A principio, após o ataque de 28 de fevereiro, realizado por EUA e Israel ao território iraniano, a Casa Branca afirmou que esperava uma operação de quatro dias. Porém, poucos dias depois, o presidente Donald Trump já mudou o discurso e projetou de quatro a cinco semanas, enquanto Tel Aviv passou a considerar que o conflito se estendesse até meados de abril.
Agora, um mês após a grande ofensiva — que, logo no primeiro dia, matou entre 168 e 175 alunas, com idades entre sete e 12 anos em uma escola primária —, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou em declarações recentes que Israel continuará a atacar seus inimigos "em todas as frentes", ao passo que teme, segundo o portal Axios, um acordo entre EUA e Irã antes de atender aos interesses de Israel.
Os Estados Unidos, por sua vez, parecem inclinados a negociar. Em outra oportunidade, cerca de duas semanas atrás, Trump afirmou que os norte-americanos venceram o conflito no Irã, mas que continuariam lutando. Com o passar dos dias, o tom passou a ser em busca de um acordo. O chefe da Casa Branca chegou a dar declarações admitindo a possibilidade de negociações e que as conversas já teriam sido abertas, mas a segunda parte foi negada por Teerã.
Nesta sexta-feira (27), o enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff, afirmou que os EUA esperam que ocorra uma reunião com o Irã nesta semana. Na quinta-feira (26), ele já havia afirmado que um plano de paz de 15 pontos foi encaminhado ao Irã por meio do Paquistão.
Os indicativos recentes, portanto, apontam para a busca por negociação. Em entrevista à Sputnik Brasil, há algumas semanas, Williams Gonçalves, professor de relações internacionais aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destacou que talvez a única saída para Trump de um conflito que ele mesmo inventou seja aceitar a mediações de terceiros para tentar negociar com o Irã.
Negativas ao tentar formar coalizão
Durante este mês de guerra, o governo norte-americano instou aliados a intervirem no estreito de Ormuz para desobstruírem a passagem, que passou a ser controlada a partir da força por Teerã.
Trump chegou a cobrar apoio de Coreia do Sul, Japão, França, Reino Unido e, até mesmo, da China para atuarem sobre o canal. Entretanto, recebeu apenas negativas.
A França escolheu permanecer com uma postura defensiva e orientada à proteção, sem alterações em seu caráter. Por sua vez, a ministra das Forças Armadas da França, Catherine Vautrin, observou que Paris atribui importância primordial a uma iniciativa diplomática relativa ao estreito de Ormuz.
Já uma fonte do Ministério das Relações Exteriores japonês afirmou que Tóquio não enviaria navios apenas "porque Trump solicitou".
A Alemanha chegou a anunciar apoio no estreito, mas declinou em sequência, afirmando que uma decisão nesse sentido não era prioridade no momento, já que o primeiro passo seria alcançar um cessar-fogo e avaliar as necessidades no terreno. O Reino Unido, por sua vez, respondeu com negativa publicamente outra demanda dos Estados Unidos: o uso de bases aéreas de Londres no Oriente Médio para atacar instalações energéticas do Irã.
Perdas econômicas
A mudança na dinâmica no estreito de Ormuz condicionou a impactos econômicos no mundo inteiro, o que levou, inclusive, aos próprios Estados Unidos levantarem temporariamente sanções contra o petróleo russo e iraniano.
Para o Irã, a situação acabou sendo um tanto positiva. Se até o final de fevereiro a produção diária de petróleo na república islâmica era de cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo cru e condensados, o que significava o equivalente a 4% da oferta global do produto, depois da ofensiva de EUA e Israel, o controle do Irã passou a ser de 20% do petróleo mundial.
Por outro lado, o bloqueio do canal marítimo pode ser traduzido em uma série de colapsos para outras partes do mundo. A Europa, por exemplo, corre o risco de ficar sem o gás natural liquefeito (GNL), segundo um conselheiro de Trump, o que pode agravar o problema energético na União Europeia.
"Devido ao bloqueio do estreito de Ormuz e aos preços extremamente elevados na Ásia, o GNL dos Estados Unidos irá para a Ásia, não para a Europa", disse George Papadopoulos, conselheiro de política externa da primeira campanha presidencial de Trump.
Ele afirmou também que o aumento vertiginoso no preço do petróleo pode afetar severamente a economia de Israel. Segundo o conselheiro, com o preço dos barris ultrapassando US$ 100 (cerca de R$ 526), um país com escassez energética como Israel terá que importar petróleo extremamente caro de outros mercados, o que poderá minar sua economia.
A pressão econômica também pode ser vista a partir de decisões dos próprios Estados Unidos no conflito. Pela segunda vez, os norte-americanos declinam de atacar instalações energéticas de Teerã, temendo as consequências para a economia mundial.
Debandada política
Uma das razões explicitadas por Washington e Tel Aviv para justificar o ataque a Teerã foi a suspeita de a república islâmica estar produzindo armas nucleares. A afirmação, questionada por muitos, foi o suficiente para causar uma implosão dentro da administração da própria Casa Branca.
O governo de Donald Trump perdeu o então diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, Joe Kent, que saiu dando declarações contundentes, entre elas, negando que o Irã possuía ou estava desenvolvendo armas nucleares.
Segundo Kent, a inteligência norte-americana não encontrou indícios de que o Irã estivesse perto de obter uma bomba nuclear.
Internamente, Trump sofre ainda com perda de apoio popular. Em pesquisa divulgada nesta semana pela Reuters, 36% dos entrevistados têm uma avaliação positiva da administração — queda de 4 pontos percentuais desde o levantamento da semana anterior. Esta é a pior avaliação desde o início do segundo mandato do republicano.
Por outro lado, Estados Unidos e Israel, ao assassinarem o antigo Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, ansiavam a queda do regime islâmico, que não se entregou e elegeu, através da decisão da Assembleia dos Peritos, Mojtaba Khamenei como novo líder supremo da nação islâmica, o que desagradou norte-americanos e israelenses.