Panorama internacional

Análise: discurso de premiê canadense 'á foi repetido inúmeras vezes na América Latina'

A novidade do discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no Fórum Econômico Mundial não reside em seu diagnóstico do presente ou em suas acusações contra a ordem internacional baseada em regras, que vêm sendo repetidas pelo Sul Global há décadas, mas sim no fato de ter sido proferido por uma figura do establishment.
Sputnik
O Fórum Econômico Mundial terminou em 23 de janeiro com um gosto agridoce para a Europa e líderes como o ucraniano Vladimir Zelensky, que, entre suas declarações controversas, criticou a região por sua incapacidade de liderar e se defender.
Na opinião de Mauricio Prado Jaimes, doutorando em Estudos Latino-Americanos na UNAM, o Fórum "foi um espetáculo patético em todos os sentidos", que "expressou muito claramente a crise atual" que a ordem global e seus principais representantes enfrentam.

"Ninguém sabiá o que fazer, e surgiram todos os tipos de posições. [O presidente espanhol] Pedro Sánchez falando sobre inteligência artificial, [...] Elon Musk dizendo o que lhe vinha à cabeça. Javier Milei [presidente da Argentina] pagando para se sentar à mesa [do Conselho de Paz de Gaza] onde certamente não terá influência", disse o analista à Sputnik.

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Uma velha discussão

Mas, em meio à comoção, um discurso ganhou as manchetes: o do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que usou sua plataforma para admitir que a ordem internacional baseada em regras está falida e que sempre foi uma "ficção confortável" que serviu aos mais poderosos.
Entre outras coisas, o economista e banqueiro confessou que, por décadas, "países como o Canadá prosperaram sob o que chamamos de ordem internacional baseada em regras".

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa: que os países mais fortes se isentavam quando lhes convinha, que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era aplicado com rigor variável dependendo da identidade do acusado ou da vítima", disse ele.

"Este pacto já não funciona. Deixe-me ser franco: estamos em meio a um colapso, não a uma transição", afirmou.
As declarações do primeiro-ministro canadense foram elogiadas por figuras de todo o espectro político. No entanto, a posição do premiê faz parte de uma crítica que vem sendo feita pelo Sul Global, pelo menos desde a década de 1960, contra o sistema internacional e suas instituições, disse Prado Jaimes a esta publicação.
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Uma confissão de fatos

"[Esse discurso] tem sido repetido na América Latina inúmeras vezes, ano após ano. Essas críticas também são repetidas na Assembleia Geral da ONU, mas essas vozes geralmente não são ouvidas porque pertencem a países que, em primeiro lugar, estão no Sul Global e, em segundo lugar, que também carecem de peso geopolítico significativo", observou o especialista.
Ele acrescentou que "na América Latina, vemos isso como uma confirmação de muitas coisas que já pensávamos, mas é uma confissão de fatos [o que o primeiro-ministro canadense disse]".
Nesse sentido, para o analista, a novidade do discurso de Carney, ou a razão pela qual foi tão bem recebido pela imprensa e, em geral, no discurso público, deve-se ao fato de ter sido proferido por uma "potência média" e, particularmente, "por uma figura que faz parte integrante do establishment".
"Mark Carney é banqueiro, ex-profissional do Goldman Sachs, o que significa que conhece e faz parte do sistema financeiro internacional", observa, acrescentando que "é daí que vem, em parte, o impacto", já que ele é um "igual".
Por outro lado, o especialista acredita que a recepção positiva do discurso pode ser interpretada à luz da crise de identidade da Europa, "que luta para encontrar seu lugar no mundo com todas as mudanças em curso".
"Eles estão passando por uma crise porque já não têm a relevância que talvez tivessem no início do milênio, quando eles e os Estados Unidos ditavam a política internacional", reflete Jaimes.
Nesse sentido, o especialista argumenta que, embora o Canadá não faça parte estritamente da Europa, é um membro da comunidade internacional que aceitou e se beneficiou do consenso global.

"Para alguém do mesmo nível que ele, falar em termos tão contundentes sobre a mudança histórica que estamos vivenciando e o papel minoritário que os países europeus e o Canadá desempenham nesse contexto, acho que foi isso que os abalou e que teve tanta repercussão", observa o especialista.

"Eles sabiam que o sistema multilateral dependia, em última análise, da vontade deles, mas se submeteram enquanto se beneficiavam, e agora que deixaram de se beneficiar, estão fazendo essa confissão", explica o especialista.
"Eles gostariam de continuar se beneficiando desse sistema hipócrita, mas quando ele se volta contra eles, precisam recorrer à Europa" para assumir um papel de liderança na formação da nova ordem global, conclui Prado Jaimes.
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