"O estreito de Ormuz é o principal gargalo do sistema energético global no curto prazo. Na minha avaliação, esse eixo vem se deslocando para a Ásia por alguns motivos dentre os quais: o aumento da demanda, especialmente na Índia e China e devido a novas parcerias como os fluxos entre a Rússia e Ásia com projetos de infraestrutura pensados para esse fim com gasodutos terrestres e até rotas pelo Ártico", disse.
"Ao que parece, os Estados Unidos não acreditavam que o Irã tivesse essa capacidade de resposta e de retaliação e o que se observa, então, é uma gradual erosão, digamos assim, das suas capacidades em garantir a segurança das rotas energéticas globais, o que tradicionalmente sustentava sua hegemonia na geopolítica de energia e nos mercados energéticos de uma maneira geral", comenta.
Rússia e China na vanguarda da transição energética
"Desde o início desse século, mas sobretudo ali a partir de meados dos anos 2010, Rússia e China vêm construindo estruturas multilaterais para esse fim. A própria Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que nasce com o objetivo de combater o terrorismo e o separatismo, passou também a operar na pauta da diversificação de parcerias no setor energético", pontuou.
"A China tem vulnerabilidades energéticas, sobretudo em relação às importações de combustíveis do Oriente Médio e busca infraestruturas como gasodutos e oleodutos para contornar esses problemas. Já a Rússia também diversifica seus parceiros e é uma parceira-chave aos planos chineses por ter projetos como o Power of Siberia [Força da Sibéria] que vai ampliar o gás russo para a economia chinesa", discorre.
Casa Branca e a 'política externa esquizofrênica'
"A política externa da Casa Branca está um pouco esquizofrênica, termo que creio que seja apropriado nesse momento. Os EUA, ao cercarem a China a partir de seus parceiros, acabam resolvendo seu próprio problema. Apesar de ainda serem protagonistas no mercado energético, essas ações aceleram uma tendência de fragmentação da centralidade norte-americana no setor e no sistema internacional", observa.
"Quando os Estados Unidos se desgastam cada vez mais na região e passam a ser considerados uma fonte de conflitos e de instabilidade, a China emerge como uma fonte de estabilidade como mercado para exportação, e isso reforça novamente a sua projeção, não somente no Oriente Médio, mas nas relações internacionais como um todo", conclui.