Javier Milei enfrenta dificuldades para reconquistar empresas estrangeiras, já que multinacionais continuam evitando a Argentina apesar do entusiasmo inicial com sua agenda liberal. Dois anos após o início do mandato, novos investimentos concentram‑se quase exclusivamente no setor de recursos naturais, enquanto grandes grupos como HSBC e Carrefour deixam o país.
Em 2025, o fluxo de investimento estrangeiro direto tornou‑se negativo pela primeira vez desde 2003, resultado da venda de ativos de multinacionais para empresas locais e da flexibilização dos controles cambiais. Embora Milei atraia atenção internacional e reuniões com CEOs, a volatilidade histórica da economia argentina ainda pesa nas decisões corporativas.
Executivos afirmaram à apuração do Financial Times (FT) que a Argentina compete hoje com mercados mais previsíveis e que o passado de mudanças bruscas de regras continua sendo um obstáculo. O afrouxamento dos controles de capital valorizou ativos e abriu espaço para que empresas estrangeiras vendessem operações sem perdas significativas, como fizeram Exxon e Telefónica.
De acordo com consultores ouvidos pelo FT, muitas multinacionais estão reduzindo presença na América Latina e a Argentina costuma ser a primeira a ser abandonada devido ao alto custo operacional. Décadas de políticas imprevisíveis — restrições a importações, proibição de repatriação de lucros, controles de preços e desvalorização extrema — deixaram marcas profundas na confiança empresarial.
A exceção é o setor de recursos naturais, que vive um boom. Mineradoras como Rio Tinto e Glencore planejam investir bilhões em lítio e cobre, enquanto projetos de energia de xisto e gás natural liquefeito (GNL) atraem empresas como Eni e Continental Resources. A OpenAI também anunciou um megainvestimento em data centers movidos a gás.
Com uma vitória expressiva nas eleições de meio de mandato, Milei tenta acelerar reformas e ampliar acordos internacionais, como o pacto comercial limitado firmado com os EUA. O governo organiza eventos para atrair investidores e expandir programas de incentivos, enquanto reforça sua diplomacia econômica com novas nomeações.
Apesar do otimismo oficial, a escassez de dólares no Banco Central continua sendo um gargalo para estabilizar o câmbio, pagar dívidas e financiar importações. Segundo analistas, 2026 pode marcar uma virada, à medida que investimentos em mineração e energia comecem a gerar entrada de divisas, embora controles de capital ainda preocupem multinacionais.
Setores como varejo e serviços começam a mostrar sinais de interesse renovado, com casos como o investimento da Decathlon. Porém, a indústria manufatureira enfrenta um cenário mais difícil, pressionada pela abertura econômica e pela concorrência externa. A incapacidade do governo de eliminar totalmente os controles cambiais e reconstruir rapidamente as reservas segue como um dos principais entraves ao retorno amplo do investimento estrangeiro.