Com isso, a República Bolivariana consolida sua posição como o país latino-americano e caribenho com o maior número de apresentações sobre o transporte seguro de materiais nucleares e radioativos.
'A delegação venezuelana é motivo de orgulho'
Para Gloria Carvalho, presidente e pesquisadora do CENDIT e representante da Venezuela junto à AIEA, a presença do país neste evento transcende a mera participação técnica. "Para nós, a delegação venezuelana é motivo de orgulho", enfatizou em entrevista à Sputnik, em Viena.
A conexão com o legado do ilustre cientista venezuelano Humberto Fernández Morán não é um detalhe menor para Carvalho. Suas palavras ressoam com a convicção de que a Venezuela carrega em seu DNA científico "os genes do sucesso", uma capacidade que se manifesta atualmente em desenvolvimentos tecnológicos concretos para a gestão de Fontes Radioativas Desativadas Seladas (FRDS).
"Este evento é o Congresso Internacional sobre o Transporte Seguro de Material Nuclear e Radioativo. São duas categorias diferentes e, embora a terminologia nem sempre nos seja familiar, a radioatividade está presente em todos os aspectos do nosso dia a dia, por exemplo, em raios-X, mamografias, tomografias computadorizadas, tratamentos de câncer, testes de identidade genética, e assim por diante", enfatizou Carvalho.
Inovação com toque humano
O trabalho que posicionou a Venezuela como líder regional na salvaguarda de material radioativo é resultado de um esforço contínuo durante o período de 2022-2025.Carvalho detalhou o escopo deste trabalho.
"Nós, do Ministério da Ciência e Tecnologia, fizemos um enorme esforço nos últimos três anos para coletar e, sobretudo, dar uma segunda vida, por assim dizer, a materiais nucleares e radioativos obsoletos. E desenvolvemos tecnologia associada a esse transporte, a essa transferência."
Entre as inovações apresentadas pela delegação venezuelana, destacam-se dois desenvolvimentos na área de telecomunicações, que automatizam processos críticos para a segurança física desses dispositivos: um sistema automatizado para o registro da movimentação de fontes radioativas seladas inativas (FRSD) e um serviço web para geolocalização durante o transporte.
Essas ferramentas permitem o monitoramento em tempo real e garantem a rastreabilidade de materiais que exigem o mais alto nível de proteção durante sua movimentação. Mas talvez uma das conquistas mais notáveis do talento venezuelano seja o desenvolvimento e a construção de contêineres do tipo overcontainer para a proteção e o transporte de cabeças de fontes seladas.
"Especificamente, desenvolvemos uma embalagem especial — esse é o termo técnico apropriado — para transportar o que antes eram fontes para teleterapia no tratamento do câncer. São as cabeças de cobalto", explicou Carvalho.
Esses contêineres, fabricados inteiramente com mão de obra venezuelana, reforçam as medidas de segurança, prevenção e resposta para a proteção física desses dispositivos, em total conformidade com os protocolos internacionais estabelecidos pela AIEA.
Oferta para o mundo
Um aspecto que distingue a participação da Venezuela nesta conferência é a filosofia por trás de seus desenvolvimentos tecnológicos. Carvalho enfatizou que duas das inovações apresentadas foram desenvolvidas utilizando software de código aberto, o que abre caminho para uma cooperação internacional sem restrições.
"Também desenvolvemos um software que permite o rastreamento automático da movimentação dessas cargas. Esses itens são categorizados globalmente e existem protocolos que devem ser seguidos. A Venezuela os cumpre à risca, mas além disso, desenvolvemos ferramentas de TI que nos permitem automatizar, por exemplo, o processo de relatórios", explicou.
A apresentação da Venezuela na AIEA não se limita à demonstração de tecnologias. O país também compartilhará com a comunidade internacional as lições aprendidas durante o período de 2022 a 2025 na gestão de Descarte Frequente de Carga (FRSD, na sigla em inglês), bem como estratégias nacionais para o transporte e armazenamento a longo prazo desses materiais.
"Por meio de todo esse extenso trabalho, aprendemos muitas lições que podem servir de guia para outras nações que possam estar enfrentando circunstâncias semelhantes."
Esse esforço posicionou a Venezuela como o país da América Latina e do Caribe com o maior número de apresentações na conferência, seguida por Argentina, Brasil, Cuba e Uruguai.