Panorama internacional

Londres e Ottawa próximos à Pequim é perigoso, sim, mas para os EUA, dizem analistas

Ao comentar a visita do primeiro-ministro britânico Kevin Stramer à Pequim, o presidente dos EUA, Donald Trump, se referiu ao episódio como "muito perigoso". Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, especialistas avaliam a movimentação feita no tabuleiro das grandes potências.
Sputnik
Para Marcos Vinicius Figueiredo, professor de relações internacionais do Ibmec Rio, o chefe da Casa Branca vende o discurso de que a aproximação com a China é perigoso para o Reino Unido e para o Canadá, quando, na verdade, pode apresentar riscos para os próprios Estados Unidos.
"Não há nenhum perigo para o Reino Unido nem para o Canadá fazerem esse movimento. Mas os EUA do Trump interpretam esse movimento como desinteressante para eles". A realidade é que este movimento de Londres e Ottawa pode representar o acesso chinês a setores sensíveis como tecnologia, infraestrutura crítica, dados e energia, o que preocupa os EUA.
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Por outro lado, os parceiros anglófonos, segundo os analistas, buscam por estabilidade, algo que o governo Trump não vem garantindo.
Alexandre Coelho, coordenador do curso de pós-graduação em política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e ex-consultor jurídico do Banco da China, ressalta que, enquanto "Washington fica alterando as tarifas com ameaças e sanções, uma hora com relação 100% contra um país, 10% contra outro", Pequim apresenta uma continuidade contratual nos projetos econômicos.

"Os EUA não conseguem mais dar essa previsibilidade", atesta.

Nesse sentindo, acrescenta o especialista, "para o mercado financeiro internacional e para a indústria internacional, a previsibilidade é fundamental".
Figueiredo completa, também, dizendo que "apesar da diferença do ponto de vista civilizacional, cultural que exista entre China e os países ocidentais, como o Reino Unido e Canadá", Pequim é capaz de prover uma certa estabilidade e refúgio "num sistema internacional que acabou ficando mais convulsionado".
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Mundo multipolar está sendo colocado em prática?

Questionados se multipolaridade deixou de estar presente apenas nos discursos, como um lugar a ser alcançado geopoliticamente, para uma realidade pronta, ambos analistas afirmam que este novo cenário já se impõe e respostas tem sido dadas.
De acordo com Coelho, do ponto de vista comercial e econômico a multipolaridade é, sim, uma realidade manifesta. Por outro lado, no âmbito militar, o mundo ainda é unipolar.
"A gente precisa olhar onde é que está essa multipolaridade. No setor militar, por exemplo, ela não existe, porque os Estados Unidos ainda são a maior potência militar do mundo, mesmo com China e Rússia investindo e tendo armas nucleares", explica.
Já Figueiredo, por sua vez, atesta que o mundo já não é mais unipolar e ressalta: "como é que os Estados Unidos vão lidar com isso?"

"O discurso de 'Make America Great Again' é um sintoma de que eles já reconhecem que não são tão grandes", destaca.

Ou seja, segundo ele, já há o reconhecimento interno nos Estados Unidos que o país terá que compartilhar poderes. Entretanto, a sobreposição da multipolaridade racha instituições multilaterais que foram criadas sob a liderança norte-americana.
"As Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio, instituições que têm uma dimensão global tendem a perder muita força exatamente pelo fato de que esse mundo tem muitos polos, então é muito difícil chegar a um consenso. É uma coisa que nós temos observado", finaliza.
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