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'A tentativa de reeditá-lo na figura de seu filho falhou': o bolsonarismo sobrevive sem Bolsonaro?

© AP Photo / Bruna PradoApoiadores do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro reagem aos resultados da apuração do segundo turno das eleições do Brasil.
Apoiadores do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro reagem aos resultados da apuração do segundo turno das eleições do Brasil. - Sputnik Brasil, 1920, 03.11.2026
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Com vácuo de liderança após derrota eleitoral, diferentes nomes da direita tentam ocupar espaço da família Bolsonaro, mas especialistas apontam dificuldades para construir uma identidade política independente do movimento.
Sinônimo da direita brasileira – ou ao menos o mais presente na ala política nos últimos anos – o destino do bolsonarismo, se continua parte sendo ou se tornará um segmento a parte do campo, está em dúvida. A derrota e, logo depois, fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os EUA abriu um vácuo na liderança da oposição do governo Lula e figuras da direita já tentam ocupar o lugar vazio.
Renan Santos (Missão), que foi candidato à Presidência 2026, propõe construir uma identidade própria fora dos Bolsonaros. Por outro lado, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), já indicou que quer ser o nome principal da direita para as eleições de 2030. Ciente disso, Flávio tenta se manter como "líder do Brasil" dos EUA, sugerindo já também lançar seu nome na disputa.
Estamos vendo um racha dos Bolsonaros e a direita brasileira? Na visão de Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), isso ainda é precipitado de dizer, pelo menos em termos eleitorais.
Ela pontua que, embora tanto Jair e Flávio não tinham capacidade e nem interesse em serem articuladores de projetos ou movimentações dentro do Congresso Nacional, a grande vitória do Partido Liberal no primeiro turno das eleições ainda mantém o bolsonarismo forte. O que há, sobretudo, é uma ausência física na política para exercer a liderança.
"Não sabemos se a Michele [Bolsonaro] o fará, mas até agora os nomes disponíveis que eram Jair, Eduardo e Flávio, ambos não se mostraram interessados ou se apresentaram para o jogo de fazer essa atuação parlamentar."
Goulart ressalta que, enquanto segmentos da direita gostariam que os eventos representassem uma derrocada dos Bolsonaros, ainda não há um nome capaz de arrigementar nacionalmente esses eleitores para substituir a família, que conseguiu unir várias tendências e grupos da direita: economistas liberais, conservadores em costumes, militares, setores evangélicos, ruralistas, grupos ligados ao agronegócio, defensores de pautas de segurança pública e, até mesmo, setores da direita nacionalista.
Figuras como Renan Santos, Tarcísio e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) possuem seus relativos nichos, ainda sem uma expressão nacional ampla.
"O Renan, jovens conectados na internet, de classe média. O Tarcísio, eleitores de São Paulo, sudestinos, que se identificam com essa identidade sudestina. Nikolas, eleitores evangélicos, muito concentrado em Minas."

Decadência de forças políticas de direita

Para João Feres Júnior, professor de ciência política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), a ascensão do bolsonarismo promoveu "a decadência de forças políticas de direita e centro-direita tradicionais no país, como o PSDB, o DEM e mesmo boa parte do MDB", analisando também como o resultado no primeiro turno "engoliu" parte do Centrão e políticos de direita para candidatos bolsonaristas.
Contudo, Feres Júnior é receoso em dizer se o bolsonarismo já se tornou uma força que possa caminhar sozinho na política. "O enorme sucesso eleitoral do PL advém do casamento entre organização e marca bolsonarista. Acontece que esses dois elementos são antitéticos", explica o também coordenador do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação (INCT).
"O bolsonarismo se alimenta do carisma de Bolsonaro, que ainda tem anos de prisão domiciliar a cumprir. A tentativa de reeditá-lo na figura de seu filho falhou. A lógica burocrática da organização partidária funciona de outra maneira, pela alocação de recursos de campanha e alianças políticas bem costuradas, coisas que os Bolsonaros nunca se mostraram capazes de fazer."
Tarcísio de Freitas seria, em sua avaliação, a tentativa de unir essas duas coisas, se colocando como um político racional e administrador competente enquanto ao mesmo tempo tenta operar os benefícios do "carisma bolsonarista". O cientista político reforça que isso não é algo simples. "Parte da eficácia desse carisma é exatamente desprezar coisas como racionalidade e competência".

Bolsonarismo depende do antipetismo

Ainda, Goulart reforça que a capacidade de atuação nacional do bolsonarismo depende justamente de agregar diferentes segmentos da direita e do centro que compartilham o antipetismo, mas possuem identidades e interesses próprios.
"O bolsonarismo só tem capacidade de atuação nacional porque ele agrega o antipetismo, um sentimento que se distribui em diferentes segmentos da direita brasileira, da direita e até mesmo do centro no Brasil".
A professora também pondera que a vitória de Lula não pode ser interpretada apenas como resultado de uma reação contrária a Bolsonaro. Na avaliação dela, o PT possui capacidade própria de organização e mobilização, enquanto a trajetória e o carisma do presidente Lula representam uma identidade política que vai além do antibolsonarismo.
Da mesma forma, ressalta, o bolsonarismo terá sua sobrevivência mesmo sem eleger um presidente em mais um ciclo eleitoral.
"Porque o bolsonarismo é um movimento de base, um movimento com capacidade de organização nas redes e nos territórios, muito abrangente e que tem sido, a principal característica dele, além do extremismo, a meu ver, a resiliência".
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