As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção científica distante e já impactam diretamente a produção de alimentos no mundo. Um aumento de temperatura de 1,5ºC no planeta já altera regimes de chuva, agrava eventos climáticos e aumenta a proliferação de doenças e pragas, atestam cientistas.
Os efeitos mais visíveis de tal crise seriam um risco a segurança alimentar de bilhões de pessoas e uma instabilidade nos preços de alimentos. Para contornar essas mudanças, zonas tradicionais de plantio estão mudando para regiões mais amenas – ainda consideradas frias e pouco produtivas – ou surgindo em áreas em que antes era improvável sua produção.
Por exemplo, países produtores de azeite como Itália e Espanha tiveram colheitas danificadas pelo calor, mas outros como o Reino Unido e Alemanha começaram produzir. A França, um dos maiores produtores de vinho no mundo, principalmente sob o clima mediterrâneo da Occitânia, viu muitas produções atravessarem o Oceano Atlântico para a Inglaterra. Na América do Sul, o Chile, maior produtor da região, teve deslocamentos de vinhedos para latitudes mais ao sul.
No Brasil, percebemos isso com produções migrando para outros estados: laranja, commodity em que o país é o maior produtor, já viu produtores mudarem de São Paulo para o Mato-Grosso do Sul.
O café, outro produto em que o Brasil é o maior produtor, pode desaparecer no país inteiramente caso as políticas atuais de emissão sigam e pressionem uma elevação da temperatura da Terra para 4°C até 2100, segundo pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Estamos diante de de um "novo normal" climático?
Para Carlos Nobre, professor da Cátedra Clima e Sustentabilidade da Universidade de São Paulo e copresidente do Painel Científico para a Amazônia-SPA, ainda não chegamos lá e ainda é possível impedir isso.
"Pela primeira vez nos últimos três anos a média da temperatura atingiu um aumento de 1,5°C. E há um enorme risco de atingir isso em poucos anos de forma permanente", diz Nobre.
Segundo ele, 75% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis e vem continuando a aumentar Em vez de diminuir as emissões, em 2025 um novo recorde foi batido com 1,1% mais emissões que 2024.
Dados a partir da Climate TRACE mostram que houve variações por países no mundo – a China, por exemplo, teve uma pequena queda – mas a tendência geral é de alta recorde, projetando que o teto de carbono para 1,5°C se esgote antes de 2030.
Mais gás carbônico na atmosfera, significa uma maior a eficiência da fotossíntese, processo pelo qual as plantas produzem sua energia, explica Nobre. Sinônimo de frio extremo, regiões como o Canadá e a Sibéria têm sido tópico de especulação pela possibilidade de ser uma nova fronteira agrícola. Caso as temperaturas aumentem, o eixo da produção de alimentos também pode mudar.
No entanto, Nobre desmitifica a tese de que o aumento da temperatura ajudaria a produção de alimentos. O calor, gerado pelo aumento dos gases de efeito estufa, também prejudicam e eficiência da fotossíntese, o que é um "desastre" para a agricultura.
Aliado a isso, a baixa fertilidade do solo, alto teor de ácido húmico e falta de infraestrutura garantem que essas novas regiões não se tornem o próximo "celeiro do mundo".
"E quando está super seco, também nada acontece, porque não tem água para transpirar e para abrir o estômago para fazer a fotossíntese. O que a gente está vendo no mundo inteiro são grandes quebras de safra."
Dentro desse cenário, um dos maiores prejudicados seria o Brasil, segundo maior exportador de alimentos do mundo.
Segundo estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os impactos econômicos das mudanças climáticas poderiam chegar a US$ 184,1 bilhões (aproximadamente R$ 992,1 bilhões ou 8,5% do PIB de 2025). Hoje, o agronegócio possui uma participação de 23% a 29% do PIB total brasileiro.
A situação é ainda mais agravada com o derretimento do permafrost, solo congelado na região do Ártico e Antártida que armazena enormes quantidades de carbono e metano. Estima-se que até 2100 possam ser liberados 200 bilhões de toneladas de gases do efeito estufa se nada for feito para reverter o curso das mudanças climáticas.
"A partir desse ano de 2026 a gente precisa reduzir, no mínimo, 5% por ano as emissões. Mas nós não estamos vendo nada indo nessa direção".
"Isso é um ecocídio, como nós chamamos, um suicídio ecológico, porque nós vamos levar ao começo da sexta extinção de espécies, Nós vamos extinguir todos os recifes de corais que mantêm 25% da biodiversidade oceânica. Nós vamos perder a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e muitos outros ecossistemas em todo o mundo. É isso que vai acontecer."