Pessoas tentaram entrar e foram paradas na entrada. Então a gente tem mais 122 cadáveres, entre eles cinco policiais, mas do ponto de vista da segurança pública, nada mudou. O que poderia mudar, eventualmente, seria esses planos de recuperação territorial, dos quais tanto se fala. Houve apresentação de um projeto de recuperação do governo do estado na época, do governo Castro ao STF, mas agora não sabemos o que o novo governo fará nesse sentido. Isso que poderia mudar um pouco o cenário. Agora, essas megaoperações, a gente já viu muitas, nenhuma dessa dimensão, acabam com muitas mortes, mas não mudam de jeito nenhum o cenário de segurança pública na cidade e na Região Metropolitana."
Com mais de 30 anos de pesquisa na área de segurança pública, Silvia Ramos explica que o melhor caminho para combater o crime organizado é a desarticulação da cadeia de comando. Para ela, matar pessoas em operações ostensivas não funciona porque elas são substituídas no dia seguinte.
"O que nós dizemos há anos, e que agora, com o DPF e a presença da Polícia Federal no combate ao tráfico no Rio de Janeiro está se demonstrando é que não se desarticula controle de território e grupos armados, como CV, TCP [Terceiro Comando Puro] e milícias, sem investigação, sem desarticulação das cadeias superiores, e não entrando em confronto ali naquele varejo. No ponto final, naquela franja das favelas, onde cada morte significa a morte de um jovem negro, periférico, que tem nenhuma importância dentro da cadeia, que morre, grandes operações de manejamento de dinheiro e de lucro, você controla o crime desarticulando as cadeias médias e superiores que estão envolvidas nessa criminalidade. Como é que você desorganiza isso? Fazendo operações de investigação sem dar nenhum tiro, chegando ali aos cabeças, aos estágios superiores."
A opinião é compartilhada pelo especialista em segurança Ignácio Cano. Ele conta que as forças policiais acreditam que a ausência de operação vai permitir que o tráfico amplie sua atuação, mas garante que isso não se comprova cientificamente.
"Seria desejável, seria um plano que fosse ocupando, muita gente não gosta do termo 'ocupar', enfim, recuperando também o termo discutivo, que fosse ampliando a intervenção do Estado nesses territórios, os serviços públicos etc. Mas também que conseguisse evitar as extorsões e o domínio territorial exercido por esses grupos. E uma ocupação, uma intervenção que não envolvesse grandes quantidades de mortes, como essas operações que a gente viu ano passado. Esse é o grande desafio, mas até agora ninguém foi capaz de desenvolver, de fazer frente a esse desafio de forma sustentável. Mas é isso que mudaria o cenário de segurança no Rio de Janeiro. Operações eventuais, troca de tiro só gera insegurança para quem mora nesses locais, mas gera vítimas com bala perdida, impede que as crianças vão para a escola ou para a UPA e não muda nada. É tudo um ritual que a gente se acostumou a fazer aqui no Rio. Tem muitos policiais que acreditam genuinamente que se você não faz nada, não faz uma operação dessas, o crime vai crescer. Mas não tem nenhuma evidência que confirme essa percepção, essa sensação. O que a gente vê é que essas operações se repetem ciclicamente e nada muda."
Em nota, o Ministério Público informou que o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do órgão, o GAESP, segue com uma investigação que reúne mais de 4 mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos periciais médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos, prestados por 255 pessoas distintas. O MP ainda ouviu 45 familiares de pessoas mortas durante a operação, além de prestar apoio às vítimas.
A investigação do Ministério Público também identificou falhas recorrentes no uso das câmeras corporais durante a operação, como agentes sem equipamentos, câmeras descarregadas, falta de baterias suplementares e problemas no planejamento da distribuição e do uso dos dispositivos. O órgão expediu recomendações para o aprimoramento do uso das câmeras corporais.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro também se pronunciou por nota e reforçou que a Operação Contenção permanece em andamento e não se limitou à ação realizada em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha. A pasta informou que, desde então, foram realizadas 78 ações contra o Comando Vermelho e já foram solicitados bloqueios de bens e valores que totalizam R$ 12 bilhões, envolvendo empresas e pessoas ligadas à facção. A medida busca atingir a estrutura econômica que sustenta as atividades criminosas.
A Delegacia de Homicídios da Capital continua a investigar as mortes dos 117 criminosos registradas durante a operação de outubro. Já as investigações sobre os assassinatos dos cinco policiais foram concluídas. Ao todo, 12 criminosos foram indiciados.
Procurados, o ex-governador do Rio,
Cláudio Castro, o ex-secretário de Polícia Civil Felipe Curi e o ex-secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes não se pronunciaram.
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