Os primeiros contatos internacionais que o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, fez nas semanas seguintes à sua vitória eleitoral incluíram vários de seus aliados naturais na região. Além de visitar o presidente argentino Javier Milei no dia seguinte à sua eleição, Kast também se reuniu nos últimos meses com outros líderes de ideologia política semelhante, como Daniel Noboa, do Equador, José Jerí, do Peru, e, mais recentemente, Luis Abinader, da República Dominicana, e Rodrigo Paz, da Bolívia.
Contudo, o presidente chileno decidiu incluir o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em sua agenda de encontros, uma mudança em relação ao estilo conservador que caracteriza Kast e sua estreita relação com o atual presidente do Chile, Gabriel Boric, nos últimos anos.
"Concordamos que esta é uma relação entre Estados, acima de quaisquer diferenças ideológicas que possam ter existido durante a campanha. É diferente quando se representa um país", declarou Kast à imprensa após o encontro com o líder brasileiro, posando para fotos com ele e até mesmo recebendo um broche com a bandeira brasileira, presente do petista.
Pragmatismo e desideologização
Em entrevista à Sputnik, o analista internacional chileno Juan Eduardo Mendoza considerou que o encontro entre Kast e Lula deveria ser enquadrado em uma tradição "pragmática e não ideológica" da política externa chilena, que, por ora, o presidente eleito do Chile busca manter.
"O encontro com Lula é um gesto poderoso de Kast, demonstrando a disposição de priorizar os interesses do Estado, como segurança, comércio e integração regional, em detrimento de afinidades doutrinárias", avaliou o especialista.
Nesse sentido, Mendoza enfatizou que existem razões suficientes para Kast concordar em se encontrar com Lula, apesar das diferenças políticas, visto que o Brasil é "um parceiro estratégico" do Chile tanto no comércio quanto na definição de projetos de integração, como o corredor bioceânico e as políticas de segurança.
Para o analista político Simón Rubiños Cea, a postura adotada por Kast após o encontro com Lula, de certa forma, confirma algumas das posições que o líder do Partido Republicano do Chile assumiu durante a campanha eleitoral, quando "se distanciou de toda a identidade e agenda ideológica" que, até então, o colocavam na mesma categoria de outros líderes conservadores da região, como o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Rubiños Cea destacou que Kast optou por se apresentar nesta campanha eleitoral mais como "um pai que veio para salvar a nação" dos problemas de segurança que os chilenos identificaram como sua principal preocupação. No entanto, essa mudança de postura não dissipa a incerteza sobre as posições que Kast adotará após 11 de março, quando assumir o Palácio de La Moneda.
"Não se pode afirmar com certeza se Kast continuará com esse distanciamento após 11 de março ou se, uma vez no poder, ele retomará toda essa agenda e essa batalha cultural que caracteriza a direita globalmente", enfatizou o cientista político.
De fato, Rubiños Cea lembrou que Kast também optou por viajar especificamente a El Salvador para se encontrar com o presidente daquele país, Nayib Bukele. Portanto, ele não descartou a possibilidade de que Kast volte a se mostrar mais próximo desse tipo de líder quando estiver no Palácio de La Moneda.
Mendoza, por sua vez, aventurou-se a dizer que Kast "terá seu próprio estilo" e considerou "um erro" compará-lo a outros líderes como Milei ou Noboa. Nesse sentido, observou que o próximo governo chileno enfrentará os desafios de alcançar a "estabilidade econômica" por meio de investimentos estrangeiros e de melhorar a segurança através da cooperação regional em questões migratórias.
Esses objetivos, ressaltou o especialista, exigirão que Kast demonstre "pragmatismo e uma visão de estadista" que facilite a integração regional.
Uma política externa racional que não se esqueça da China e dos BRICS
Outro indício do perfil da política externa de Kast reside na decisão de confiar o Ministério das Relações Exteriores a Francisco Pérez Mackenna, um engenheiro de negócios e empresário chileno de 67 anos que até então atuava como CEO da Quiñenco, um dos maiores conglomerados empresariais do país, e como diretor da Câmara de Comércio Chileno-Americana (AmCham).
Para Mendoza, a trajetória de Pérez Mackenna pode "favorecer uma política externa orientada para resultados econômicos, investimentos e estabilidade, em vez de definições ideológicas rígidas". Assim, embora o novo ministro das Relações Exteriores possa demonstrar uma "preferência estratégica pelos EUA", é provável que ele também "mantenha laços adequados e funcionais com o Brasil, a China e os países do BRICS".
Rubíños Cea também expressou confiança de que a política externa de Kast será estruturada "a partir de uma perspectiva racional" e "não será guiada por ideologia, o que poderia aproximá-lo do governo dos EUA". Segundo o analista, Kast chegará ao poder com o precedente do próprio Milei, que, apesar de anunciar um rompimento nas relações com a China, continua priorizando o relacionamento com Pequim devido à sua importância como parceiro comercial.
"O bom senso deve prevalecer porque o Chile mantém extensas relações comerciais com a China e, por exemplo, a matriz energética chilena depende fortemente de investimentos do gigante asiático. Portanto, [em caso de ruptura nas relações] teríamos que ver como renegociar esses contratos", explicou Rubiños Cea.
No entanto, esse pragmatismo também pode representar dores de cabeça para o governo Kast, que precisa do apoio de outros partidos de direita para aprovar leis em um período que o próprio presidente eleito descreveu como de "emergência".
Para Rubiños Cea, a maior incógnita pode estar no Partido Nacional Libertário, liderado pelo ex-candidato à presidência Johannes Kaiser.
"É um partido muito extremista em suas posições, e qualquer ação tomada em nome do bom senso e das relações internacionais, em vez da busca por uma vitória ideológica, poderia ser considerada equivocada", alertou.
Mendoza considerou que pode haver tensões dentro da direita chilena devido a "decisões específicas em votações internacionais ou posições em organizações multilaterais", embora estivesse confiante de que a tradição política chilena "conseguiu unir o mais amplo espectro político" em torno de causas como os julgamentos em Haia com o Peru e a Bolívia.