Entrando no quarto dia de hostilidades entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e Irã, do outro, os atores do conflito parecem se preparar para um confronto mais duradouro, com todos ameaçando escalar ainda mais os ataques.
Ao programa Entretanto da Rádio Sputnik Brasil, o doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Jhonathan Mattos, afirma que vê que a Rússia pode ajudar a buscar soluções para a situação no Oriente Médio.
"A Rússia possui autoridade e isso é indiscutível. O Irã é um parceiro estratégico da Rússia."
Segundo Jhonathan, ao contrário do que muitos pensam a Rússia não se alinharia automaticamente com o Irã e interferiria na guerra ao seu lado. Pelo contrário, ele descarta o envio de militares russos.
Já Raphael Machado, analista geopolítico e comentarista do programa Entretanto destacou para a mudança na duração da previsão do conflito. "Essa mudança na previsão de duração do conflito já indica que algo saiu errado."
A princípio, a Casa Branca afirmou que esperava uma operação de quatro dias, porém agora o presidente Donald Trump já mudou o discurso e disse que a projeção é de quatro a cinco semanas, e que os Estados Unidos têm capacidade para ir além. Já Tel Aviv passa a considerar que o conflito se estenda até meados de abril.
"O cálculo básico ali era de que, ao realizar um ataque de decapitação contra o Irã, isso faria o regime iraniano colapsar, se render ou buscar uma negociação, evitar um enfrentamento militar. Ou, quem sabe, isso levaria manifestantes hipotéticos e imaginários a tomarem o poder ou algo nesse sentido", analisa Machado.
O analista recorda, também, que tanto na Guerra dos 12 dias quanto nos ataques iniciados no sábado (28), a ofensiva militar norte-americana e israelense começou durante negociações com o Irã, que demorou pelo menos um dia para responder as retaliações.
"Os EUA utilizaram negociações como máscara, como uma cortina de fumaça para distrair o adversário e talvez fazer com que ele baixasse a guardas. Talvez os iranianos não devessem ter confiado uma vez mais em negociar com os EUA, considerando o precedente utilizado pelos EUA e por Israel", avaliou.
Apesar do voto de desconfiança a ser dado, Machado ressalta que o governo iraniano sempre fez questão de demonstrar que eles querem a paz e querem uma solução diplomática para as suas controvérsias.
"O aiatolá Khamenei, ele notoriamente historicamente, sempre foi um homem diplomático, pouco belicoso, pacifista. Ele era o principal obstáculo, por exemplo, a aquisição de armas nucleares pelo Irã. Ele insistia em negociações e insistia no diálogo com o Ocidente, no diálogo com os EUA. É por isso que o Irã aceitou essa nova rodada de negociações, apesar do precedente", afirmou.
O líder supremo do Irã foi assassinado em um bombardeio conjunto de Israel e dos Estados Unidos contra sua residência. À repórteres, nesta segunda-feira (2), o embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, confirmou que Khamenei se recusou a ir para um bunker de segurança mesmo sob ameaça.
Para Machado, o Irã, ao responder as retaliações, demonstrou sua força aos Estados Unidos e Israel que, de acordo com ele, no atual momento geopolítico, "só entendem a linguagem da força, mesmo que eventualmente se parta para negociações".
"Eventualmente, o Irã vai ter que negociar. Não faz sentido para o Irã aceitar negociações sem antes demonstrar a sua força, porque é necessário impor um custo alto aos EUApara eles entenderem que o Irã não possui as mesmas fragilidades que alguns outros países, como a própria Venezuela, que sofreu ali um ataque e uma operação de sequestro, mas não esteve em condições de reagir da mesma maneira que o Irã", finalizou.