Em 17 de março, o governo argentino formalizou sua saída da Organização Mundial da Saúde (OMS), concretizando a
promessa anunciada há um ano pelo presidente argentino,
Javier Milei.
A medida repete o movimento feito pelo presidente estadunidense, Donald Trump, em 2025, em seu primeiro dia de mandato, alegando má gestão da organização durante a pandemia de COVID-19. Milei, por sua vez, alegou que a saída da Argentina se deu por necessidade de maior autonomia nas decisões sobre políticas de saúde.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, o doutor em sociologia e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) Eric Cardin afirma que o anúncio serve como um "carimbo" de alinhamento ideológico da Argentina com a Casa Branca.
Por outro lado, ele aponta que a medida leva a Argentina a perder garantias que todos os países dentro da OMS recebem, como ajuda técnica para resolver problemas de saúde pública. "A participação na OMS possibilita até mesmo uma diminuição de 75% do custo da compra de determinados insumos de vacinas e outros medicamentos quando é realizada pelo bloco."
Cardin explica que Milei acredita na capacidade da Argentina de substituir a OMS e seus descontos com acordos bilaterais na área da saúde. Porém, essa possibilidade "ainda não é visível". "A gente tem que esperar necessariamente enxergar isso na prática se a Argentina vai ter condições de negociar diretamente dentro do mercado de fármacos."
"A segunda questão é que a OMS garante uma estrutura de compartilhamento de informações técnica, de produção de medicamentos e de partilha de patentes, dos quais a Argentina não teria mais acesso."
Ele acrescenta que a falta desse acesso pode agravar a crise argentina, pois o país não tem a relevância geopolítica necessária para garantir vantagens em uma negociação bilateral.
Diante disso, ele afirma que a autonomia apontada por Milei como motivo para a ruptura fica "apenas no papel e no discurso", com pouca probabilidade de ser alcançada na "política real".
Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que a decisão de Milei não é isolada e faz parte de uma estratégia adotada há muito tempo: de seguir o interesse de Washington tanto em nível nacional quanto internacional.
Ela destaca que essa tentativa de Milei de estar o mais próximo possível da figura de Trump inclui também
imitar os trejeitos do presidente estadunidense e seguir sua agenda internacional, tendo inclusive afirmado que enviaria
tropas argentinas para o Irã caso fosse solicitado pelos EUA.
No caso envolvendo a OMS, a decisão do líder argentino afasta o país de parceiros europeus, que são os maiores financiadores da organização. "E aí, quando a Argentina opta em sair dessa instituição, ela perde, de fato, acesso a esses acordos de cooperação, mas não só isso, né? Expertise científica, técnica, enfim. Tudo o que poderia facilitar a ampliação e o aprofundamento dessas políticas de saúde."
Outra questão levantada por Mello é a falta de um planejamento estratégico do governo Milei para garantir que o
alinhamento automático com os EUA tenha algum benefício futuro.
Ela avalia que a Argentina está fazendo uma aposta acreditando que os EUA — por terem saído da OMS, levando consigo o dinheiro que era investido na organização — irão reorientar essa verba para a Argentina, já que o país está completamente alinhado ideologicamente e de maneira muito pragmática com a gestão Trump.