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Fim do bem-estar europeu? Sucessivas crises expõem desgaste do contrato social, em meio a protestos

© AP Photo / Emma da SilvaManifestantes próximo de veículo incendiado durante protesto contra o aumento do custo de vida em Paris. França, 17 de outubro de 2026
Manifestantes próximo de veículo incendiado durante protesto contra o aumento do custo de vida em Paris. França, 17 de outubro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 05.11.2026
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Dos cortes na educação da França à precarização dos serviços públicos na Itália, diferentes insatisfações começaram a ganhar as ruas da Europa a partir de outubro. Ocorrendo em um número crescente de países, aparentes protestos isolados se tornaram uma onda de contestação social, expondo as tensões que atravessam a União Europeia (UE).
Estudantes, trabalhadores e movimentos sociais passaram a tomar as ruas em diferentes cidades europeias, nas últimas semanas, por um propósito quase comum: responder ao custo de vida cada vez mais alto na Europa, seja com a energia elétrica, o aluguel, a alimentação, seja com o transporte, além dos sistemáticos cortes em políticas sociais em meio ao aumento dos gastos da UE com a militarização. Só na França, mais de 600 mil manifestantes participaram de atos em todo o país nesta quinta-feira (5).
Já na Alemanha, cujo primeiro-ministro, Friedrich Merz, chega a pouco mais de um ano e meio de governo com desaprovação recorde, outras milhares de pessoas promoveram protestos em várias partes do país nos últimos dias, inclusive com momentos de confronto com a polícia. Enquanto isso, na Itália, o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni intensificou o efetivo de agentes de segurança nas localidades que foram palco de atos, o que aumentou o temor de ainda mais tensões sociais.
Para a professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Natali Hoff, essas manifestações são o estopim de uma instabilidade que toma a Europa há décadas e, apesar de não terem uma coordenação em comum, estão interconectadas.
"Não temos um movimento unificado. Pelo contrário, são mobilizações nacionais organizadas a partir de demandas locais. Espanha e Portugal trazem muito a questão do custo da moradia; a França começa com a educação e depois amplia para o custo de vida; a Itália fala um pouco sobre salários e gastos militares; na Alemanha também aparecem a questão do serviço militar e, mais uma vez, o custo de vida, principalmente pelo aumento dos combustíveis. Ou seja, apesar de serem separadas, existe ali um pano de fundo que é compartilhado e traz a mesma insatisfação estrutural das populações, principalmente entre os mais jovens", explica à Sputnik Brasil.
Aliado a isso, Hoff acredita que essa situação é o retrato do processo de erosão do contrato social europeu — um Estado forte, que arrecada muito e gasta em proteção social. Segundo a internacionalista, em troca dos altos tributos que cada um paga ao governo, a população recebia serviços de qualidade, como educação, saúde e assistência, dentro do tão conhecido Estado de bem-estar europeu, que vigorou até alguns anos atrás.

"Os Estados continuam arrecadando muito, mas há uma percepção crescente na população de queda na capacidade de oferecer, em troca, esses serviços públicos, gerando uma insatisfação estrutural e até espaço para que grupos às vezes mais radicais possam aparecer", complementa.

O cientista político, jornalista e professor de relações internacionais Bruno Lima Rocha concorda e acrescenta à Sputnik Brasil que a situação é, em parte, reflexo do retrocesso da indústria europeia e da própria subordinação aos Estados Unidos desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Conforme Rocha, para piorar a situação, parte dos fundos do bloco europeu ainda é aplicada na tentativa de criar uma indústria bélica sob o padrão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), inclusive com as próprias patentes tecnológicas co-subordinadas a Washington. O resultado é que a produção de riqueza e emprego fica restrita e, diante das dificuldades orçamentárias nos países, começam os cortes.
"E onde vai ter mais cortes? Justamente nos direitos trabalhistas, sociais, previdenciários, direitos à cidade, transporte público e subsídios necessários para melhorar a qualidade de vida. Isso vira um ciclo complicado em qualquer sociedade, principalmente para as novas gerações, que, apesar de estudarem mais, têm acesso a menos riqueza. Essa crise se canaliza nesses protestos, que cada vez mais se tornam uma rebelião popular", diz.

Europa prova do seu próprio veneno?

Enquanto enfrenta uma instabilidade social crescente, a Europa acumula milhares de sanções unilaterais impostas nos últimos anos a países como Rússia e Irã, com o objetivo de provocar vulnerabilidades econômicas e pressionar seus governos. Para a professora da PUC-PR, há uma "ironia política" nesse cenário, já que as medidas coercitivas procuram "fazer com que as populações locais fiquem insatisfeitas e pressionem por mudanças políticas, até mesmo de governos". Esse efeito seria provocado pelas restrições ao comércio internacional e ao acesso ao sistema financeiro.
"Então, existe uma grande ironia política quando pensamos que essas decisões que foram tomadas também têm influência nesse momento de instabilidade que a Europa vem vivendo. Isso ocorre porque as sanções foram tomadas em um contexto de alta interdependência econômica [a exemplo do fim da exportação do gás russo, mais barato]. Mesmo quando você tem alguns mecanismos para lidar com essa decisão, ainda assim os custos dela vão se refletir no seu próprio ambiente doméstico", resume.
Além disso, Hoff lembra que a Europa não conseguiu lidar com as sucessivas crises desde 2008, quando a bolha imobiliária dos Estados Unidos gerou impactos econômicos significativos que levaram às políticas de austeridade fiscal, a exemplo da Grécia, que praticamente quebrou. Na sequência, veio a pressão migratória por conta dos conflitos intensificados pelas próprias ações das potências europeias nos países do norte da África e do Oriente Médio, no contexto da Primavera Árabe. Depois, vieram a pandemia da COVD-19, conflito na Ucrânia e, mais recentemente, os impactos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ao centro, o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, à esquerda, e o presidente francês, Emmanuel Macron, se reúnem durante a cúpula de líderes europeus para discutir a Ucrânia, em Lancaster House, Londres, 2 de março de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 30.09.2026
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"Obviamente, esses momentos de contestação também abrem espaço para que grupos mais populistas, que às vezes conseguem empreender a partir da insatisfação social, fomentem questionamentos às instituições. Acho que, até este momento, o que a gente percebe é um contexto de instabilidade política, no qual aquela política tradicional se vê tensionada por conta da sua incapacidade de responder às demandas sociais. O que a gente vai ter que observar daqui para frente é o impacto desse cenário sobre as democracias europeias e a estabilidade institucional desses países", argumenta.
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