Durante visita ao Brasil, o chefe do Estado-Maior da Marinha indiana, Almirante Dinesh K. Tripathi, aprofundou a relação militar entre Brasília e Nova Deli, reforçando os laços entre as Marinhas dos dois países-membros do BRICS.
Na ocasião, foi assinado um memorando de entendimento, publicado nas redes sociais por um porta-voz da Marinha indiana, que define a relação cooperativa triangular entre as forças navais do Brasil, da Índia e o estaleiro indiano Mazagon Dock Shipbuilders Limited, localizado em Mumbai. O documento prevê o fortalecimento da cooperação indo-brasileira entre agências governamentais e a indústria de defesa, além de facilitar o compartilhamento de experiências em manutenção, treinamento e logística.
A iniciativa reforça a parceria estratégica entre os dois países e amplia as oportunidades de intercâmbio técnico e operacional entre suas Marinhas. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam a importância estratégica do memorando de entendimento para ambos os países.
Maria Fernanda Császár, bacharel em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), destaca que a parceria entre as Marinhas do Brasil e da Índia já vem acontecendo há um tempo e cita como exemplo o IBSAMAR (sigla em inglês para India-Brazil-South Africa Maritime Exercise), exercícios militares bilaterais e multinacionais iniciados em 2008, que ocorrem a cada dois anos. Porém, ela afirma que recentemente essa aproximação se tornou mais intensa.
No caso do memorando atual, ela diz que o foco principal é aprofundar a cooperação que já existe e facilitar o acesso da Marinha brasileira e da Marinha indiana às tecnologias que já tem em cada um dos países.
"É um memorando tripartite. Ele envolve a Marinha indiana, envolve a Marinha brasileira, mas envolve também a indústria indiana, que é o estaleiro Mazagon. Esse estaleiro é o estaleiro responsável pelo programa de submarinos Scorpene da Índia. Então, ele traz uma bagagem institucional, uma bagagem operacional, um know-how muito grande", afirma.
Császár acrescenta que a troca de técnicas e boas práticas têm o potencial de melhorar a capacidade operacional das frotas de submarino, tanto da Índia quanto do Brasil, e de aprofundar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia conjunta.
"Isso é muito importante de frisar porque não é só um país enviando tecnologia e o outro recebendo. São os dois caminhando lado a lado para entenderem qual é o melhor jeito, quais são as falhas, quais são as oportunidades que se tem para melhorar os seus programas submarinos."
Ela afirma que o fato de o memorando ter sido assinado entre duas potências emergentes faz com que seja recebido com menos sensibilidade e de uma forma mais positiva por países vizinhos do Brasil.
"Talvez se fosse feito com potências que são um pouco mais sensíveis, com países que têm um pouco mais de sensibilidade na região, isso poderia gerar um sentimento de 'Por que com o Brasil e não comigo?'. Até porque tem outros países que têm programas submarinos aqui", explica.
Já na região do Índico, Császár afirma que a iniciativa não terá um desdobramento tão grande, pois Brasil e Índia não costumam fazer alianças militares nem têm esse alinhamento estratégico direto.
"Não é o tipo de política externa que a gente tem, não é o tipo de acordo que a gente tende a fazer. Então, os desdobramentos que tem ali são muito mais para fortalecimento da indústria naval indiana e também para a promoção do país, da Índia, como uma potência naval que tem uma diplomacia efetiva."
Ela acrescenta que o memorando sinaliza que a Índia quer fortalecer mais essas parcerias de segurança no âmbito do BRICS, ainda que seja bilateralmente.
Entre os obstáculos a serem superados pela iniciativa está a questão da escala, uma vez que a Marinha indiana opera em uma escala muito maior que a brasileira e com outros padrões técnicos. Segundo Császár, há um esforço para adaptar a experiência indiana à escala brasileira e para trazer os padrões técnicos indianos para a nossa realidade.
"A nossa indústria, em geral, ela precisa ser fortalecida, ela precisa ser incentivada. E o exemplo da indústria indiana com o esforço de nacionalização, o esforço de produzir domesticamente, desde a indústria de defesa até os bens de consumo, isso é uma coisa que é interessante da gente olhar e da gente tentar aprender", afirma.
A cooperação entre Brasil e Índia eleva a confiança entre dois parceiros fundadores do BRICS com menor peso político e estratégico, como aponta Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), escritor e analista de organizações militares.
"Brasil é o menor dos quatro primeiros, a África do Sul, ingressando depois, ela não tem também potencial geopolítico, que a gente poderia colocar assim. Mas o Brasil e a Índia, perto de Rússia e China, estão um pouquinho atrasados em termos de desenvolvimento tecnológico, desenvolvimento nuclear também. Então isso favorece uma cooperação, um fortalecimento de laços entre os parceiros menores do BRICS."
Segundo ele, a cooperação coloca Brasil e Índia em uma parceria para desenvolvimento de tecnologias e manutenção da sua classe de submarinos Scorpene, adquiridos da França, facilitando o intercâmbio dessas duas Marinhas na promoção de uma cultura naval que possa possibilitar uma melhor gestão desses recursos, desses ativos, também conhecimento.
"Isso gera uma confiança mútua, gera uma parceria entre dois parceiros ali que são importantíssimos no mundo, que vem se configurando bastante tenso e intenso nesse começo do século XXI", afirma.
Teixeira acrescenta que Brasil e Índia "têm condições de serem complementares na área de defesa" e que parcerias desse tipo entre dois países que buscam ativos com certa independência de uso favorecem operacionalidade soberana desses meios, diferentemente do que ocorre em parcerias com os EUA, por exemplo, nas quais os ativos vêm com uma série de restrições para uso, com peças de reposição escassas. No entanto, o Brasil ainda está um pouco atrasado em relação ao processo de tecnologia de defesa indiana.
"Nós temos condições de produzir alguns equipamentos que a Índia não faz, mas o que a Índia produz hoje, onde ela avançou em algumas áreas, é um desejo do Brasil. [...] Então, há uma certa complementaridade, mas em algumas áreas, como tecnologia nuclear, que a Índia é um país com capacidade nuclear militar, o Brasil almejou isso e nunca conseguiu chegar."
Ele enfatiza que ter um submarino nuclear é um projeto da Marinha desde 1979, e a Marinha indiana já está indo para o quarto submarino nuclear operacional, sendo que um deles é alugado da Rússia".
"Então, eu imagino que a Índia seria o que o Brasil gostaria de ser em termos militares de capacidade. Lógico que tem algumas deficiências graves ainda na Índia, mas em aspecto de defesa, o Brasil almeja muitas coisas que a Índia já tem", afirma.
Teixeira observa ainda que a aproximação militar entre Brasil e Índia pode não ser bem-vista pelos EUA, que podem promover certos desenlaces para desequilibrar a parceria. Ele explica que os EUA se tornaram um grande fornecedor de armamento para a Índia visando contrabalancear o poder no Indo-Pacífico. Isso pode ser usado para influenciar a Índia a não adquirir do Brasil equipamentos de defesa do interesse de Nova Deli, como aviões de transporte militares, afetando vendas do KC-390, da Embraer.
"A Índia, por exemplo, tem interesse em comprar uma aeronave de carga, um transporte militar, e o KC-390 é um dos grandes competidores na área. [...] Nesse sentido, eles podem pressionar os indianos a não fazer uma parceria, não elevar as relações com o Brasil, vendendo para eles o Hércules ou outro avião que promova essa indústria norte-americana e não a brasileira."