Panorama internacional

Indonésia busca autonomia estratégica em parceria com a Rússia, afirmam especialistas

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que estreitar laços com a Indonésia traz a Rússia para perto do estreito de Malaca, passagem do Sudeste Asiático crucial para o comércio global.
Sputnik
A aproximação estratégica entre Rússia e Indonésia levanta debate sobre uma mudança no equilíbrio de poder na região do Indo-Pacífico.
No contexto da ascensão do Sul Global e da expansão do BRICS, os dois países convergem em torno de uma política externa mais multipolar, com ambos buscando reduzir dependências do Ocidente e ampliar sua autonomia estratégica dentro de novos arranjos econômicos e diplomáticos.
Recentemente, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, em Moscou, para fortalecer a relação bilateral. No encontro, foram tratados temas como cooperação energética, comércio e segurança econômica, incluindo possível ampliação da compra de petróleo russo, investimentos em infraestrutura e tecnologia, além de parcerias em fertilizantes, grãos e energia nuclear civil.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, a doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Letícia Simões avalia que a aproximação entre Rússia e Indonésia "sinaliza um avanço importante do BRICS em direção ao Sudeste Asiático". Ela diz que a entrada da Indonésia como membro pleno do BRICS, em janeiro do ano passado, fez o Sudeste Asiático passar de "espectador" para "participante mais ativo" do grupo.

"E aí a porta de entrada é a Indonésia, o que também vai trazer um peso inédito do BRICS, de uma certa forma, também para a ASEAN, para a Associação de Nações do Sudeste Asiático", afirma.

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Simões diz que a aproximação da Indonésia com o BRICS impõe um desafio à hegemonia ocidental no Sudeste Asiático, levando os EUA a reagirem para evitar o estreitamento de laços do país com o eixo de Moscou e Pequim.
"Inclusive, no mesmo dia da visita do presidente indonésio à Rússia, ao Kremlin, os EUA também assinaram uma parceria de cooperação de defesa com a Indonésia […], então eu acho que esse papel dos EUA também precisa ser pensado nessa relação entre a Indonésia, a Rússia, a China. Os EUA estão ali também, observando muito de perto."
Ela destaca que os acordos simultâneos ilustram a busca do governo indonésio pela independência, uma tentativa de equilibrar as relações sem alinhamento e de tirar vantagem de cada lado, "sem necessariamente pender para nenhum".

"É uma Indonésia que busca, claro, uma autonomia estratégica. Ela não abandona o Ocidente de todo, mas procura, parece cada vez mais, reposicionar a sua política externa para garantir também que ela não seja refém de uma única esfera de influência", explica.

Simões afirma que, para a Rússia, uma das vantagens da aproximação com a Indonésia é ampliar a presença de Moscou no estreito de Malaca, que, assim como o estreito de Ormuz, tem grande importância para o comércio internacional.
"É colocar a Rússia muito mais perto dessa região, que pode ser um ponto de atrito, […] então uma proximidade com a Indonésia em uma região que é tão cercada por bases norte-americanas e também pela presença chinesa, de fato, é um diferencial."
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Já para o lado indonésio, a aproximação com Moscou traz a oportunidade de cooperação em energia nuclear civil, que foi um dos tópicos da parceria firmada no encontro entre Putin e Subianto. Simões afirma que a Indonésia tem questões tecnológicas pontuais que precisam ser melhoradas, e uma parceria de longo prazo com a Rússia pode trazer maior estabilidade em termos energéticos, frente à crise dos mercados globais de energia.
Além disso, há parcerias no âmbito militar, principalmente de treinamento de militares indonésios em território russo.

"A Rússia é fornecedora tradicional de determinados armamentos utilizados na Indonésia. Então, acho que essa aproximação também diz respeito a isso. Mesmo que num nível secundário, se comparado às questões associadas ao que parece ser mais gritante no momento para a Indonésia, que é a questão da autonomia energética", afirma Simões.

A aproximação com a Indonésia é importante também porque o país é um dos motores da economia mundial, segundo aponta Valter Peixoto Neto, pós-graduado em relações internacionais, analista político independente da ASEAN e apresentador do podcast MenteMundo.
"A Rússia tem muito a ganhar com essa aproximação, e o BRICS como um todo também. […] para a Indonésia, também é interessante essa aproximação, porque é uma matriz muito suja, uma das maiores minas de carvão do mundo é na Indonésia", afirma.
Ele diz que a relação da Indonésia é baseada em cautela, pois se trata da maior economia da ASEAN, bloco que tem a imagem calcada na neutralidade. Segundo Peixoto, se essa imagem for perdida, não apenas as agendas externas dos países da ASEAN serão arranhadas, mas a economia deles.

"No momento em que o mundo perceber que eles tomaram um lado, vai deixar de ser essa 'menina dos olhos' do mundo. Você vê que todas as grandes regiões do mundo têm parceria com eles de livre comércio. Celulares são feitos lá. […] Então a ASEAN, até o momento, vem jogando muito bem nesse palco de vários atores."

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