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Contenção da China em foco: como acordo militar entre Filipinas e Canadá impacta o Indo-Pacífico?

© AP Photo / Jim GomezSoldados norte-americanos embarcam em um avião militar C-130, dos EUA, no aeroporto internacional de Cagayan North, nas Filipinas, como parte dos exercícios militares conjuntos entre Filipinas e EUA chamados "Balikatan", ou "Ombro a Ombro", em 26 de abril de 2025
Soldados norte-americanos embarcam em um avião militar C-130, dos EUA, no aeroporto internacional de Cagayan North, nas Filipinas, como parte dos exercícios militares conjuntos entre Filipinas e EUA chamados Balikatan, ou Ombro a Ombro, em 26 de abril de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 08.01.2026
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Apesar da distância geográfica, econômica e cultural, Filipinas e Canadá firmaram recentemente um acordo militar que prevê treinamento conjunto, intercâmbio de tropas e cooperação operacional. Especialistas analisam à Sputnik Brasil como a medida se insere na estratégia ocidental de ampliar a presença no Sudeste Asiático.
Em meio às tensões militares que há décadas marcam a região do Indo-Pacífico, um país atrai atenção especial do Ocidente: as Filipinas. Formado por mais de 7 mil ilhas, o território já foi alvo da colonização espanhola e, durante a guerra no Vietnã, abrigou duas importantes bases dos Estados Unidos. Nos últimos 20 anos, voltou a ser alvo de investidas de Washington, desta vez sobre as Forças Armadas.
O professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), escritor e analista de organizações militares Vinicius Modolo Teixeira explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a medida foi motivada principalmente pela ascensão da China na região e busca utilizar o país como "instrumento de geopolítica ocidental".

"As Filipinas passaram a ser alvo de uma pressão dos Estados Unidos para que deixe a área de combate à guerrilha [conflitos internos] e passe a ter capacidade de navegação no mar. Isso inclui a incorporação de fragatas doadas pelos Estados Unidos e por outros aliados, além do incentivo à compra de aeronaves e caças de novas gerações, algo que as Filipinas não têm há muito tempo. Essas condições de rearmamento tendem a beneficiar sobretudo quem fornece os equipamentos […]; para o país, no entanto, o ganho estratégico é reduzido."

Bandeira da China (imagem de referência) - Sputnik Brasil, 1920, 27.11.2025
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Para entender o processo, complementa o especialista, basta observar a geografia chinesa: territórios como Japão, Coreia do Sul e Filipinas, segundo ele, formam uma barreira natural que acaba cercando as principais saídas de Pequim para o mar.
"Quando você tem as Filipinas sendo cada vez mais trazidas para alianças com os Estados Unidos e países aliados, como é o caso do Canadá agora, você faz esse cordão de isolamento utilizando Taiwan, mas com essa passagem entre Filipinas e Japão", pontua.
É justamente nisso que entra o novo acordo militar com o Canadá, país denominado pelo especialista como "aliado estratégico dos Estados Unidos e praticamente subordinado aos seus interesses a níveis globais", mesmo com um afastamento nos últimos meses por conta da nova política tarifária do governo do presidente Donald Trump.
"Vemos a passagem de um realinhamento estratégico a nível global de Washington e seus aliados, inclusive da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], para a região do Indo-Pacífico. Então toda aquela manutenção de forças que tínhamos durante a Guerra Fria no Atlântico, que era território primordial, passa para esse entorno e outras localidades defronte à China."
O navio BRP das Filipinas Jose Rizal (FF150), à direita, e o USS Gabrielle Giffords (LCS 10) durante um exercício tático entre as Filipinas e os Estados Unidos no mar do Sul da China, em 23 de novembro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 15.12.2025
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Acordo militar entre Filipinas e Canadá: influência geopolítica?

Para o especialista, o acordo que permite o envio e o treinamento de tropas do Canadá e das Filipinas nos territórios de ambos os países é mais um elemento da estratégia ocidental de contenção da China, mesmo com um impacto militar limitado. Aliado a isso, Teixeira cita o pacto militar entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, que em setembro de 2021 criaram o AUKUS justamente em reação ao chamado "expansionismo chinês".

"Então a China precisa observar esses movimentos de forma acumulada. Não se trata apenas do acordo entre Canadá e Filipinas, mas do conjunto de iniciativas firmadas nos últimos anos. Nesse contexto, o mais relevante é o AUKUS, uma nova aliança que envolve o Reino Unido, potência decadente que já controlou cerca de um quarto do planeta e que ainda tenta aspirar a condições imperiais em escala global, buscando influenciar os rumos da Ásia e da Oceania. Trata-se de mais uma gota em um copo que, em algum momento, tende a transbordar, o que exige atenção constante por parte de Pequim."

Teixeira vê o acordo com Ottawa apenas como mais um vínculo de Manila com o Ocidente e, possivelmente, como ainda mais submissão a esses interesses. No plano político interno, complementa, o risco é baixo para o Canadá, mas elevado no país do Sudeste Asiático, onde tensões domésticas, histórico autoritário e movimentos separatistas podem ser agravados pelo alinhamento ocidental.
"Isso não ajuda em nada no desenvolvimento [do país], não vai criar uma pacificação na região e vai, na verdade, piorar as relações com a China. As Filipinas, até pela sua posição geográfica no mapa, certamente se tornariam, em caso de conflito, o ponto de partida, a base de uso do Ocidente. Então, mais uma vez, há o território de outro país utilizado para gerar tensão no mundo, entrando ali como um bode expiatório", enfatiza.
Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, durante a Cerimônia de Boas Vindas da 47ª Reunião da Asean - Inclusão e Sustentabilidade, realizada em Kuala Lampur, Malásia. - Sputnik Brasil, 1920, 28.10.2025
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Parceria militar pode impactar relações das Filipinas com a ASEAN?

Um dos 11 países-membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês), as Filipinas contam com o quinto maior produto interno bruto (PIB) do bloco e estão em sexto na classificação do poderio militar. Diante de novos pactos bélicos com o Ocidente, o professor da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE) João Gabriel Burmann pontua ao Mundioka que a iniciativa pode causar "algum tipo de estremecimento" nas relações do país com o grupo.

"As Filipinas são um país bastante importante da ASEAN e, inclusive, no ano que vem vão assumir a presidência temporária da organização. Esse fato é relevante porque o próximo ano é quando está prevista uma atualização, uma revisão do chamado Código de Conduta do Mar do Sul da China. Esse é um documento que vem sendo discutido desde o início do século XXI, mais especificamente desde 2002, ou seja, já são mais de 20 anos."

De acordo com Burmann, os países da ASEAN negociam o estabelecimento de regras para pacificar reivindicações territoriais da região, que envolvem os casos das próprias Filipinas, além de Vietnã, Brunei, Indonésia e Malásia.
"Ou seja, é pouco território para muitas reivindicações. Se todos pudessem cumprir integralmente suas demandas territoriais, não sobraria espaço para atender a todas. Então eu acho que, para as Filipinas, isso pode ter um custo político e diplomático. Elas vão ter de articular melhor essa posição, mostrar que terão um papel importante, mas, ao mesmo tempo, que estão se blindando fortemente com seus aliados. Isso provavelmente vai manter, ou até aprofundar, um afastamento da China", finaliza.
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