Uma decisão deliberada rumo à
escalada política e militar na Europa. Assim o governo russo definiu a revelação de que os aliados da Ucrânia pretendem ampliar a entrega de drones para Kiev em meio à escassez de pessoal das tropas e às perdas cada vez maiores no front. Conforme o comunicado, a produção dos equipamentos é realizada em países como
Reino Unido, Alemanha, Polônia, Dinamarca, República Tcheca, Países Baixos e até mesmo nações bálticas, enquanto a Ucrânia tenta apresentar os drones como armas de fabricação nacional.
Aliado a isso, a Rússia também alertou que a tentativa de
ampliar ataques terroristas contra o país pode gerar "consequências imprevisíveis". Para o ministério, a população europeia precisa conhecer o que realmente ameaça a segurança do continente, além de conhecer as empresas "ucranianas" que fabricam esses
drones e outros componentes que podem contribuir com o aumento das tensões na região.
Para o coordenador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Charles Pennaforte, o caso é mais uma demonstração de como a Europa tem participado do conflito de forma quase direta, tanto pela ajuda econômica, técnica e militar à Ucrânia quanto pelo apoio político.
O especialista pontua ainda que os países europeus desembolsaram recursos bilionários e, cada vez mais, a Ucrânia dá sinais de que, mesmo assim, "não vai conseguir sair vencedora". E o fornecimento de mais drones para o regime de Kiev, segundo ele, só constata a "fraqueza da solução proposta" pelos aliados europeus para as tensões na região. "Na verdade, o que nós observamos é que o líder da Ucrânia [Vladimir Zelensky] nada mais é que um grande fantoche nas mãos dos europeus e sabe, certamente, que é muito difícil uma vitória. Mesmo assim, continua com essa lógica belicista insuflado pelos líderes ocidentais", avalia.
Contudo, Pennaforte lembra que os
parceiros ucranianos no Velho Continente veem vantagens na continuidade da disputa, que "impulsiona" a indústria bélica da região, gerando lucros. "Na verdade, boa parte das armas enviadas não são doadas, mas entregues como créditos que a Ucrânia em
algum momento da sua história terá que pagar. E quanto mais armas ela recebe, mais a dívida que vai contraindo aumenta e o cenário fica cada vez mais preocupante para as próximas décadas".
O capitão da reserva da Marinha do Brasil Robinson Farinazzo afirma à Sputnik Brasil que
ampliar o fornecimento de drones à Ucrânia e, consequentemente, intensificar ataques contra o território russo é mais uma "medida de desespero". Outro ponto, conforme o especialista, é que a medida simboliza a
falta de tropas ucranianas "para manter também todo o perímetro defensivo" e, por isso, precisa atacar e se defender com drones.
O analista militar cita também a deficiência de pessoal no Exército ucraniano, mesmo com as rígidas leis de mobilização no país. "Não são esses drones que causam grandes problemas para a Rússia, mas os que possuem capacidade estratégica valendo-se do espaço aéreo de países contíguos à Rússia e usados para atacar refinarias, instalações petrolíferas, fábricas de aeronaves, entre outros", exemplifica.
Já a pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e cientista política Alana Leal Rêgo também vê a "internalização da cadeia produtiva [bélica] em solo europeu" como uma ampliação da participação, mesmo que de forma "não declarada". Diante de mais esse elemento, a especialista vê os aliados europeus como "atores estruturais" do esforço de guerra ucraniano.
"Vemos isso como um mecanismo de gestão de escalada, evitando que a
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) seja formalmente percebida como parte direta do conflito. Do ponto de vista do direito internacional, essa prática situa-se em uma zona cinzenta: embora o fornecimento de armas não constitua automaticamente participação direta em hostilidades, a integração industrial e tecnológica profunda pode levantar questionamentos sobre responsabilidade indireta", resume.
Segundo Rêgo, também há um reforço da alegação russa de que existe uma coordenação sistêmica do Ocidente para a manutenção da disputa, o que também se articula com elementos históricos que levaram ao início da operação militar especial, como a expansão da aliança para o Leste no pós-Guerra Fria.
Charles Pennaforte acrescenta que o envolvimento cada vez maior da Europa para "salvar a Ucrânia de uma derrota" pode fazer com que a Rússia também aumente suas apostas no sentido militar. Segundo o especialista, o conflito na região é "muito importante para o Ocidente", que busca, a qualquer custo, conter a consolidação de um mundo multipolar, no qual Moscou figura entre os principais atores.
Por fim, o analista pontua que o objetivo dos aliados europeus sempre foi promover uma
mudança de governo na Rússia, principalmente com as sanções, que ele avalia como desproporcionais.
"A guerra hoje se desenvolve não pela capacidade ucraniana de enfrentar a Rússia, mas sim pela participação europeia e norte-americana neste cenário. Em condições normais, o embate já deveria ter acabado há bastante tempo e, independentemente de como seria negociada, o fato é que realmente existe uma tentativa organizada de enfraquecer a Rússia".