Panorama internacional

'Bíblia' da geopolítica: por que Clausewitz ainda é lido quase 200 anos depois (VÍDEOS)

Nesta quinta-feira (23), celebra-se o Dia Mundial do Livro, que é uma data importante para se pensar na geopolítica e em seus impactos, como a obra 'Da Guerra' do autor prussiano Carl von Clausewitz, publicada um ano após a sua morte, em 1832, que segue conceitualmente relevante para interpretar o cenário internacional e os conflitos atuais.
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Para Leonardo Paz, professor de relações internacionais do Ibmec Rio de Janeiro, em entrevista à Sputnik Brasil, um dos legados desse título é a possibilidade de compreensão da complexa relação entre os países na política internacional, onde muitos interesses estão em jogo.

"O 'Da Guerra' é considerado para muita gente uma bíblia da geopolítica e lida com a gramática da relação entre os países e como vão entrar em dado conflito. Então, é um livro ainda superatual, no sentido de que, a partir da compreensão de certos conceitos de Clausewitz, é possível a gente traçar uma série de análises e compreender circunstâncias que envolvem a colisão entre países", disse.

Atualmente, ainda há conflitos prolongados e pressões militares entre Estados em diversas regiões do mundo e, nesse contexto, o professor traça um paralelo do conceito 'Fog of war' empreendido pelo autor prussiano com a crise no Oriente Médio que envolve diretamente EUA, Israel e Irã.

"Há conceitos [no livro] como o de 'Fog of War', ou seja, uma névoa de incerteza, que está sempre dentro de um conflito e esse conceito é muito utilizado até hoje, por exemplo, quando o governo Trump, no conflito contra o Irã, não tem clareza de todos os elementos que estão contidos dentro da resposta e resistência iraniana e nem da capacidade ou da vontade do governo iraniano de fechar o estreito de Ormuz", comenta.

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Guerra é a continuação da política por outros meios

A frase acima é uma das citações mais célebres no âmbito de 'Da Guerra' e revelou ainda no século XIX como os confrontos bélicos têm como origem o fator político, que precede a hostilidade, e o uso da força acaba sendo um instrumento de natureza politizada antes de tudo, conforme observa Paz.

"Eu, como cientista político, acho que tudo é política, até a ideia de quem determina para onde vão os recursos e o que se produz de fato. Sem dúvida, guerras são políticas, e que pesem alguns elementos que possa argumentar sobre uma guerra defensiva, mas, na realidade, houve um ataque para poder ter um tipo de conflito e esse ataque tem um motivo, que é alguém querendo controlar algo que não controla", pontua.

Outro ponto levantado pelo docente é o que Clausewitz chama de "guerra total", ou seja, processo que vai afetar todas as áreas de determinada sociedade, mas que não afetará tanto outras que estão envolvidas no conflito, e cita como exemplo um caso contemporâneo, a Guerra na Síria.

"A questão da guerra total toca todas as esferas sociais da sociedade, como foi na Síria. Há maneiras diferentes de olhar para o conflito e ver como ele está impactando certas sociedades. Ele pode ser total para aquelas que sofrem intervenção, mas a dinâmica é diferente para quem invade ou apoia. Então, a mensuração do formato faz com que a guerra não seja igual para todos", explica.

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Cenário político europeu presente em 'Da Guerra'

Antes de Marie von Clausewitz publicar a obra dele de forma póstuma, Carl von Clausewitz acumulou uma vasta experiência na arte da guerra ao longo de sua vida. Além de oficial prussiano, chegou a servir como combatente voluntário no Império Russo, para onde partiu por discordar do alinhamento forçado da Prússia a Napoleão Bonaparte. Sob a bandeira russa, ele lutou ativamente contra a invasão napoleônica, em 1812, o que lhe deu ainda mais profundidade sobre guerras no contexto europeu.
O professor Leonardo Paz contextualiza que o período turbulento da política europeia fez com que Clausewitz percebesse a formação dos Estados na Europa a partir de guerras e como os conflitos são um elemento central para uma transição histórica.

"O contexto do livro surge quando a Prússia vinha se consolidando como potência na região e como locomotiva na formação do Estado alemão em meio a muitas guerras. Clausewitz está preocupado com a Europa, porque é o mundo imediato dele. Ele passa a entender o conflito na formação dos Estados e, para ele, isso é importante porque significa compreender como operar as próximas transições do futuro", conclui.

Muito além de explicar o presente, o estudo histórico fornece ferramentas práticas necessárias para a preservação do Estado e a eficácia militar. O legado de Clausewitz prova que certos princípios são universais e que sua teoria não é apenas um registro de época, por servir ainda como guia para aqueles que buscam assegurar a autonomia nacional em um cenário global em constante transformação.
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