O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou nesta terça-feira (27) para a Cidade do Panamá, onde ocorrerá o Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe 2026, organizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.
Desde antes da aplicação de tarifas pela Casa Branca, o governo brasileiro vem procurando ampliar a abertura de
novos mercados e fortalecer a integração regional. Com os avanços norte-americanos sob a América Latina, em uma nova Doutrina Monroe, a busca se tornou ainda mais urgente.
Neste ponto, aparece o Panamá, que oficializou em 2024 sua entrada como Estado associado do Mercosul, bloco comercial composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A iniciativa não só fez crescer o comércio entre Brasil e Panamá em 78% no ano passado, alcançando US$ 1,6 bilhão, como também consolidou a expansão do grupo para a América Central.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Rodrigo Lyra, professor adjunto de relações internacionais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que a integração entre as Américas do Sul e Central é complexa pois as regiões "vivem inserções internacionais bastante distintas".
A América Central sofre
influência, econômica e política, direta e constante dos Estados Unidos, explica Lyra, o que limita o espaço de manobra dos países da região para aderirem a projetos que tenham qualquer grau de autonomia estratégica.
A última declaração foi adotada por "consenso suficiente", e não por unanimidade, lembrou ele. "Argentina, Paraguai e Nicarágua se recusaram a assinar o texto final, o que, na prática, fragilizou politicamente toda a declaração".
Ele destaca que a declaração final criticava sanções econômicas unilaterais e a guerra comercial, em uma referência às políticas de Washington, e para os países mais alinhados, esse tipo de posicionamento extrapola os limites que estariam dispostos a endossar no plano regional.
Em análise semelhante a de Lyra, o professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Félix Pablo Friggeri aponta que a dificuldade de integração da região passa por três grandes obstáculos.
O primeiro é a falta de infraestrutura. Tradicionalmente a a região latino-americana e caribenha, foi pensada, desenhada, construída e orientada para a exportação primária, visando os
países hegemônicos, primeiro Inglaterra e Europa, depois os Estados Unidos.
O segundo é a falta de interesse político, motivação chave para que a orientação do comércio exterior dos países dê importância ao comércio intrarregional.
O terceiro é a carência de uma estrutura institucional que sustente todo esse processo. Segundo o especialista, exemplos como a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), a CELAC e o próprio Mercosul passaram por tentativas de diminuição, mas sobreviveram. Já a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL),
foi "destruída".Entretanto, os entrevistados salientam que as ações protecionistas e ameaçadoras do governo estadunidense na região, como a invasão à Venezuela,
o sequestro de Nicolás Maduro, presidente e sua esposa Cília Flores, e a tomada do setor de
petróleo venezuelano pode impulsionar alternativas de intercâmbio comercial regional.
O pragmatismo pode, em certos momentos, superar a ideologia, dizem ambos os especialistas, especialmente se a conjuntura favorecer um alinhamento regional.
Um exemplo é o
acordo Mercosul-UE, que uniu governos de espectros diferentes em torno do objetivo comum de ampliar mercados, atrair investimentos e criar incentivos à modernização produtiva. Segundo Lyra, o acordo cria mecanismos formais de defesa comercial, salvaguardas e reequilíbrio de concessões.
"Ele oferece instrumentos concretos para reagir a medidas unilaterais que prejudiquem os ganhos negociados. Quanto maior o grau de institucionalização do bloco, maior a sua capacidade de reduzir vulnerabilidades externas", explica Lyra.