Panorama internacional

Em meio a nova Doutrina Monroe, Petrobras busca expansão na América Latina com foco no México

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, ex-executivo da estatal explica necessidade mexicana de ajuda brasileira e as vantagens de Brasília na exploração do golfo do México.
Sputnik
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, visitou na última sexta-feira (24) o México, onde se reuniu com a presidente do país, Claudia Sheinbaum, para discutir uma parceria da estatal brasileira com a empresa pública de petróleo mexicana, a Pemex.
A expectativa é que a Petrobras auxilie a Pemex na exploração de poços profundos no golfo do México, utilizando o conhecimento adquirido ao longo dos anos com os trabalhos no pré-sal brasileiro. Outro desejo do governo de Sheinbaum é o conhecimento em biocombustíveis, uma vez que o Brasil é referência com o etanol.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Marcelo Simas, ex-executivo da Petrobras, explica que a produção de petróleo no México está em queda há mais de dez anos e que a parceria com a Petrobras pode dar uma nova vida à Pemex.

"Acontece que o México não tem uma tecnologia de águas ultraprofundas, é uma tecnologia muito restrita e eles dependem de outras empresas privadas. Uma empresa como a Petrobras, que tem obviamente uma experiência nessa área, […] é muito interessante para o México fazer uma parceria, justamente para poder ampliar a sua produção."

Simas, que é professor de geopolítica energética na Fundação Getulio Vargas (FGV), na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta que o México é o 12º maior produtor de petróleo do mundo, com pouco mais de 2 milhões de barris por dia, enquanto o Brasil flutua entre o 7º e 8º com o dobro da produção mexicana.
O analista aponta que há ainda outra razão do interesse brasileiro em expandir suas operações. Apesar de ser referência petrolífera no cenário latino-americano, o Brasil possui 17 bilhões de barris em suas reservas de petróleo. Se levado em consideração o consumo de hoje, isto equivale a 14 anos de consumo interno, o que é pouco.
Logo, aumentar essas reservas é um dos principais motivos da expansão da Petrobras não só para o golfo do México, mas também para outros mercados, como Angola, Índia e Suriname.
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Apesar do histórico de parceria política com a Venezuela no início deste século, o professor explica que o hidrocarboneto de Caracas não tem as mesmas propriedades do petróleo brasileiro, dificultando uma parceria entre Petrobras e PDVSA.

"Para o Brasil, é um petróleo que não tem muita serventia, porque as nossas refinarias já foram adaptadas no passado para o pré-sal. E o pré-sal é um petróleo mais leve. Então o Brasil ainda importa petróleo, uma quantidade muito pequena, que é o petróleo da Nigéria, que tem sinergia com o do Brasil."

Além das diferenças entre o tipo de hidrocarboneto, uma parceria com Caracas para a extração de petróleo envolveria driblar as ações de Washington sobre os recursos naturais do país. Desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, em janeiro, os Estados Unidos têm comandado os negócios energéticos locais.
Simas é enfático ao destacar que esta ação da gestão norte-americana tem como objetivo fragilizar a China, a principal compradora da Venezuela. O mesmo acontece no Irã.

"A China, há muitos anos, comprou esse petróleo antecipadamente da Venezuela, em uma operação chamada Oil for Loan [óleo por empréstimo, em tradução livre]. Cerca de 80% a 85% dessa produção venezuelana irá para a China. Ao que parece, a mesma coisa está acontecendo no Irã."

Ainda sobre os Estados Unidos, Simas acredita que Washington esteja tentando implementar uma nova Doutrina Monroe, mas desta vez o objetivo é afastar China e Rússia da América Latina. Essa pressão constante da Casa Branca sobre a região teria sido o que impediu uma unificação regional até agora.

"Os EUA sempre procuraram fazer dissensões entre os países da América Latina, justamente para que eles não se unissem, [senão] eles perderiam a capacidade de influenciá-los. Então, alguns países mais ajuizados, como Brasil, México e Argentina, no passado, são países que têm condição de liderar [a união]. Mas sempre os EUA estão atuando, por meio dos mais diversos tipos de intervenções, para não deixar que esses países se unam, para justamente não chegar a uma integração política, regional e comercial."

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