Panorama internacional

'Indo-Pacífico já é área de disputa e Índia aspira ser potência na região', diz analista (VÍDEOS)

Em meio à escalada da crise no estreito de Ormuz, o oceano Índico e seu entorno estratégico ganham ainda mais centralidade no cenário internacional. Em paralelo à tensão no Oriente Médio, atores regionais se movimentam: Nova Deli reforça sua presença militar enquanto Jacarta renova sua frota com um navio-aeródromo italiano, o Giuseppe Garibaldi.
Sputnik
Em um sistema-mundo cada vez mais conturbado, com conflitos em larga escala acontecendo, países que se situam no Indo-Pacífico já se preparam militarmente em caso de hostilidades na localidade.
Nesse ponto, Maria Fernanda Császár, bacharel em relações internacionais e pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), coloca a Índia como aspirante a ser uma potência por exercer a sua diplomacia naval através de exercícios conjuntos entre marinhas que acabam por engajar nações do Leste e Sudeste Asiáticos, em entrevista à Sputnik Brasil.

"A Índia é um dos principais atores da região e tem uma postura de se tornar o principal provedor de segurança e defesa no Indo-Pacífico, mas ainda há limites para isso, no entanto, há um esforço muito grande do governo indiano na modernização das suas Forças Armadas, principalmente de sua Marinha", disse.

Outro Estado que aparece nesse contexto como uma força militar emergente é a Indonésia, que recentemente adquiriu o navio-aeródromo modelo italiano e assinou um tratado de segurança com a Austrália. Para a internacionalista, embora a disputa regional ainda esteja mais no sentido diplomático e político, o crescimento militar acaba ocorrendo por necessidade de uma autonomia.

"Vejo a disputa que ocorre no Indo-Pacífico mais na esfera política, contudo há um desenvolvimento militar. O acordo entre Indonésia e Austrália representa a necessidade de diversificação de parceiros. Há uma percepção na região de que não se deve ficar sob o guarda-chuva de segurança dos EUA, pois isso gera insegurança e incerteza", comenta.

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Indo-Pacífico e seu peso geoestratégico

O que convencionamos compreender como Indo-Pacífico é um espaço geopolítico que articula os oceanos Índico e Pacífico, conectando diferentes continentes, Estados, interesses estratégicos e blocos político-econômicos, como a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês), e ainda há integrantes do BRICS nesse âmbito.
Trata-se de uma região marcada pela presença de potências emergentes e globais, por rivalidades regionais e por disputas em torno de rotas marítimas, segurança, comércio e influência, o que a transforma em um dos principais palcos da competição geopolítica contemporânea, conforme elucida Császár.

"O Índico já foi considerado a sombra de disputas do Pacífico e agora a gente vê uma integração maior do Índico com esses teatros de contestação e isso se dá em parte pelas rotas comerciais, cerca de 70% do petróleo mundial passam pelos estreitos que estão no Indo-Pacífico. É um lugar que conseguimos ver a reconfiguração do poder global", pontua.

Recentemente, os EUA, que são atores importantes no Indo-Pacífico, trouxeram tensão ao entorno quando sua embarcação que estava no Índico foi alvejada pelo Irã, o que demonstrou uma capacidade de ataque de longo alcance por parte de Teerã e isso traz preocupação nesse eixo, como contextualiza a especialista.

"Esse foi um episódio muito delicado e compreendo que a principal preocupação que isso traz para a região é a capacidade do que acontece no Oriente Médio pode ter consequências no Índico e, consequentemente, para o Indo-Pacífico, porque há muitos aliados dos EUA na região", destaca.

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Reconfiguração regional por impacto global

Apesar da assimetria existente entre forças políticas, econômicas e militares dentro da esfera de influência do Indo-Pacífico, por conta de um mundo cada vez mais interconectado, toda movimentação pode gerar instabilidade regional a partir de problemas a nível mundial que causam impactos em diferentes regiões que passam a ter outras demandas, dentre as quais a defesa da integridade do território, como uma das principais, o que gera um novo panorama geopolítico.

"As pressões que ocorrem, principalmente por movimentos dos EUA, têm um ímpeto de aproximar os países da região. Não dá para considerar o crescimento econômico sem pensar em parceiros em outros segmentos, como de energia e insumos agrícolas. Penso que a reconfiguração regional será de aproximação, até mesmo entre China e Índia, que têm uma relação complexa", conclui.

Em um sistema internacional recrudescido com conflitos sendo uma constante, onde nenhuma região está imune a escaladas militares devido a impasses geopolíticos, áreas estratégicas como o Indo-Pacífico avançam em suas dinâmicas locais tendo em vista as contradições e mudanças globais.
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