A África é considerada o berço do mundo. Arqueologistas encontraram no Marrocos, ao norte do continente, fósseis de Homo sapiens que estimam ter mais de 300 mil anos. Crânios e outros ossos humanos, todos com mais de 120 mil anos, também já foram localizados na Etiópia e Tanzânia.
Apesar de ser a origem de toda a humanidade, a África sofreu com a falta de humanidade em diferentes épocas por meio da escravidão de seu povo e, mais recentemente, com a partilha europeia de territórios nos séculos XIX e XX.
Essa exploração dos africanos mudou, mas não acabou. Hoje, os Estados que compõem o continente sofrem com a dependência de mecanismos econômicos globais, como a Organização Econômica dos Estados Ocidentais (OCDE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
Em meio aos abusos financeiros, as nações da África têm um novo parceiro que pode ser a resposta para um crescimento mútuo e baseado na reciprocidade: o BRICS. A adição de Egito e Etiópia, e a presença já conhecida da África do Sul, mostram que o grupo quer estabelecer diálogo também com o continente e fortalecer a multilateralidade na região.
Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Ana Saggioro Garcia, professora de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), explica que os países africanos são marcados pela exploração de recursos naturais, ocupações territoriais e dominação política, mas este cenário pode mudar com apoio dos membros do BRICS.
Autora do livro "Brasil, BRICS e África no regime internacional de investimentos: uma economia política das relações Sul-Sul", Saggioro Garcia destaca que o primeiro dos países do grupo a chegar no continente com empresas e empréstimos internacionais foi a China, no fim do último século.
"O BRICS tem hoje 17 anos, mas a China está muito presente na África antes do BRICS, ainda no final dos anos 1990. A China vai criar já em 2000 o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), que acontece a cada dois anos. É significativo que o presidente chinês, Xi Jinping, se reúna com os líderes africanos para debater o que está acontecendo, quais são as demandas, quais são os desafios de desenvolvimento."
A Rússia, por sua vez, herdou a forte presença diplomática da União Soviética no continente. Quando o Estado se dissolveu, Moscou continuou com representações espalhadas pela região e, assim como a China, intensificou investimentos na área a partir dos anos 2000, em especial nas indústrias de mineração e petróleo.
A professora da UFRRJ explica que o Brasil também não fica de fora e ganha notoriedade na África a partir do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que intensificou as relações Sul-Sul. À época, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também forneceu empréstimos para as empreiteiras brasileiras que atuavam no continente.
Já a Índia se destaca pela migração de mais de 2 milhões de pessoas, que se espalharam pelos países africanos. Essa presença, segundo a especialista, fortalece não só o laço cultural entre esses povos, mas também o econômico.
"A Índia tem uma política bastante incisiva para o continente africano — financiamento de comércio, empréstimo bancário, empresas indianas que estão nas mais diversas áreas."
Único membro fundador africano do BRICS, a África do Sul teve que superar as cicatrizes do regime de Apartheid para reconquistar a confiança dos vizinhos. Com a chegada de Nelson Mandela ao poder, o país adotou o pan-africanismo — movimento político que defende a unidade entre as nações do continente.
O fato de nenhum dos países do agrupamento ter exercido presença colonial na África é, para a especialista, um ponto na boa relação do BRICS com os países africanos.
"O BRICS vai se tornar potencial alternativa para o continente, particularmente em termos de entrada de empresas, investimento em infraestruturas, em agricultura, etc, e uma alternativa em termos de cooperação internacional."
Moçambique: reflexo das organizações financeiras na África
Saggioro Garcia cita Moçambique como exemplo de nação que está nas mãos de entidades financeiras estrangeiras. A especialista explica que cerca de 60% do orçamento de Maputo se dá por ajuda estrangeira, o que culminou na criação do Grupo dos 19, composto por países credores e o Banco Mundial.
De acordo com a professora, esse agrupamento se reúne antes de Moçambique divulgar o orçamento público anual para discutir como o dinheiro da nação deve ser aplicado.
"É uma ingerência sem escrúpulos, vamos dizer assim. Eles [Grupo dos 19] vão determinar para onde vai os recursos dessa chamada doação, dessa ajuda oficial ao Estado moçambicano."
A analista ainda destaca que o Banco Mundial está inserido dentro do governo de Maputo, inclusive em ministérios que não têm relação com a economia nacional, como a pasta de Educação.
A China, por sua vez, é vista com desconfiança pelo Grupo dos 19, segundo Saggioro Garcia. A analista ressalta que Pequim trata os empréstimos aos moçambicanos em conversas bilaterais, sem se juntar ao agrupamento que interfere nas decisões nacionais de um Estado que deveria ser soberano.
"O BRICS vai contribuir na medida em que ele vai abrir o leque de possibilidade e vai aumentar o poder de barganha dos países, porque os países que não são mais dependentes dos europeus, do FMI, do Banco Mundial, dos EUA, têm outros [atores] para negociar. Eles vão ficar mais fortes na barganha e negociação com as potências tradicionais."
Para Saggioro Garcia, no entanto, o interesse dos países africanos em integrar o BRICS é uma aproximação da China. Segundo ela, é necessário que outras nações aumentem suas transações comerciais dentro do próprio grupo.
"Quando a gente fala em facilitação de comércio entre os BRICS nós temos que olhar a facilitação de comércio para além da China. Se olharmos os fluxos comerciais entre o BRICS, tirando a China, é muito pequeno. O fluxo, por exemplo, entre Brasil e África do Sul é irrelevante."
Ainda assim, apesar dos ajustes necessários ao longo da caminhada, a especialista considera muito importante ser parte do BRICS, "um fórum multilateral de cooperação, de construção de consensos".
"A tendência é que as relações Sul-Sul, fortalecidas, podem levar a uma reconfiguração da ordem global de uma forma mais justa, democrática, bem distribuída. Isso ainda não acontece, ainda estão em construção, mas diria, ao menos da nossa visão de futuro, do que queremos para o mundo, esse é o caminho."