A maior mobilização indígena do país começou nesta segunda-feira (6), em Brasília (DF), reunindo milhares de representantes de povos originários de todas as regiões do Brasil para o início do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026. O evento deve reunir entre 7 e 8 mil participantes ao longo da semana.
Considerado o principal espaço de articulação política dos povos indígenas, o ATL marca também o início do Abril Indígena — período de mobilização nacional em defesa dos direitos territoriais, ambientais e políticos das comunidades tradicionais. Atualmente, existem 391 povos originários no Brasil.
A programação inclui duas marchas centrais: a mobilização "Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda", prevista para 7 de abril, e a marcha "Demarca, Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida", marcada para 9 de abril.
Entre os principais temas debatidos neste ano estão a representatividade política indígena e o avanço de grandes projetos econômicos em áreas consideradas ambientalmente sensíveis.
Demarcação de terras no centro das reivindicações
Em entrevista à Sputnik Brasil, Dinamam Tuxá, coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), afirmou que a demarcação territorial segue como prioridade do movimento.
"Mais de 120 povos se reúnem com uma pauta muito clara: nós temos uma demanda e um passivo gigantesco da política de demarcação de terras indígenas. Entendemos que o governo Lula retomou esse processo de demarcação de terras, mas que ainda temos uma demanda para ser cumprida. Estamos esperançosos de que, nos próximos dias, até no próprio acampamento, sejam anunciadas novas demarcações de terras indígenas."
Segundo ele, grandes empreendimentos continuam a ser motivo de preocupação para as comunidades indígenas, especialmente projetos de infraestrutura ligados ao agronegócio.
"Todo e qualquer empreendimento, o que nós prezamos é que não haja impacto nas terras indígenas. Sabemos que há um processo de lobby muito grande em relação a esses grandes empreendimentos, principalmente da Ferrogrão, que está ligada diretamente ao agronegócio, que tem um feito um lobby ao governo, a empresários e ao financiamento para que essa obra aconteça. Mas tem que saber que lá também há povos indígenas que vão ser impactados, direta e indiretamente. O que nós prezamos é que respeitem os direitos constitucionais dos povos indígenas."
Tuxá reforçou, ainda, a posição contrária à instalação de projetos dentro dos territórios tradicionais.
"Somos contra todo e qualquer empreendimento que impacta as terras indígenas. Se puder tirar isso, pleiteamos para que retirem esse empreendimento, mas sabemos que não temos força política para barrar muitos deles. Uma vez que, sendo colocados, que sejam respeitados os direitos dos povos indígenas, mas pautamos para nenhum tipo de empreendimento dentro das terras indígenas."
Impactos da Margem Equatorial
Outra preocupação levantada durante o encontro é o avanço da exploração energética na Margem Equatorial. Luene Karipona, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP), destacou impactos sociais já observados.
"Apenas agora, com um processo de pesquisa para a exploração na Margem Equatorial, ele trouxe uma grande especulação imobiliária, mas também grilagem de terra que avança para dentro do território indígena."
"Nesse processo não se considera dentro do projeto da Margem Equatorial e do bloco da foz do Amazonas. Muitas pessoas de fora têm vindo na tentativa de buscar melhorias de vida no território. Isso tem avançado, e o inchaço populacional já é uma realidade."
Cobrança histórica ao Estado brasileiro
Para José Luis Cassupá, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas (Opiroma), a mobilização também busca cobrar uma dívida histórica do Estado brasileiro, relacionada à demarcação territorial prevista na Constituição de 1988.
"A partir de 1988, que o Estado brasileiro tinha a obrigação de demarcar todas as terras indígenas do Brasil, ele não avançou nisso. Algumas foram demarcadas, mas outras não, e isso agravou o problema no Brasil porque havia povos que lutavam pela demarcação de seu território, e isso o governo deixou de lado. Vários governos que passaram, essas terras indígenas foram deixadas de lado. No governo passado, tivemos um retrocesso na demarcação e nos direitos ambientais e sociais."
"Hoje, a partir de 2023, fazemos uma análise de que parte avançou e outra não. O governo atual está apenas juntando os cacos das políticas públicas que foram revogadas no governo anterior. Estamos aqui para cobrar reparação ainda, dando continuidade a esse processo da demarcação das terras indígenas."
Cassupá também destacou a necessidade de ampliar a participação indígena nas decisões políticas do país.
"Estamos aqui para unificar forças e cobrar do Estado brasileiro essa responsabilidade. Vamos aqui somar forças para começar a pensar na participação no cenário político, tanto nos estados quanto nacionalmente. Chega de pessoas negociando nossos direitos no Congresso e nos estados. Queremos essa participação política, sim."