O governo iraniano encara a morte de seus líderes como um custo aceitável para garantir a sobrevivência da Revolução Islâmica, o que desafia diretamente a estratégia norte-americana baseada na imprevisibilidade. Enquanto Donald Trump aposta na pressão e no caos controlado, Teerã opera com uma lógica de sacrifício e resistência que reduz o impacto político de assassinatos de alto escalão.
A resposta iraniana aos ataques dos EUA e de Israel segue um planejamento minucioso, construído desde 2023, que inclui retaliações contra países do golfo e ameaças ao estreito de Ormuz. Observadores internacionais afirmam que a tática, embora arriscada, busca criar instabilidade suficiente para forçar negociações — mesmo que isso possa aproximar Emirados, Arábia Saudita e Catar do bloco americano-israelense.
De acordo com a Folha de S.Paulo, esses países, antes vistos como polos de estabilidade, agora gastam milhões em mísseis Patriot para interceptar drones iranianos baratos, arriscando sua imagem de segurança. Ao mesmo tempo, a escalada pressiona Washington, que enfrenta soldados mortos, inflação alimentada pelo petróleo e desgaste político em ano eleitoral.
Trump entrou no conflito sem um objetivo claro, alternando justificativas que vão do desmonte do programa nuclear iraniano à mudança de regime. Já o Irã, segundo seus líderes, preparou-se para uma guerra longa, descentralizando decisões militares e criando múltiplas camadas de substitutos para evitar colapsos na cadeia de comando.
Desde junho, Teerã reorganizou sua estrutura militar para permitir que comandantes atuem de forma independente, reduzindo o impacto de assassinatos direcionados. O regime também montou quatro níveis de sucessão para suas lideranças, garantindo continuidade mesmo sob ataques intensos.
A morte do aiatolá Ali Khamenei pode ter feito parte desse cálculo. Analistas consultados pela Folha sugerem que ele teria aceitado o risco de ser morto para se tornar mártir, reforçando a narrativa de resistência. A devoção do líder ao sacrifício do imã Hussein, figura central do xiismo, reforça essa interpretação, segundo a mídia.
Ainda assim, a estratégia tem limites, afirma a mídia. Se EUA e Israel continuarem eliminando sucessores à medida que surgem, a cadeia de comando pode se desorganizar. Mas, por ora, não há oposição interna capaz de assumir o poder, e o regime mantém forte repressão a protestos.
Trump chegou a sugerir que o Irã poderia seguir o modelo da Venezuela, onde a liderança remanescente cedeu às pressões norte-americanas. Porém, o próprio presidente admitiu que muitos possíveis sucessores iranianos já foram mortos — e que o próximo líder pode ser ainda mais radical.