Em um
encontro repleto de expectativas e também apreensões, o presidente colombiano foi recebido no início do mês pelo homólogo dos Estados Unidos,
Donald Trump, na Casa Branca. Mas, diferentemente do que muitos esperavam, houve troca de afagos nas redes sociais entre as duas figuras, que chegaram a trocar presentes. "Nos demos muito bem", declarou o líder estadunisente, enquanto Petro afirmou gostar de "gringos francos" e ressaltar que "não há necessidade de confrontos".
A reunião à portas fechadas ocorreu após meses de
tensões entre os dois governantes, marcadas pela total oposição de Petro à nova política contra o
narcotráfico na América do Sul movida pelo governo norte-americano, usada como justificativa para ataques contra barcos venezuelanos e a posterior invasão do país
para sequestrar Nicolás Maduro, ao mesmo tempo em que Trump ameaçava fazer o mesmo na Colômbia. Aliado a isso, o país sul-americano vive um momento decisivo em 2026: as eleições presidenciais, em que o presidente tenta fazer um sucessor para a continuidade do inédito projeto político de esquerda —
Petro foi o primeiro desse campo a vencer uma eleição.
O professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso) e especialista em história da Colômbia,
Eduardo Gomes, defende ao
podcast Mundioka, da
Sputnik Brasil, que o encontro amistoso ajudou — ao menos momentaneamente — a acalmar os ânimos na Colômbia.
"De fato, com esse ataque e essa intervenção militar estadunidense na Venezuela, outras nações latinoamericanas passaram também a ser alvos. E a Colômbia, de pronto, foi a primeira que Donald Trump lançou verbalmente ameaças. Isso influencia não só a diplomacia, como também o cenário interno do país. E é claro que todas essas declarações geraram uma conturbação", contextualiza.
Aliado a isso, Petro tem enfrentado problemas com o
Congresso colombiano que dificultam a aprovação de reformas, principalmente sobre o formato liberal do Estado — um exemplo é a administração do sistema de saúde do país realizado por empresas privadas. No fim do ano passado, a
popularidade do presidente chegou a menos de 40%, a nona pior em um ranking que avalia dez países da América do Sul.
Para o especialista, o afastamento do governo colombiano de um dos parceiros históricos do país, os Estados Unidos, também contribuiu para o agravamento da situação eleitoral. Contudo, Gomes vê como "reversível" esses danos após o encontro .
De acordo com o especialista, esse resultado foi muito importante internamente, já que as relações diplomáticas entre os dois países sempre foi estreita. "Esse encontro também cortou, pelo menos momentaneamente, qualquer risco de uma intervenção militar possível após o ataque à Venezuela, em que se retomou aquele imperialismo que remetia à doutrina Monroe", acrescenta.
Impedido de buscar um segundo mandato por conta da legislação colombiana que impede a reeleição, as forças governistas vão definir o nome vai concorrer nas eleições previstas para 31 de maio somente nas primárias de março. Mesmo sem conseguir cumprir todas as promessas, o professor Eduardo Gomes lembra que quatro anos é um período insuficiente para mudar um projeto de país que vingou por décadas.
"A Colômbia, historicamente, é marcada pela transição entre os partidos Liberal e Conversador, inclusive teve alguns presidentes que dialogavam mais no campo do liberalismo da esquerda, enquanto outros permaneceram na centro-direita. Esse vai e vem aconteceu durante muito tempo, mas a continuidade para cada um desses projetos ser mantido sempre foi um problema muito grande", pontua.
E a falta de governabilidade, segundo Gomes, deve ser usada em peso pela oposição, que já definiu o nome da congressista Paloma Valencia, ligada ao partido do ex-presidente Álvaro Uribe, para concorrer ao pleito. "A não aprovação de reformas pode ser explorada como um sinal de ineficiência mas, por outro lado, se a narrativa do governo for bem feita, a base tende a atribuir ao Congresso o bloqueio, ou seja, a velha história da governabilidade", conclui, ao citar ainda que, assim como no Brasil, a guerra de narrativas no pais também tem como ponto chave os impactos das notícias falsas e o uso da inteligência artificial.
Já a professora de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),
Fernanda Nanci, pontua ao podcast Mundioka que os
Estados Unidos esperam da Colômbia um alinhamento total, a exemplo do que ocorreu em outros momentos da política do país, principalmente durante o governo Uribe.
Além disso, Nanci explica que a Colômbia ainda é "extremamente dependente também da economia dos Estados Unidos", apesar da China ter se despontado nos últimos anos como uma das principais parceiras na política externa conduzida pelo governo Petro.
"A direita colombiana afirma que Gustavo Petro não está sabendo conduzir a política externa e que está criando problemas com a principal potência, com o principal aliado. Então, realmente isso se torna um elemento que é um prato cheio para ser usado nas próximas eleições presidenciais, exatamente porque mostra que, externamente, a imagem de Gustavo Petro está sendo negativa, correlacionada a grupos do narcotráfico, já foi associada, por exemplo, a apoio ao [presidente venezuelano Nicolás] Maduro e assim por diante", finaliza.