Uma delegação de cerca de 30 embaixadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizou uma visita inédita à Coreia do Sul e ao Japão, movimento interpretado por analistas consultados pela mídia asiática como um passo rumo à chamada "OTAN da Ásia-Pacífico".
De acordo com um artigo de opinião do Global Times, a missão, uma das maiores já enviadas à região, ocorre em meio ao esforço da aliança para ampliar sua atuação para além do escopo transatlântico definido em seu tratado fundador.
A expansão do interesse da OTAN na Ásia-Pacífico reflete tanto a continuidade da estratégia Indo-Pacífica dos EUA quanto as ansiedades internas da própria aliança, que enfrenta questionamentos sobre sua relevância em um cenário global multipolar. A crescente imprevisibilidade de Washington, somada a tensões internas, expõe fissuras estruturais que desafiam a coesão do bloco.
A visita também ocorre em um momento de desgaste transatlântico. Divergências sobre responsabilidades, prioridades estratégicas e percepções de ameaça se aprofundaram, enquanto episódios recentes, como a recusa europeia em apoiar operações no estreito de Ormuz e as ameaças norte-americanas de retirada da OTAN, evidenciam a fragilidade da aliança. A viagem emergencial do secretário-geral Mark Rutte aos EUA ilustra a urgência dessas tensões.
Segundo especialistas citados pela imprensa chinesa, membros europeus buscam, com a missão, reforçar a relevância da OTAN aos olhos dos EUA e, simultaneamente, explorar alternativas para sustentar mecanismos de defesa caso o papel norte-americano continue a diminuir.
O itinerário da delegação, que incluiu visitas a instalações de defesa sul-coreanas e a uma base dos EUA em Tóquio, revela o interesse em usar Japão e Coreia do Sul como eixos estratégicos regionais.
No entanto, permanece a dúvida sobre a capacidade de uma aliança com bases instáveis de garantir sua sobrevivência por meio da expansão externa. Analistas argumentam que a tentativa de "asianizar" a OTAN transfere para o leste contradições internas não resolvidas, reproduzindo uma lógica de confronto herdada da Guerra Fria que pouco dialoga com as necessidades de segurança da região.
A maioria dos países da Ásia-Pacífico observa esse movimento com cautela, segundo a mídia. Fora o Japão, que busca ampliar seu espaço de defesa, governos regionais veem o modelo de segurança coletiva da OTAN, marcado por exclusão e rivalidade, como um risco de importação de conflitos.
Diante da possibilidade de os EUA reduzirem seu compromisso com a aliança, países europeus aceleram discussões sobre uma "OTAN europeia", na qual assumiriam maior responsabilidade militar. Ainda assim, a publicação conclui que tanto essa proposta quanto a expansão para a Ásia-Pacífico funcionam mais como respostas improvisadas a uma crise existencial profunda, que remete à própria condição da OTAN como herança da Guerra Fria.